McLaren corre risco de ser excluída do Mundial de Fórmula 1

Mentira contada pelo piloto Lewis Hamilton após o GP da Austrália pode custar caro para a escuderia inglesa

Atual campeão do mundo, Hamilton passa por momento difícil no início da temporada 2009/Jens Buettner/EFE

LANGKAWI, Malásia - O risco existe: ser excluída do campeonato. A direção da McLaren e seu piloto, o campeão do mundo, Lewis Hamilton, terão de explicar ao Conselho Mundial da FIA, dia 29, em Paris, a razão de terem "mentido deliberadamente" para os comissários desportivos do GP da Austrália e infringido, dessa forma, o artigo 151C, que costuma gerar penalizações severas.

O artigo trata de concorrentes que tenham "condutas fraudulentas ou ações prejudiciais aos interesses dos competidores ou do esporte em geral". E no caso da McLaren ainda está fresco na mente do presidente da FIA, Max Mosley, o escândalo de espionagem em que a equipe se envolveu em 2007. Todos os desenhos do carro da Ferrari foram encontrados na casa do projetista-chefe da McLaren, Mike Coughlan, na Inglaterra.

Em outras palavras, a McLaren é reincidente, num curto espaço de tempo, no artigo 151C. Mais: a rejeição de Mosley a Ron Dennis, sócio e diretor da McLaren, é pública e antiga. Quando o Conselho Mundial da FIA analisou o caso de espionagem, Mosley afirmou: "Fui voto vencido. Meu voto foi pela sua exclusão da temporada". A McLaren apenas foi retirada do Mundial de Construtores e multada em US$ 100 milhões, a maior multa já aplicada no esporte em todos os tempos.

Agora a oportunidade para Mosley punir a equipe na extensão que desejava há apenas dois anos está bem na sua frente. Ficou ainda mais fácil porque o campeão do mundo, Lewis Hamilton, envolvido diretamente no episódio, assumiu ter contado a mentira, orientado pelo ex-diretor esportivo da McLaren, Dave Ryan, já dispensado do time. Não há sequer controvérsia quanto a veracidade da acusação. O réu é confesso. O comunicado da FIA, emitido na terça, explica que são cinco as acusações.

O que com certeza está passando na cabeça do presidente da FIA é a possibilidade de a Mercedes, sócia majoritária da McLaren, repensar seu projeto de Fórmula 1. Qual a lógica de investir US$ 300 milhões por ano na competição e ver sua imagem tão denegrida no mundo todo com esses escândalos envolvendo a McLaren-Mercedes?

INTERESSES

Agir com rigor extremo contra a McLaren contraria os interesses também da Fota, a associação das equipes. Apesar de ser um adversário, as equipes nunca estiveram tão unidas. Mosley, essencialmente quem define as decisões do Conselho Mundial, tem de levar em conta, ainda, que a exclusão da McLaren implicará o afastamento do ídolo dos ingleses, Hamilton, das pistas, o que representa enorme peso no seu projeto de reeleger na presidência da FIA, em outubro.

O CASO

Depois da prova de Melbourne, dia 29, Lewis Hamilton, da McLaren, e Jarno Trulli, Toyota, foram chamados à torre de direção de corrida porque o italiano ultrapassou o inglês com o safety car na pista. Hamilton afirmou ter se surpreendido com a manobra e deu a entender que o piloto da Toyota, terceiro colocado, deveria ser punido. Como Hamilton fora quarto, ele ficaria com a terceira colocação de Trulli.

O italiano confirmou ter ultrapassado porque Hamilton deslocou a McLaren para a direita e freou, exatamente para ser ultrapassado. Poucas curvas antes, Trulli havia saído da pista, com o safety car na prova, e Hamilton o passou. Para evitar uma punição, a direção da McLaren ordenou que seu piloto permitisse a Trulli regressar à posição original, afinal Hamilton lhe passou com o safety car na corrida.

Para os comissários, Hamilton disse não ter recebido ordens da equipe. Mas logo depois da bandeirada afirmou numa entrevista à Speed TV que agiu daquela forma porque a equipe o mandou, por rádio, deixar o italiano passar. Como a história de se surpreender com a ultrapassagem do piloto da Toyota foi convincente, Hamilton subiu para terceiro porque os comissários puniram Trulli.

Na segunda-feira os comissários souberam da entrevista de Hamilton à Speed TV e solicitaram à McLaren cópia do diálogo pelo rádio com o piloto. De cara compreenderam que Hamilton mentiu ao afirmar não ter recebido ordens para deixar Trulli ultrapassá-lo. E ficou claro, também, a razão de o campeão do mundo mentir: isso caracterizaria a infração de Trulli, por ultrapassá-lo em regime de safety car, e lhe garantiria o terceiro lugar em vez do quarto, ou um ponto a mais na classificação.

Descoberta a farsa, Hamilton perdeu os pontos e a McLaren foi excluída do GP da Austrália. Se o outro piloto, Heikki Kovalainen, tivesse marcado pontos, os perderia também. Hamilton se defendeu, no mesmo dia, ao acusar o diretor esportivo de sua escuderia, Dave Ryan, de tê-lo mandado mentir. Mais: pediu desculpas públicas a todos, de fãs à equipe, passando pelos que investiram na sua carreira.

McLaren demite diretor envolvido em polêmica de Hamilton na Austrália

A McLaren anunciou nesta terça-feira a demissão de Dave Ryan como diretor esportivo no mesmo dia em que foi chamada pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo) para prestar declarações sobre sua conduta no GP da Austrália, primeira prova da temporada 2009 da F-1.

Ryan foi "desmascarado" depois que a FIA resolveu reabrir a investigação sobre o incidente envolvendo Hamilton e Jarno Trulli durante o GP da Austrália.

A confusão ocorreu após o safety car entrar na pista e Trulli perder o controle do carro e ir para a grama. Sem opção, Hamilton o ultrapassou e entrou em contato com a equipe, via rádio, para saber se tinha que devolver a posição --pelas regras, não, já que o carro do italiano estava fora da pista.

Mas, enquanto o time consultava a direção de prova, Hamilton diminuiu a velocidade e devolveu o lugar ao piloto da Toyota. Aos comissários, disse que o piloto o havia ultrapassado. Resultado, Trulli foi punido e saiu da zona de pontos.

Declarações de Hamilton à imprensa, porém, fizeram com que a FIA ouvisse as gravações do rádio entre ele e a McLaren e invertessem a pena, já que tanto ele como Ryan haviam mentido. O episódio custou a Lewis Hamilton a exclusão do GP da Austrália,

Segundo uma nota, a rescisão foi acertada hoje e Ryan não está mais vinculado a nenhuma empresa do grupo McLaren. Ele tinha sido suspenso durante a disputa do GP da Malásia, semana passada.

Ainda citando o documento, a McLaren afirma seu desejo de "cooperar plenamente" com o processo, e define como "bem-vinda" a oportunidade de trabalhar com a FIA pelo "interesse" da F-1.

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