
Eleição para presidente no Irã é marcada pela grande participação de jovens e mulheres
A participação elevada, principalmente de jovens e mulheres, e a ausência de incidentes graves foram os destaques das eleições que acontecem nesta sexta-feira no Irã, onde mais de 46 milhões de eleitores escolhem o próximo presidente do país.
Desde a abertura dos colégios eleitorais, às 8h (0h30 em Brasília), as longas filas, as aglomerações às portas das mesquitas e das escolas onde é possível votar, e o ambiente festivo marcam o dia na República Islâmica.
Por volta do meio-dia (local), cerca de cinco milhões de eleitores já tinham votado, conforme anunciou à imprensa oficial o ministro do Interior, Sadek Mahsuli, que acrescentou que as autoridades esperam uma participação recorde em eleições do Irã.
Os iranianos decidem nesta sexta-feira se reelegem o atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, ou se preferem que ele seja substituído por um dos três candidatos da oposição: o independente pró-reformista Mir Hossein Mousavi, o clérigo Mehdi Karubi e o conservador Mohsen Rezai.
As previsões indicam que a disputa mesmo se dará entre Ahmadinejad e Mousavi, que foi primeiro-ministro do Irã entre 1981 e 1988.
A taxa de participação dos eleitores é considerada um fator chave para permitir a realização de um segundo turno, ou até mesmo que Mousavi, um conservador moderado, vença no primeiro turno e se transforme na segunda pessoa mais poderosa do país depois do guia supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
Na eleição de 2005, quando Ahmadinejad, praticamente um desconhecido até o momento, venceu o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsandjani para surpresa de todos, a participação foi de 60%.
Votos
Na entrada dos colégios do norte da capital Teerã, a maioria dos eleitores dizia que seu voto seria em Mousavi, que conseguiu despertar uma nova esperança entre os jovens e principalmente entre as mulheres, que compareceram às urnas em massa.
"Espero derrotar Ahmadinejad", disse Mahnaz Mottaghi, 23, depois de depositar seu voto em uma mesquita no centro de Teerã.
Do lado de fora do mesmo local de votação, Abbas Rezai, 29, disse que ele, sua esposa e sua cunhada havia votado em Ahmadinejad.
"Teremos ele como presidente por mais um mandato, com certeza", disse.
No sul, a região mais pobre da capital, a maioria dos eleitores se inclinava por Ahmadinejad, mas também havia um grande número de partidários dos candidatos reformistas e do conservador Rezai.
Ahmadinejad recebe mais apoio nas zonas rurais, enquanto Mousavi é popular nos núcleos urbanos e nas regiões onde vivem as minorias do país, como os curdos ou os armênios.
Segundo o Ministério do Interior, os colégios deverão fechar às 18h (10h30 de Brasília), mas tudo indica que o prazo se estenderá por várias horas, com o limite fixado em meia-noite (local).
Os resultados finais, que devem ser validados pelo poderoso Conselho de Guardiães, serão anunciados 24 horas depois do fechamento dos colégios.
Candidatos no Irã defendem maior diálogo com EUA
Os quatro candidatos à Presidência do Irã, que realiza eleições nesta sexta-feira, disseram em debates na televisão que dialogariam com os Estados Unidos caso fossem eleitos.
O conservador Mahmoud Ahmadinejad, que busca um segundo mandato e é conhecido por suas posições duras em relação a EUA e Israel, disse que estaria disposto a se encontrar com o presidente americano Barack Obama, caso fosse reeleito.
O ex-primeiro-ministro reformista Mir Hossein Mousavi, que lidera as intenções de voto, segundo pesquisas, declarou em uma conferência de imprensa que negociaria com os EUA, embora tenha dito que não desistiria do programa nuclear do Irã.
Os dois outros candidatos, o ex-chefe da Guarda Revolucionária Mohsen Rezai, o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karubi, também declaram em campanhas que dialogariam com o governo americano.
Ambos acusaram Ahmadinejad de guiar a política externa iraniana em terrenos perigosos, com uma posição de confronto contra o Ocidente, especialmente os EUA.
