Amado e temido, Abdullah II é 'rei big brother' na Jordânia

Fotos e imagens do líder são vistas na maioria dos lugares públicos. Poder real centralizado controla oposição e a mídia.

Daniel Buarque


Imagem de Abdullah II em ônibus que transportava a imprensa em Amã (Foto: Daniel Buarque)

É difícil passar mais de cinco minutos andando por qualquer lugar do Jordânia sem dar de cara com uma imagem do Rei Adbullah II. Quase como um “grande irmão”, personagem que governava a distopia escrita por George Orwell no livro “1984”, ele parece observar a população do país por todos os lados, mas com uma cara simpática e em fotografias tiradas em diferentes ocasiões, com roupas religiosas, militares, formais, quase sempre com barba mal feita e bigode.

Apesar da comparação com o líder opressor da ficção, a sensação que o governo consegue passar com isso é de proximidade entre o povo e a família real. É como se todos os jordanianos pudessem se considerar hashemitas, descendentes desta tribo local ligada diretamente à família do profeta Maomé, como os reis do país que leva o nome.

Após uma semana no Reino Hashemita da Jordânia, nenhuma vez ouvi qualquer comentário negativo sobre o rei, que sempre é descrito como um bom homem, inteligente e justo. Se é verdade que ele é amado, não se pode negar que é também temido, e que tem forte controle sobre a imprensa do país. Jornalistas com quem a reportagem conversou confirmaram que sofrem censura do governo, e pediram para não ser identificados justamente por conta dessa censura.

“Você pode ficar um ano aqui e não vai ouvir ninguém falar mal do rei.
A vida na Jordânia funciona bem, há paz, há segurança, a economia está crescendo, então eles preferem não fazer oposição”, disse um desses jornalistas. Segundo ele, as pessoas não falam abertamente, por mais que tenha ficado um sentimento negativo, especialmente pelos refugiados palestinos e iraquianos, que formam boa parte da sociedade.

“Quem vem a público criticar o governo sofre as consequências”, disse outro jornalista jordaniano, com quem conversei na sala de imprensa montada para a cobertura da visita do Papa, ela própria coberta de imagens do rei.


Banca de revista vende pôsters diferentes do rei (Foto: Daniel Buarque)

A principal crítica é de que Adbullah II é muito conivente com o Ocidente, e que não usou sua influência para proteger os povos “irmãos” do Iraque e dos territórios palestinos. Quando fazem essa crítica, ironizam que Abdullah fala melhor o inglês de que o árabe, que é idioma oficial, e comentam que ele viveu tempo demais fora do país, se formando no Reino Unido. Essa postura pró-Ocidente é vista como principal motivo dos atentados coordenados contra hotéis de Amã em 2005, quando cerca de 60 pessoas morreram.

O grande líder

Se elogiam sem tanta empolgação o governo do rei atual, que está no poder desde 1999, todos os jordanianos se derramaram em elogios quando a pergunta se volta ao mais importante líder da história do país, o pai de Abdullah II, Rei Hussein.

Seu governo durou 47 anos, e é apontado pelos estudiosos da história da Jordânia e da região como o grande responsável pela formação do país e da sua política externa, livre de grandes conflitos armados, alinhada com os interesses ocidentais, que acabaram favorecendo os interesses econômicos e sociais da própria nação.


Imagem de Abdullah II produzida em fábrica de mosaico em Mádaba (Foto: Daniel Buarque)

“Ele foi diretamente responsável pelo modelo político jordaniano, que é mais aberto de que outros do Oriente Médio, permimte a participação política e garante vagas no Parlamento para minorias cristãs, para mulheres”, disse o historiador Yehuda Lucaks. Segundo ele, a liderança pessoal de Hussein é quem fez com que o país se tornasse o que chama de “ilha de tranquilidade”, na conturbada região. “Ele sempre foi um grande diplomata, negociando acordos até mesmo com supostos inimigos, como Israel, o que garantiu uma ótima situação para a Jordânia.”

Enquanto a popularidade de Hussein colhe os frutos de políticas bem sucedidas ao longo de quase cinco décadas, Abdullah II assumiu o poder buscando reformar a economia do país, o que vem fazendo de forma lenta, devido especialmente ao fato de que a Jordânia não dispõe de petróleo como os outros países do Oriente Médio. O país ainda depende muito do envio de dinheiro de jordanianos no exterior e do turismo, que vem sendo principal foco de investimento do governo em meio à crise financeira global.

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