O Egito esperava apoio mais forte, mas o comunicado final da segunda reunião de ministros da Cultura dos países árabes e sul-americanos, encerrado ontem à noite no Rio, mostrou que não há consenso na América do Sul sobre a candidatura do ministro da Cultura egípcio, Farouk Hosny, à direção-geral da Unesco, a organização da ONU para a ciência, a educação e a cultura.
O comunicado "saúda o apoio e o endosso da Liga Árabe, do Brasil e do Chile" a Hosny, mas não lhe garante o apoio de todos os países da Cúpula América do Sul-Países Árabes, criada em 2005.
Isso significa que pelo menos Argentina e Colômbia, os dois outros países sul-americanos que integram o Conselho Executivo da Unesco --que escolherá em setembro o novo diretor-geral--, não fecharam o apoio a Hosny.
O ministro criou controvérsia ao dizer, em 2008, que queimaria livros em hebraico que fossem encontrados em instituição oficial egípcia. À Folha, há três dias, ele disse que a frase foi tirada de contexto e que foi a resposta irritada a um deputado da oposição islâmica contra a presença dos livros.
Hosny saiu do encontro, no Museu Nacional de Belas Artes, enquanto a declaração final estava sendo negociada. À Folha, disse que queria "abrir caminho para as negociações".
Segundo um diplomata brasileiro, a parte da declaração referente à disputa na Unesco era mais fraca originalmente --só "tomava nota" do apoio de parte do grupo ao ministro.
A representante da Liga Árabe no encontro, Sima Bahous, fez questão de dizer que o o grupo está fechado com Hosny. Sete países árabes são do Conselho Executivo da Unesco.
Na sede da Unesco, em Paris, há rumores de que haveria divisão entre os árabes devido às posições religiosas pouco ortodoxas de Hosny --ele já criticou o uso do véu em meninas e chegou a ser chamado de homossexual por parlamentares egípcios islamistas, o que nega ser.
O comunicado dos ministros contém mais duas declarações políticas importantes.
Um "ressalta a importância" de se respeitar "a integridade cultural, histórica e religiosa" de Jerusalém, cujo setor oriental (árabe), declarado anexado por Israel, é reivindicado pelos palestinos como capital de seu futuro Estado.
Pede ainda que a Unesco "continue a monitorar as condições da mesquita de Al Aqsa e outros sítios cristãos e muçulmanos" na cidade, onde ocorre disputa entre israelenses e árabes pelo registro e manutenção de sítios arqueológicos.
O segundo ponto se solidariza com os iraquianos na reconstrução da infraestrutura cultural destruída "como resultado da guerra de 2003 [a invasão americana]" e pede a devolução dos antiguidades "levadas ilegalmente" do país.
No encontro, foram apresentadas duas obras da literatura brasileira traduzidas para o árabe no projeto da Biblioteca América do Sul-Países Árabes --contos de Machado de Assis e de Guimarães Rosa.
Também foi anunciado pela Argélia que a sede da biblioteca, em Argel, terá projeto do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Ontem, seu escritório entregou ao grupo o croqui.
Senado vai pedir que Brasil retire apoio a egípcio na Unesco
A CRE (Comissão de Relações Exteriores do Senado) vai pedir ao ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) para que o governo brasileiro retire o apoio à candidatura do ministro da Cultura do Egito, Farouk Hosny, à direção geral da Unesco (organização da ONU para a educação, ciência e cultura).
A comissão aprovou nesta quinta-feira requerimento do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), presidente da CRE, com o pedido de recuo do governo --uma vez que o brasileiro Márcio Barbosa, vice-diretor da Unesco, disputa a vaga.
No requerimento, Azeredo afirma que Barbosa "conta com apoios significativos de Estados membros de várias correntes com as quais o Brasil mantém fortes ligações diplomáticas". Na opinião do presidente da CRE, o atual vice-diretor da Unesco tem o reconhecimento de autoridades políticas, intelectuais e científicas para ocupar o cargo.
Os senadores da comissão consideram Hosny uma figura "controversa" por ter ocupado o cargo de ministro por 20 anos, além de ter protagonizado condutas "antidemocráticas" que não teriam espaço no perfil exigido pela Unesco.
Em audiência na Câmara, na semana passada, Amorim disse que o Brasil fez uma opção "geopolítica" uma vez que o governo busca a aproximação com países árabes e africanos --que apoiam a candidatura egípcia. Para Amorim, as declarações antissemitas de Hosny foram "pouco felizes". "Tenho certeza de que ele pautará sua gestão à frente da Unesco por um diálogo de civilizações", afirmou o ministro na comissão.
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