Um patrimônio argentino

Tal como o tango ou a carne, o protesto é um legítimo patrimônio argentino. E, de preferência, com bloqueio de ruas e avenidas.

A prática é tão institucionalizada a ponto de os telejornais anunciarem, ali pelo início da tarde, quais serão os “cortes do dia” em Buenos Aires.


Bloqueios são anunciados com antecedência na mídia

Moradores indignados porque uma avenida virou mão dupla, camelôs ameaçados por fiscais, ex-militares que reclamam indenização pela guerra das Malvinas (1982): não faltam versados nessa arte pampeana.

E às vezes a coisa não termina bem. Na última segunda-feira, por exemplo, policiais e trabalhadores do setor gastronômico em campanha salarial entraram em confronto, com ao menos dez manifestantes e sete policiais feridos.


Confronto entre policiais e sindicalistas na última segunda-feira, em plena Recoleta

Ouço sempre críticas de taxistas sobre a inação dos governos de turno ante reclamos pontuais que afetam a vida de quem nada tem a ver com aquilo. Pedem que esses atos tenham o mínimo de organização e respeito ao direito alheio.

O fato é que os governos municipal e federal, adversários políticos, parecem, na maior parte dos casos, evitar o desgaste político de desocupações e confrontos.


Estudo do Instituto Nueva Mayoria mostra que o setor rural, em confronto com o governo Cristina Kirchner, liderou os bloqueios de vias no país de abril/08 a março/09

O crescimento dos protestos de rua na Argentina é resultado das transformações que sacudiram o país nos últimos 30 anos, processo marcado pelo empobrecimento, vulnerabilidade e exclusão social.

A crise de 2001/2002 trouxe à tona a figura dos piqueteiros e o “que se vayan todos”. Os anos de bonança econômica do pós-crise pulverizaram as demandas e o senso de destino comum dos argentinos.


Homem protesta contra a estatização da previdência privada

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