Recessão nos EUA está arrasando a economia mexicana. Crimes associados ao narcotráfico prejudicam relação entre países.
Marc Lacey e Ginger Thompson
New York Times
A economia do México está sendo arrasada pela recessão ao norte. Viciados americanos transformaram o México numa super-rota de drogas. Polícia e soldados locais estão sob ataque de armas americanas. O NAFTA prometeu, há 15 anos, conceder permissão de passagem aos caminhões mexicanos nas estradas americanas, mas a administração Obama diz que eles são inseguros demais para isso.
As relações entre Estados Unidos e México estão em meio a algo que pode ser chamado de disputa amigável, uma estendida ao longo de uma cerca compartilhada. A cerca da fronteira, que se tornou um muro em alguns locais, é outro fator de irritação.
A Secretária do Estado, Hillary Rodham Clinton, esteve recentemente no México para a primeira de uma série de visitas de funcionários da administração, incluindo o próprio presidente americano em abril, para tentar impedir uma grande crise política tão perto de casa. Obama encontrará um país atolado num buraco cada vez mais fundo, irritado com sinais de protecionismo em seu maior parceiro comercial e despedaçado por uma guerra de drogas – pela qual muitos mexicanos culpam os clientes dos Estados Unidos.
Do outro lado, também há angústia o suficiente. Muitas comunidades americanas estão preocupadas com a violência das drogas que vaza pela fronteira, e com imigrantes mexicanos tomando os poucos empregos. Isso está forçando a administração Obama, que já lida com duas guerras e uma gigantesca recessão, a criar uma nova política em relação ao México antes do esperado.
Política doméstica
Obama, assim como o presidente George W. Bush antes dele, está descobrindo que esses desafios exteriores tocam em alguns dos mais espinhentos assuntos da política doméstica, incluindo imigração, livre-comércio, e controle de armas. A administração Bush atrapalhou as relações ao fracassar em sua promessa de reforma na imigração. E a administração Obama, em suas primeiras semanas no cargo, gerou novas tensões através de uma série de sinais conflitantes e inícios falsos.
Alguns componentes da administração sugeriram que o governo mexicano não detém o controle de todo seu território, mesmo enquanto outros funcionários do governo louvam a decisão do presidente Felipe Calderón de lutar contra a venda de drogas.
Obama reconheceu planos de contingência para empregar tropas na fronteira, caso violência demais se reflita nos Estados Unidos. Entretanto, ele disse, quase na mesma frase, que nenhuma ação nesse sentido era iminente.
“Eu acho inaceitável haver gangues de drogas atravessando nossas fronteiras e matando cidadãos americanos”, disse Obama a repórteres, quando questionado se poderia usar tropas. “Acho que se um cidadão americano é morto por causa de pessoas estrangeiras, envolvidas com crimes violentos, essa já é uma preocupação grande o bastante para fazermos algo a respeito.”
A sangrenta guerra das drogas, causadora de 7.000 mortes em 16 meses, se tornou o assunto mais delicado entre os dois países. Embora as taxas de viciados entre mexicanos estejam subindo, a grande maioria das drogas passada através do México será cheirada, fumada ou injetada por americanos. Além disso, 90% das armas usadas pelos cartéis de drogas mexicanos vieram dos EUA, de acordo com a organização Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives.
Conflito
A sugestão de Obama, de que tropas americanas poderiam ser enviadas à fronteira para combater cartéis de drogas, levaram o General Guillermo Galvan, secretário da defesa do México, a afirmar que nenhuma utilização de soldados estrangeiros seria permitida em solo mexicano. A história estava na raiz do problema, já que até mesmo as crianças mexicanas sabem da guerra, um século e meio atrás, na qual os Estados Unidos se apoderaram de metade do território mexicano.
Também irritando os vizinhos latinos estava o testemunho congressional de Dennis C. Blair, diretor da inteligência nacional, sugerindo o controle de algumas partes do México por cartéis de drogas. A administração Calderón reagiu furiosamente.
De sua parte, Calderón falou sobre uma “campanha” americana contra o México, e apontou que a taxa de assassinatos em Nova Orleans é mais alta quando comparada à de seu país. A castigada imagem do México, descrita nos conselhos de viagem do Departamento de Estado dos EUA, é de preocupação particular a Calderón, pois espanta potenciais investidores e turistas.
Depois que os Estados Unidos fecharam as fronteiras a caminhões mexicanos, em violação a uma promessa feita sob o NAFTA, o México definiu tarifas para 89 produtos americanos, de uvas a lavadoras de louça. Em alguns casos, parecia escolher itens dos distritos de membros bem relacionados no Congresso, para assim, aumentar o impacto da ação.
Efeitos da recessão
O México vem sofrendo com a recessão nos Estados Unidos. Embora Calderón fale frequentemente sobre como seu país está muito bem preparado para a crise global, as fábricas de exportação mexicanas perderam cerca de 65.000 empregos desde outubro, um dos muitos efeitos tangíveis. As exportações caíram 32% em janeiro, e as exportações de automóveis caíram 50% nos dois primeiros meses de 2009. O banco central do México espera que a economia se contraia não mais que 1,8% este ano, porém alguns bancos de investimentos prevêem um encolhimento de até 5%.
Obama deixou claro que muitos problemas, incluindo o tráfico de drogas e a reforma na imigração, terão de ser abordados de forma conjunta.
“Não acho que possamos fazer isso aos poucos”, disse Obama durante uma reunião na administração da Califórnia. “Vou trabalhar com o presidente Calderón no México para descobrir como podemos controlar a fronteira. Ela que se tornou mais violenta graças à venda de drogas. Temos de combinar isso com um aperto nos empregadores que vêm explorando trabalhadores sem documentação.”
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