Jorge Nascimento Rodrigues
O desemprego estrutural sinaliza a actual recessão As comparações benignas da actual recessão com a Grande Depressão de 1929/1933 podem não ser as mais adequadas do ponto de vista histórico. Aparentemente, os números absolutos não são, ainda, tão assustadores, o que seria tranquilizador. Mas o paralelo pode ser enganador a vários títulos.
Por duas razões fundamentais - uma primeira, que tem a ver com o tipo de desemprego estrutural que está a ser gerado e as possibilidades realistas de o reverter em tempo útil; outra, com o ciclo geopolítico.
A destruição do tecido económico que estamos a assistir é sintoma de que não só os sectores 'tradicionais' da produção em massa estão a ser atingidos duramente, mas também os suportados pela revolução tecnológica dos últimos trinta anos, quer nas áreas de produção de base tecnológica como de serviços, incluindo a sofisticação que foi alcançada no sector financeiro.
A razão desta razia - que, por vezes, surpreende pelas empresas que afecta, tidas até há bem pouco tempo como 'campeões' da exportação ou mesmo da internacionalização - tem a ver com uma quebra na produção industrial mundial e uma contracção no comércio internacional que estão a ser mais aceleradas do que no período da Grande Depressão para o mesmo tempo decorrido, como já foi referido pelos estudos de Barry Eichengreen e de Kevin O'Rourke, a que já fizemos referência noutro artigo .
Estas dinâmicas negativas convergem com "o pior episódio da história de destruição de riqueza, em termos absolutos, em torno da derrocada dos preços do imobiliário", refere O'Rourke, professor do Trinity College, na Irlanda, que assiste em Dublin à queda do pedestal do seu país, não temendo etiquetar como um "verdadeiro tigre de papel" o que ontem era louvado como o modelo de "tigre" europeu de sucesso.
Mudança para um novo tecido económico
A conjugação de movimentos está a provocar um disparo do desemprego com contornos preocupantes, particularmente nos países da OCDE ( O'Rourke segue com atenção o caso do Japão, que lhe parece absolutamente "alarmante") e em alguns emergentes (de que o caso da China começa a ser falado pelo impacto da crise internacional nas regiões costeiras mais desenvolvidas e junto da juventude com qualificações superiores). "A questão deste tipo de desemprego é a minha preocupação central", refere o economista irlandês, que acrescenta que "tudo depende da forma como os governos vão facilitar a transição para um novo tecido económico baseado nas tecnologias ligadas às energias e sistemas de transporte 'verdes', que parecem ser o caminho do futuro".
Ora, o optimismo tecnológico - com destaque para o discurso generalizado em torno da banda larga e das tecnologias limpas - pode levar a expectativas de curto e mesmo médio prazo irrealistas ou mesmo a decisões precipitadas que não respeitem o teste do mercado, criando um fosso entre empresas do regime (e soluções apadrinhadas que podem gerar 'elefantes brancos') e enteados (que até poderão ter soluções que são validadas pelo mercado).
"O tema está muito exagerado politicamente. Os processos 'schumpeterianos' não operam num horizonte de dois anos. Levam muito mais tempo. Veja o caso da Internet, teve vinte anos de ciência fundamental por detrás, antes de ser comercializada, e outra meia década de comercialização até que começou a reestruturar os processos de negócio de um modo radical. Por isso ninguém pode esperar que nenhum dos investimentos na tal economia sem carbono ganhem escala proximamente. Isso não significa que não valha a pena essa aposta. Significa, de um ponto de vista realista, que os seus benefícios serão para a próxima geração de consumidores e produtores", refere-nos Shane Greesntein, da Escola de Gestão Kellogg, da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos.
Este tipo de período de transição tem um paralelo histórico mais adequado não com as Grandes Depressões de 1929/1932 ou de 1873/1875 (esta foi a mais demorada de sempre nos EUA, arrastando-se por 65 meses), mas com os períodos em que as crises económicas e financeiras se cruzaram com uma transição para um novo tecido económico, como ocorreu após as várias crises dos anos 1880/1890 (a de 1882-85, nos EUA, foi a terceira mais demorada até à data) e nos anos 1940 e 1950.
A questão delicada, diz Greenstein, é o equilíbrio entre medidas realistas de curto termo, sobretudo as destinadas a reverter o disparo do desemprego, e de longo prazo, qualitativamente diferentes apontando para uma efectiva mudança do tecido económico: "Mas essa questão é política - não económica. A economia, apenas, garante que só medidas de curto termo ou só políticas de longo prazo são má ideia. Uma adequada mistura é melhor do que nenhuma combinação de políticas. Mas também tenho de lhe dizer que o que pode ser bom para um país pode ser desadequado para outro. E há que acrescentar que há muitos países em que não há vontade política para financiar todos os projectos viáveis".
Transição de poder
Mas para Tessaleno Devezas, especialista em ciclos, e professor na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, há uma primeira distinção a fazer em relação a 1929/1933 - actualmente estamos numa fase diferente na chamada "onda longa" económica, também conhecida como ciclo de Kondratieff (ciclo K). Enquanto em 1929/1933, o ciclo K estava no começo da sua fase descendente (depois de ter atingido um pico na primeira década do século XX, onde ocorreu inclusive uma guerra mundial, o que tecnicamente se designa por guerra de pico), a crise actual surge no final de um ciclo e na transição para outro. Os períodos "homólogos" mais adequados para comparação seriam os anos de transição de 1940-1950 ou, mais recuadamente, os de 1880-1890.
Mas, frisa Devezas, há um segundo elemento de distinção em relação à Grande Depressão de 1929/1933 ainda mais importante, e que traz um aspecto adicional de preocupação. Estaremos a assistir, também, ao final de um ciclo longo geopolítico (que, em geral, abarca dois ciclos longos económicos, mais de uma centena de anos), entrando num período "de transição de poder", cujos sinais começam a ser visíveis.
Algo similar - refere Devezas - ao que ocorreu, precisamente, nos anos 1890, quando a hegemonia mundial pelo império britânico foi dando sinais de extrema fadiga e uma nova grande potência emergiu, os Estados Unidos, reforçando-se progressivamente ao longo de duas devastadoras guerras mundiais por um período de trinta anos.
Conjugação de duas transições
O cenário 'automático' de sucessão dos EUA pode não ocorrer tão cedo, adverte o investigador, mas é certo que a geopolítica vai misturar-se profundamente com esta crise. Devezas conclui que há, assim, uma conjugação de duas transições - uma de ciclo longo geopolítico e outra de ciclo longo económico. O que já não ocorria há cerca de cento e vinte anos.
Esta convergência de transições - que não ocorreu no tempo da Grande Depressão de 1929/33 - foi demonstrada e defendida recentemente por aquele investigador em 'The Evolutionary Trajectory of the World System toward an Age of Transition', um artigo académico publicado na obra colectiva, publicada este ano, 'Systemic Transitions - Past, Present and Future'.
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