Portas abertas
Segundo o analista político iraniano Sharif Emam Jomeh, a postura mais amistosa dos candidatos se deve ao fato de Obama ter aberto as portas ao diálogo com países da região, incluindo Irã e Síria, dois países que estavam no isolamento durante a administração do ex-presidente George W. Bush.
"Há uma disposição da população em geral de querer ver o Irã menos isolado internacionalmente. Um discurso amistoso em relação aos EUA e Ocidente atrairá mais votos", salientou Jomeh.
Entretanto, as posições dos quatro candidatos diferem em como chegar a um maior diálogo com Washington.
Mousavi declarou que definitivamente negociaria com o governo americano e que a 'paz com qualquer país beneficiaria os interesses do Irã'.
Mas ele advertiu que uma reaproximação entre os dois países só seria viável caso Obama mudasse a política americana em relação ao Irã.
'Todos, no entanto, defendem o direito iraniano à tecnologia nuclear, inclusive os reformistas', completou Jomeh.
A administração Obama disse em diversas oportunidades que gostaria de conversar com o Irã, mas também deixou claro que o programa nuclear iraniano e seu programa de mísseis eram uma ameaça na região.
Os EUA e outros países ocidentais acusam Teerã de tentar desenvolver armas nucleares, mas o governo iraniano alega que seu programa tens fins pacíficos, para geração de energia.
'Mousavi se comprometeu a um diálogo desde que o país não tivesse que pagar altos custos como ser impedido de ter acesso às tecnologias avançadas', explicou Joumeh.
O reformista também condenou os crimes contra judeus durante o Holocausto, dizendo que qualquer matança de pessoas inocentes deveria ser repudiado.
Ele, no entanto, condenou Israel pela 'ocupação e mortes de palestinos, e que o mundo deveria agir em prol do povo palestino'.
'O discurso de Mousavi por sim só é muito diferente das posições de Ahmadinejad, que em 2005 chamou o Holocausto de mito, causando uma condenação internacional', disse o analista iraniano.
Ahmadinejad
O linha-dura Ahmadinejad recentemente declarou que se encontraria com Obama para discutir interesses mútuos e problemas mundiais nas Nações Unidas.
Segundo Joumeh, esta é uma nova tática do presidente iraniano para amenizar sua imagem de intransigente e conservador.
'Ele quer atingir o público jovem, cansado do isolamento do país perante o Ocidente. Mas creio que isso não convencerá o eleitorado, devido a suas retóricas antiamericanas dos últimos anos, e que causaram enormes danos à imagem do país'.
Para o analista, só o fato do conservador Ahmadinejad mostrar interesse em aproximar o Irã dos EUA já é uma mudança, dado o tabu que existe entre os iranianos sobre as intenções dos americanos.
Em 1953, Washington liderou um golpe contra o democraticamente eleito e popular primeiro-ministro Mohammad Mosaddeq, que buscou nacionalizar as refinarias de petróleo do país.
'O golpe claramente atrasou o desenvolvimento político do Irã, e é por isso que muitos iranianos até hoje se ressentem dos EUA', explicou Joumeh.
Em seu discurso no Cairo, no dia 4 de junho, dirigido ao mundo islâmico, o presidente Obama reconheceu o papel americano no golpe contra Mosaddeq, fato inédito até o momento.
'Esta doutrina antiamericana é a base de Ahmadinejad, e grande parte de seu eleitorado era motivado com discursos inflamados contra os EUA e Israel. Será interessante ver como ele levará adiante sua nova postura, se for reeleito'.
Os eleitores iranianos estão indo às urnas nesta sexta-feira para eleger o próximo presidente do país. Se houver a necessidade de segundo turno, será realizado no dia 19 de junho.
Resultado de eleição presidencial pode mudar relações entre EUA e Irã
As eleições presidenciais desta sexta-feira no Irã podem marcar um ponto de inflexão nas difíceis relações entre a República Islâmica e os Estados Unidos, depois de o presidente americano, Barack Obama, já ter oferecido um novo começo a Teerã.
