O Papa Bento XVI expressou seu "profundo respeito pela comunidade muçulmana" e defendeu a liberdade dos credos, ao chegar nesta sexta-feira (8) a Amã, capital da Jordânia, para sua primeira visita oficial à Terra Santa.
"A liberdade religiosa é naturalmente um direito humano fundamental, e minha esperança fervorosa e minha oração se elevam para que o respeito dos direitos inalienáveis e da dignidade sejam cada vez mais firmes e mais bem defendidos, não só no Oriente Médio, mas também em todo o mundo", disse o papa ao discursar no aeroporto internacional de Amã.

Bento XVI desembarca no aeroporto de Amã, nesta sexta-feira (8) (Foto: Ahmed Jadallah/Reuters)
"Minha visita à Jordânia me traz a feliz oportunidade de expressar meu profundo respeito pela comunidade muçulmana", disse o pontífice, na presença do Rei Abdullah II, da Rainha Rania e de membros da família real, além de autoridades religiosas.
Ele também lembrou que a Jordânia está há muito tempo na vanguarda das iniciativas de paz no Oriente Médio e no mundo, contribuindo para o diálogo inter-religioso.
Bento XVI visita Jordânia, Israel e territórios palestinos a partir desta sexta.
Objetivo é aproximar as religiões, mas há quem tema novos conflitos.
Apesar de a primeira viagem de Bento XVI ao Oriente Médio como pontífice, a partir desta sexta-feira (8), estar sendo tratada pela maior parte dos analistas como uma tentativa de construir a paz na região e de aproximar as três religiões envolvidas no encontro (cristianismo, judaísmo e islamismo), os oito dias do papa na Jordânia, em Israel e nos territórios palestinos são aguardados com ansiedade e tensão. Há a preocupação de que, em vez de melhorar a relação, a visita possa trazer novos conflitos e polêmicas entre as diferentes crenças.
A preocupação vem de diferentes lados, pois o próprio Bento XVI criou uma forte polêmica em 2006, ao vincular o islamismo à violência, e analistas dizem que líderes judeus e muçulmanos podem tentar explorar a visita politicamente. O governo e a Igreja Católica jordanianos, entretanto, negam que haja preocupação.
Em entrevista coletiva em Amã nesta quinta-feira (7), o senador Akel Biltaji, considerado o “padrinho” do turismo jordaniano, disse que não há ressentimento por parte da população jordaniana, formada em sua maioria por muçulmanos sunitas (92%). “Ele se explicou após ter cometido o deslize, e foi aceito pelos islâmicos. Temos uma boa relação com o papa e uma grande aceitação entre as diferentes religiões, o que é melhor de que a coexistência pacífica”, disse.
Segundo ele, fazer dessa “pequena irregularidade” centro das atenções só gera disputas desnecessárias.
O representante do Vaticano no país disse que o Papa pediu desculpas, recuou de uma frase equivocada e acabou abrindo um diálogo entre as diferentes fés, o que levou a uma aproximação entre as religiões.
O avião que levou o pontífice para Amã, um Airbus 321 da Alitalia, aterrissou no aeroporto de Amã às 14h25 (8h25 de Brasília). Bento XVI era esperado pelo Rei Abdullah II da Jordânia, acompanhado pela rainha, assim como por patriarcas católicos da Terra Santa, bispos, corpo diplomático e alguns fiéis.
Avião

O Papa Bento XVI dá entrevista nesta sexta-feira (8) a bordo do avião que o levou à Jordânia. (Foto: AP)
Falando com repórteres no avião que o levou à Jordânia, Bento XVI disse que espera que a Igreja Católica Apostólica Romana possa contribuir para a paz no Oriente Médio.
O papa disse que os esforços de paz na região foram frequentemente bloqueados por interesses partidários e que a igreja poderia prover a "ajuda espiritual" para ajudar a buscar soluções.
"Não somos um poder político, mas uma força espiritual, e essa força espiritual é uma realidade que pode contribuir com o progresso no processo de paz", disse a jornalistas a bordo do avião.
Cardápio de almoço de Bento XVI tira sono de dono de hotel de Amã
A visita do Papa Bento XVI ao Oriente Médio vai ser usada pelo governo da Jordânia como forma de incentivar o turismo no país. Por mais que a maior parte dos hotéis esteja animada com a visita de peregrinos da região que vão acompanhar o pontífice, o dono de um deles é só preocupação. Said Sawalha é o dono do Regency de Amã, e tem perdido o sono preocupado com o cardápio que vai ser servido a Bento XVI na capital jordaniana.
“Tenho estado ansioso esperando que alguma coisa dê errado”, disse Sawalha. Ele passou cinco semanas selecionando cinco menus diferentes para escolha do Vaticano. O escolhido para servir Bento XVI foi um cardápio light de medalhões de carne, vegetais e torta de abacaxi. Ele se consultou com todos os mais importantes chefs do país para desenvolver os pratos a serem servidos.

