Um voo cada vez mais raro no céu de Portugal



MARIANA CORREIA DE BARROS

O número de casais tem vindo a diminuir ao longo das últimas décadas. Perda de 'habitat' e a escassez de alimentos são a maior ameaça à sobrevivência do abutre-do-egipto.

É cada vez mais raro de observar. A perda de habitat e a falta de alimentos estão a deixar o abutre-do-egipto à beira da extinção. Em breve, os grandes círculos que desenha no céu com as suas longas asas brancas franjeadas de negro poderão não passar de uma miragem em Portugal.

"O abandono da pastorícia tradicional e a construção de barragens fez com que o abutre-do-egipto deixasse de ter condições favoráveis para perma- necer no nosso país, não só pela falta de alimento, como também pela não existência de locais para fazer os ninhos", diz o biólogo Carlos Pacheco. O abutre-do-egipto nidifica em zonas inóspitas e tranquilas, tipicamente com escarpas.

A espécie sofreu uma grande regressão na década de 80. E os especialistas advertem que se não forem tomadas algumas medidas mais palpáveis, este necrófago corre o risco de desaparecer. Tanto mais que a taxa de reprodução desta ave é muito baixa. Dos dois ovos que põem uma vez por ano, acaba, muitas vezes, por sobreviver apenas uma cria. "Normalmente não têm capacidade de substituição quando há perda de um dos ovos. O que acontece com chuvas fortes que arrefecem os ovos", conta o biólogo. Os casais também não se reproduzem quando não estão em boas condições físicas. "Mantêm o território ocupado mas não acasalam".

O declínio das populações tem também uma relação directa com as directivas da União Europeia, que exige a recolha de todos os animais mortos dos campos, a sua principal fonte de alimentação. "Tudo isso tem trazido enormes problemas às populações de abutres e ao abutre-do-egipto em particular".

Não existem dados exactos sobre o seu número em Portugal. Sabe-se que faz parte da fauna natural do país há vários séculos e a sua evolução não teve qualquer interferência humana. Mas hoje apenas podemos encontrá-lo em duas regiões, no Tejo Internacional e Douro Internacional. "A espécie já teve distribuição muito ampla, quase em todo o país, mas sofreu uma regressão muito forte no século XIX e ficou reduzido às duas áreas onde actualmente pode ser observado", refere Carlos Pacheco.

Em 2000, ano em que se realizou o último censo nacional, o número de casais que efectivamente nidificaram em território nacional eram de 83 a 84. Mas foram igualmente contados outros 47 que nidificaram nas zonas fronteiriças espanholas. "Para efeitos de avaliação ecológica da população que usa o território português, o número corresponde a 130 casais", explica.

O núcleo da zona do Douro Internacional e alguns afluentes perto da fronteira é o mais sólido do país, tendo mais de 90 casais. Os restantes ocupam a área do Tejo Internacional, havendo casais na campina de Idanha, serra de Penha Garcia e também um casal na parte norte do distrito de Portalegre. Em tempos a zona do caule do Guadiana foi também um dos territórios ocupados por estas aves necrófagas, "mas extinguiu-se totalmente nos anos 80".

No sul do país, o abutre-do-egipto foi alvo de perseguição durante muitos anos. "Até aos anos 70 era legal exterminar predadores, sendo muito comum a utilização de carcaças envenenadas. Hoje já é proibido, mas muitos casais desapareceram para não mais voltarem. E pensa-se que esporadicamente ainda sejam abatidos a tiro", explica Carlos Pacheco. Outra das razões prende-se com a perda de habitat, nomeadamente devido à construção de barragens que submergiram os locais de nidificação tradicionais. A acessibilidade dos ninhos é outra explicação. "Apesar de estarem em escarpas, são fáceis de aceder por predadores como a fuinha ou a raposa. Pelo contrário na área do Douro, as aves nidificam em locais muito mais inacessíveis".

Os primeiros abutres-do-egipto começaram a chegar de África no final do mês de Fevereiro. Depois de criarem uma nova família, irão voar de regresso no fim de Setembro/início de Outubro. E vai ser preciso o esforço de todos para que não parta para sempre.

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