Sri Lanka mata líder rebelde e declara fim de guerra civil

Grupo rebelde buscava um Estado independente para a minoria da etnia tâmil e conflito durava 25 anos

COLOMBO - O governo do Sri Lanka anunciou nesta segunda-feira, 18, ter retomado o controle da última região em mãos dos Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE, em inglês). O Exército ainda informou ter matado o líder do grupo, Velupillai Prabhakaran e mais 250 rebeldes. Com isso, o governo cingalês declarou o fim da guerra civil no país, que já durava 25 anos.

O grupo rebelde buscava um Estado independente para a minoria da etnia tâmil, que habita o norte da ilha do Oceano Índico. Segundo a Organização das Nações Unidas, desde janeiro até o dia 7 de maio, 7 mil civis morreram nos confrontos entre o Exército e os Tigres Tâmeis. Nos últimos dez dias, autoridades médicas cingalesas estimam que outras mil pessoas foram mortas.

A morte de Prabhakaran era vista como crucial para pôr fim à guerra na devastada pequena nação do Índico. Se escapasse do cerco, o líder guerrilheiro poderia usar sua rede de contrabando de armas e doações de tâmeis no exterior para reconstruir o esforço de guerra da guerrilha. No entanto, sua morte pode transformá-lo em um mártir para outros separatistas tâmeis.

O chefe do Exército, general Sareth Fonseka, disse na televisão estatal que os últimos rebeldes foram derrotados no norte do país nesta segunda-feira. "Podemos anunciar que libertamos todo país do terrorismo", disse.

Prabhakaran foi encontrado em seu esconderijo ao lado de dois auxiliares. O líder guerrilheiro então fugiu em uma van blindada seguido por outros combatentes. Após duas horas de tiroteio, os rebeldes foram derrotados.

Suren Surendiran, líder dos exilados Tâmeis no Reino Unido, disse nesta segunda que a comunidade estava em desespero. "As pessoas estão muito tristes. Mas estamos determinados a continuar nossa luta por um Estado independente.

Reação da população

O anúncio da morte de Prabhakaran foi feito na TV estatal e por meio de mensagens de celular enviadas pelo governo para telefones de todo país. A notícia detonou celebrações por todo país. Na capital, Colombo, as pessoas foram às ruas para celebrar.

"Eu e meus amigos que estamos aqui escapamos por pouco das bombas da guerrilha. Alguns de nós não tiveram tanta sorte. Estamos felizes de ter visto o fim dessa organização terrorista", disse o empresário Lal Hettige, de 47 anos.

Reação diplomática

Após esse anúncio, os ministros de Assuntos Exteriores da UE aprovaram um texto que pede a abertura de uma "investigação independente" por possível violação do direito humanitário durante o conflito.

"Os responsáveis devem ser levados à Justiça", disseram os ministros do bloco, que também criticaram a guerrilha por usar civis "como escudos humanos" e por recrutá-los à força para suas fileiras.

Ajuda humanitária

O secretário do Ministério de Assuntos Exteriores do Sri Lanka, Palitha Kohona, disse hoje que o Executivo receberá de bom grado qualquer ajuda internacional para os 250 mil tâmeis que, vítimas do conflito no nordeste do país, se encontram refugiados em campos do governo.

Por telefone, Kohona disse que não há um calendário para o retorno de todos esses civis a seus povoados, nos quais equipes trabalharão para retirar minas e construir sistemas de condução de água e outras infraestruturas.

Protesto

Em Londres, cerca de 2 mil pessoas organizaram uma manifestação em apoio aos rebeldes tâmeis na frente do parlamento britânico. Há pelo menos um mês, os manifestantes têm se reunido para pedir o cessar-fogo no país.

Ban Ki-moon prepara visita

Enquanto o presidente do Sri Lanka se prepara para ir ao Parlamento declarar oficialmente a vitória sobre os rebeldes Tigres Tâmeis após mais de 25 anos de conflito, o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, planeja viajar ao país no final desta semana, tendo entre as prioridades ajudar mais de 250 mil pessoas que fugiram dos combates entre os rebeldes e as tropas governamentais.

Sob condição de anonimato, funcionários da ONU falaram dos preparativos da viagem que não oficialmente anunciada, e disseram que Ban deve pressionar para que os deslocados pelo conflito, que estão em campos de refugiados no nordeste do país, voltem para casa o mais rapidamente possível.

O chefe de gabinete de Ban, Vijay Nambiar, já está no Sri Lanka reunindo-se com autoridades do governo e, provavelmente irá a um dos campos de deslocados nesta terça-feira, disseram os funcionários da ONU.

O subsecretário-geral adjunto da ONU para Assuntos Humanitários, John Holmes, disse que se Ban realmente for ao Sri Lanka, ele provavelmente vai visitar um acampamento e incentivar os governantes do Sri Lanka a procurarem uma solução política para o de conflito de três décadas --oferecendo a ajuda da ONU se o governo desejar.

Holmes disse que aproximadamente 220 mil estão nos campos de deslocados, incluindo cerca de 20 mil nos últimos dois ou três dias. "Achamos que há outros 40 mil ou 60 mil a caminho dos campos [...] próximo de Vavuniya [norte do Sri Lanka]", disse ele.

O governo do Sri Lanka anunciou nesta segunda-feira que as forças governamentais tinham derrotado os últimos rebeldes Tigres Tâmeis, matado o comando do grupo e conquistado o seu último refúgio, uma estreita faixa de terra que foi sendo reduzida nas últimas semanas a uma área equivalente a cerca de 25 campos de futebol na Província Oriental, que esteve durante anos sob controle rebelde.

Com táticas de guerrilha e atentados suicidas, os Tigres Tâmeis lutavam desde 1983 por um Estado independente no norte e nordeste do Sri Lanka. O grupo diz defender a minoria hindu tâmil --principalmente os chamados tâmeis do Sri Lanka, menos de 4% da população-- contra a marginalização imposta pela maioria budista de etnia cingalesa, que representa mais de 70% da população de 21 milhões de habitantes.

O presidente Mahinda Rajapaksa, que planeja declarar a vitória nesta terça-feira em um discurso ao Parlamento, prometeu uma partilha de poder com a minoria tâmil, mas o fim da guerra, que matou mais de 70 mil pessoas --6.500 este ano, segundo estimativa da ONU-- pode complicar os esforços para estabelecer uma paz duradoura.

Nesta segunda-feira, o mediador do acordo de paz de 2002 entre rebeldes e governo, o norueguês Erik Solheim, disse em Oslo que o governo deveria dar sequência à vitória militar com um esforço para construir uma paz duradoura. Ministro de Meio Ambiente e Auxílio Internacional da Noruega, ele disse que a comunidade internacional deve pedir ao presidente Mahinda Rajapaksa que inicie conversações de paz com a minoria tâmil.

"O governo do Sri Lanka ganhou a guerra, mas eles ainda não ganharam a paz", disse Solheim. "Como vitorioso, o governo tem a maior responsabilidade pela paz e pela reconciliação."

A destruição das tropas dos rebeldes não significa que ameaça acabou. Insurgentes escondidos nas selvas do leste do país têm surgido periodicamente para atacar as forças governamentais e civis, e acredita-se que os rebeldes tenham "células adormecidas" na capital Colombo e em outras cidades.

Além disso, os Tigres Tâmeis mantêm uma vasta rede de tráfico internacional e o apoio financeiro de cerca de 800 mil tâmeis expatriados. Pelo menos um alto líder rebelde, Selvarasa Pathmanathan, considerado o chefe de contrabando do grupo, continua livre.

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