Said Sawalha prepara, em 30 de abril, amostras dos pratos que deve servir ao Papa Bento XVI. (Foto: AP)
“Mapeei um plano B de tudo, desde o risco de a torta cair no chão a termos um pneu furado quando formos levar o banquete à sala em que será servido”, disse o hoteleiro, que hospedou João Paulo II, antecessor de Bento XVI, quando ele esteve no país nove anos atrás, e que convidou o papa para o almoço.
A pedido do Vaticano, o almoço do próximo domingo (10) vai ser uma refeição privada, e nem mesmo o Rei Abdullah II foi convidado, já que Bento XVI costuma não fazer refeições com líderes políticos. O encontro vai reunir 320 bispos e patriarcas logo após uma missa celebrada por ele no estádio de Amã.
Aparente segurança da Jordânia não é garantia contra terror
Amã é uma grande surpresa. Depois de conhecer cidades pequenas e afastadas da capital jordaniana, chegar à maior metrópole do país deixa impressionar por sua beleza e modernidade. Grandes avenidas modernas, limpas, trânsito organizado, carros novos (mas sem ostentação), redes multinacionais de lojas, bancos e restaurantes contrastam com a ideia corrente (e errada) que se tem cotidianamente do Oriente Médio – nem é pobre como as imagens que se vê do Iraque, nem é rica como Dubai.
Tudo isso numa cidade ampla e estruturada, que tem 2,5 milhões de habitantes, mas que não pode ter altos prédios residenciais, apenas até cinco andares. A sensação de segurança é real e acaba se encaixando no perfil “ilha de tranquilidade” descrito pelos estudiosos da história jordaniana.
Apesar de a ministra de Turismo e Antiguidades da Jordânia, Maha Khatib, dizer que o país é um dos mais seguros do planeta, como o fez em entrevista coletiva de que o G1 participou na véspera da chegada do Papa ao país, é melhor não exagerar, segundo pesquisadores da realidade regional. A proximidade geográfica com o Iraque e as fronteiras relativamente livres fazem com que “o risco na Jordânia seja muito alto”, segundo a especialista em terrorismo do Council of Foreign Relations Lydia Khalil.
Sem querer criar um medo desnecessário, entretanto, ela explicou, em entrevista ao G1, que o governo do país tem reforçado os serviços de segurança, e que trabalha duro para evitar que aconteçam novos ataques no país. Desde 2005, quando atentados coordenados mataram cerca de 60 pessoas em hotéis da capital, que a Jordânia não registra nenhum grande ato de terrorismo.
A analista disse que o Ocidente costuma exagerar a impressão que tem de violência em toda a região, e que nem mesmo na Faixa de Gaza (quando não está em confronto aberto contra Israel) há um risco tão grande de terrorismo quanto se imagina. “As pessoas costumam se preocupar demais sem necessidade.”
“A Jordânia é um país muito moderado do ponto de vista religioso, bem estruturado em termos de segurança, que só não é totalmente seguro por conta da proximidade e abertura em relação a pontos de muito radicalismo, como o Iraque”, disse, admitindo que talvez seja o local mais seguro da região, mas que não está totalmente a salvo, como os Estados Unidos e a Europa também não estão.
Segundo ela, vai ser preciso analisar a realidade jordaniana no longo prazo, para ver os efeitos da chegada de cerca de 700 mil refugiados da guerra do Iraque no país de 6 milhões de habitantes. Alguns iraquianos, dizem analistas, acham que o governo na Jordânia é muito alinhado ao Ocidente, e não fez o suficiente para proteger seus vizinhos.
Radicalismo
Menos defensor da segurança jordaniana, o historiador Daniel Pipes, diretor do Middle East Forum, lembra que há, sim, um histórico de radicalismo religioso dentro do país. “Aconteceram nos últimos anos vários pequenos ataques e ações frustradas pelas equipes de segurança – terroristas continuam tentando atacar, mas o governo leva muito a sério o combate a eles”, disse, em entrevista ao G1.
Segundo Pipes, os radicais religiosos são os únicos que fazem uma oposição real ao Rei Abdullah II, que consegue manobrar politicamente para evitar o fortalecimento do grupo.
Ele admite que o risco de um ataque no país é menor de que nos vizinhos Iraque e territórios palestinos. “Mas é um erro dizer que não há nenhuma violência ou radicalismo religioso na Jordânia”, disse.
Apesar de os dois especialistas alegarem que o risco existe, sim, tanto Pipes quanto a pesquisadora do CFR deixaram claro, em suas entrevistas, que a probabilidade de um ataque terrorista na Jordânia é muito baixa.
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