Ritmo de investimentos da UE no Leste Europeu cai com a crise

Plano é gastar 67 bilhões até 2013 para equilibrar índices de desenvolvimento social e econômico da região

Jamil Chade, TOKAJ, HUNGRIA


Pouco a pouco, a União Europeia e seus recursos bilionários começam a modificar a paisagem do Leste Europeu. Quilômetro a quilômetro, estradas são construídas e novas instalações elétricas e de saneamento básico chegam a vilas que, por décadas, ficaram reféns dos desejos do Kremlin. A expectativa de vida aumenta, assim como os salários. Mas as disparidades entre o interior da região e o restante da Europa ainda são profundas e a atual crise financeira ameaça colocar em marcha lenta a transformação da região. Hoje, a renda média dos cidadãos do Leste Europeu ainda é a metade do que ganha um europeu na França, Alemanha ou Reino Unido.

Em vilarejos percorridos em quase 2 mil quilômetros na Hungria, Polônia, Eslováquia e República Checa, a percepção generalizada da população é de que o ritmo da chegada da UE ainda precisa ser acelerado e não pode se limitar às grandes capitais. Um estudo aponta que a integração do Leste à Europa Ocidental levará mais de uma década para ser completada. Isso, sem contar os efeitos da crise.

Há cinco anos, a UE superou um problema de décadas ao reunificar a Europa Ocidental aos países do Leste, que permaneceram por décadas sob o olhar e armas soviéticas. Cálculos apontam que Bruxelas já gastou perto de 50 bilhões em projetos de infraestrutura e para dar uma qualidade de vida à região mais parecida à da Europa Ocidental. Entre 2000 e 2003, os europeus já haviam destinado outros 13,5 bilhões para esses países.

Até 2013, 67 bilhões serão gastos na esperança de equilibrar os índices de desenvolvimento social e econômico. O dinheiro está sendo usado para limpar rios, construir estradas, comprar máquinas agrícolas e treinar funcionários públicos. A crise econômica deve exigir mais recursos, o que elevará ainda mais a conta.

O símbolo da chegada dos recursos foi a conclusão de uma linha do metrô de Varsóvia, na Polônia. A linha levava 21 anos em obras quando a Polônia passou a fazer parte da UE, em 2004. No final do ano passado, foi finalmente inaugurada. Agora, os novos recursos exigem que mais uma linha esteja pronta em 2012 para a Eurocopa, que a Polônia sediará. Até 2013, só a Polônia receberá mais de 14 bilhões. Entre 2000 e 2015, a estimativa é de que o país receberá 80 bilhões, ou 2 mil por habitante. Até 2013, os poloneses prometem construir 1,3 mil quilômetros de estradas. Hoje, o país conta com apenas 500 quilômetros de rodovias nos padrões da Europa Ocidental, e percorrer cem quilômetros de carro pode levar duas horas.

As placas com a tradicional bandeira azul da UE podem ser vistas em toda a região, indicando a presença de Bruxelas no desenvolvimento do local. Na região de Tokaj, na Hungria, as novas estradas têm como objetivo facilitar a chegada de turistas e ainda permitir que o vinho local seja escoado aos mercados com preços competitivos.

Na cidade de Sobrance, na Eslováquia, a UE enviou recursos para completar a nova rede elétrica. Nas estradas do país, as pistas de faixa simples estão sendo ampliadas, um processo parecido ao que Portugal, Grécia e Espanha sofreram nos anos 80, após aderir à UE.

Jaroslav Koribanic, dono de uma empresa de construção de armazéns no leste da Eslováquia, admite que grande parte do dinheiro que consegue ganhar é graças aos projetos que são financiados pela UE. "Se não fosse por isso, estaríamos em uma situação ainda pior", disse. Mas ele admite que há toda uma classe de pessoas mais vulneráveis que continuam a sofrer. "A UE não chegou para todos. Temos democracia, liberdade de viajar e enormes vantagens em relação ao período comunista. Mas todos, e não apenas a classe empresarial, precisam ser beneficiados", disse.

"O impacto geral da adesão à UE foi incontestavelmente positivo", afirmou Arnaldo Abruzzini, secretário-geral da Eurochambers, entidade que reúne câmaras de comércio de todo o bloco. "Mas admitimos que ainda há um problema para obter mão de obra qualificada em alguns países", afirmou.

Em termos sociais, as diferenças são profundas. Em 2004, quando a ampliação ocorreu, a expectativa de vida na Europa Ocidental era de 75,3 anos. Na Polônia, a taxa era de 70 anos. Desde então, essa taxa não foi modificada. Segundo o Instituto Vienense de Economia Internacional, em 2015 apenas dois dos dez países que aderiram à UE terão um nível de renda perto da média europeia: Eslovênia e República Checa. Mas, de cada oito pessoas do Leste Europeu, sete terão um nível de renda abaixo de 75% da renda média da Europa. "Nossos salários são de cerca de 300 por mês", disse Denisa Gilanyi, administradora da prefeitura de Cierna, na Eslováquia.

EXEMPLOS

Mas, em Bruxelas, a ideia é de que, apesar de todos os custos, a integração é um projeto que precisa ocorrer. A diferença, porém, é que a União Europeia não pode mais gastar o mesmo volume de recursos que despejou sobre Portugal, Espanha e Grécia nos anos 80. Naquele momento, os recursos tiveram resultados. Na Espanha, até a média de altura da população foi elevada em 3 centímetros 20 anos depois da adesão à UE.

De acordo com um estudo do Instituto Real Elcano, a Espanha recebeu em 20 anos 93 bilhões em assistência ao desenvolvimento, o equivalente a 0,8% de seu PIB por ano e o mesmo volume que os mais de 100 milhões de cidadãos do Leste Europeu receberão entre 2000 e 2013. Polacos, checos e outros cidadãos do Leste Europeu sabem que não terão a mesma sorte da Espanha.

Mesmo assim, ninguém fala em abandonar a UE. "O que queremos é mais", disse Denisa. Em sua cidade, ela e o prefeito decidiram colocar uma bandeira da UE, principalmente depois que Bruxelas mandou dinheiro para a instalação de cabos para a internet.


FRASES

Jaroslav Koribanic

Empresário eslovaco

"A UE não chegou para todos. Temos democracia, liberdade de viajar e enormes vantagens em relação ao período comunista. Mas todos, e não apenas a classe empresarial, precisam ser beneficiados"

Arnaldo Abruzzini
Secretário-geral da Eurochambers

"O impacto geral da adesão à União Europeia foi incontestavelmente positivo. Mas admitimos que ainda há um problema para obter mão de obra qualificada em alguns países"

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