Desde que chegou ao poder, em janeiro, Obama buscou cumprir a promessa feita nas eleições de tentar abrir um diálogo com o Irã, um dos países que o ex-presidente George W. Bush (2001-2009) incluiu no famoso "eixo do mal" e com o qual os EUA não têm relações diplomáticas desde 1979.
Obama chegou a enviar uma mensagem direta às autoridades e ao povo iraniano: um vídeo gravado por ocasião do ano novo persa em que ofereceu um "novo começo", caso o Irã decida cumprir seus compromissos internacionais.
Atitude parecida teria sido impensável durante o mandato de Bush, que sempre se negou a ter qualquer tipo de diálogo bilateral enquanto o Irã não abrisse mão do apoio ao terrorismo, da ameaça a Israel e de seu programa nuclear.
O atual presidente americano sempre insistiu que não tem "ilusões" sobre a natureza do regime iraniano e reconheceu que uma normalização das relações, caso realmente se consiga, seria algo muito difícil e levará tempo.
Obama antecipou, após uma reunião em 18 de maio com o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que, até o fim do ano, será possível determinar o caminho que guiará a aproximação.
Se não forem alcançados avanços, segundo Obama, os EUA considerariam o endurecimento das sanções atuais, mas, em todo caso, é preciso esperar o resultado das eleições no Irã.
A disputa principal ocorre entre o presidente Mahmoud Ahmadinejad, que busca a reeleição após quatro anos de contínuo confronto com o Ocidente, e o ex-primeiro-ministro reformista Hussein Mousavi, que são apontados pelas pesquisas como favoritos.
Mousavi afirma que, se vencer, aproveitará a oferta de aproximação americana; já o que será feito por Ahmadinejad é menos claro.
A situação foi complicada pelo episódio protagonizado pela jornalista americano-iraniana Roxana Saberi, detida em abril e que, após um julgamento de um dia, foi condenada a oito anos de prisão por espionagem.
Os EUA lançaram mão de todo seu aparato diplomático, com a secretária de Estado, Hillary Clinton, à frente, e conseguiram que, em um julgamento de apelação, a pena fosse reduzida e tivesse seu cumprimento adiado, o que permitiu que Saberi deixasse o Irã no mês passado.
Uma aproximação nas relações entre Teerã e Washington representaria um verdadeiro marco nos laços entre os dois países, inexistentes desde que estudantes radicais tomaram a Embaixada dos EUA no Irã em 1979 e fizeram 63 pessoas de reféns durante 444 dias.
Em 1986, veio à tona o escândalo sobre as conversas secretas entre Washington e Teerã para o envio de armas à República Islâmica, em troca de ajuda na libertação de reféns americanos no Líbano, que geraram a maior crise do governo de Ronald Reagan.
A relação ficou ainda pior quando um porta-aviões americano lançou por engano um míssil contra um avião de passageiros iraniano em 1988.
A Guerra do Golfo, onde o Irã adotou uma posição neutra, abriu a primeira possibilidade de aproximação. Em setembro de 2000, a então secretária de Estado, Madeleine Albright, reuniu-se com o chanceler iraniano, Kamal Kharrazi, na ONU, a primeira conversa desse tipo desde 1979.
A chegada ao poder de George W. Bush, que colocou Teerã junto a Pyongyang e Bagdá no "eixo do mal", e as denúncias da CIA (agência de inteligência americana) de que o Irã preparava um programa nuclear, colocaram fim a esses contatos.
As conversas só seriam recuperadas, ainda que de forma moderada, após a invasão do Iraque, quando os embaixadores dos dois países em Bagdá se reuniram em maio de 2007 para discutir sobre a segurança do Irã.
Qualquer outro contato foi condicionado à renúncia do Irã ao seu programa nuclear. O resultado das eleições pode representar a melhor oportunidade até agora para uma aproximação de dois velhos inimigos.
Fontes: FOLHA- AP - REUTERS - EFE
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