Morre Raúl Alfonsín, o presidente que liderou a Argentina na redemocratização


Primeiro presidente após ditadura, Alfonsín conduziu a redemocratização argentina

Raúl Alfonsín, o presidente que liderou a Argentina no retorno à democracia na década de 1980, após sete anos de um brutal regime militar, mas não conseguiu evitar uma profunda crise econômica, morreu nesta terça-feira, aos 82 anos. Ele tinha câncer de pulmão e sofria de pneumonia.

Alfonsín morreu em casa, em Buenos Aires, disse médico Alberto Sadler, que tratava do do ex-presidente e acompanhou o agravamento do estado de saúde dele nos últimos dias.

"Infelizmente, às 20h30 (hora local e de Brasília), o dr. Alfonsín faleceu. Morreu tranquilo, com muita paz e em sua casa, acompanhado por todos seus familiares, como ele queria", afirmou Sadler.

O médico disse que o ex-chefe do Estado (1983-1989) "estava adormecido" quando morreu, e lembrou que Alfonsín, que tinha um câncer pulmonar com metástase óssea, "teve um quadro de pneumonia aspirativa nos últimos dias" e que "isso causou sua morte".

A última aparição pública dele havia sido em outubro passado, quando foi à inauguração de um busto com sua imagem no salão da Casa Rosadam sede do governo argentino, que lembra os ex-presidentes do país, homenagem comandada pela atual chefe de Estado, Cristina Kirchner.

Alfonsín foi presidente de 1983 a 1989 e ganhou admiração internacional por levar a julgamento e prisão do ex-líderes militares que torturaram e mataram milhares supostos esquerdistas no que ficou conhecido como "guerra suja".

Trajetória

O ex-governante, principal nome da centenária União Cívica Radical (UCR), hoje na oposição, foi o grande ausente nos festejos pelos 25 anos da redemocratização argentina, celebrados em 30 de outubro de 2008.

Alfonsín, nascido em 12 março de 1927, na cidade de Chascomús (Província de Buenos Aires), foi o primeiro presidente democrático da Argentina após sete anos de ditadura militar (1976-1983).

Numa era repleta de breves períodos democráticos interrompidos por golpes militares, ele foi um dos fundadores da Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos (APDH), pioneira na luta contra o autoritarismo e a repressão ilegal.

Além disso, o líder radical conseguiu algo que poucos de seus correligionários conseguiram: vencer nas urnas o Partido Justicialista (PJ, peronista), e com quase 52% dos votos, nas eleições que marcaram o fim da ditadura.

Apesar de ter enfrentado obstáculos e pressões para consolidar a democracia na Argentina, Alfonsín conseguiu com que, em 1985, fosse realizado um histórico julgamento, que terminou com duras penas para os hierarcas do regime que seqüestrou, torturou e fez desaparecer milhares de pessoas.

Em virtude do avanço nas investigações sobre os crimes cometidos nos chamados "anos de chumbo", o governo de Alfonsín enfrentou rebeliões e levantes militares, que foram sufocadas por tropas leais e com a presença popular nas ruas.

Nesse contexto, entre 1986 e 1987, o Executivo impulsionou a aprovação parlamentar das leis de Obediência Devida e Ponto Final, que isentaram de responsabilidade mais de mil de acusados de crimes de lesa-humanidade.

Alfonsín cursou seus estudos secundários em um liceu militar, e, aos 18 anos, começou sua atividade política na UCR.

Em 1954, foi eleito vereador em sua cidade natal. Depois, ocupou uma cadeira como legislador provincial e, posteriormente, como deputado nacional. Em 1973, perdeu para Ricardo Balbín a candidatura de seu partido às eleições presidenciais desse ano.

Com Reuters e Efe

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