
Reunião do G20, em Londres, contribui para acelerar fim da crise e fortalece Reino Unido e Brasil, diz professor Paulo Sandroni
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quinta-feira em Londres que a reunião do G20 foi a primeira da qual participou em que houve igualdade de condições entre emergentes e desenvolvidos. Em relação à concessão de US$ 1 trilhão ao FMI (Fundo Monetário Internacional), Lula afirmou querer entrar para a história como o primeiro presidente brasileiro a emprestar dinheiro à instituição e lembrou que já carregou faixas de "fora FMI" no Brasil.
"Gostaria de entrar para a história como o presidente que emprestou alguns reais ao FMI", ironizou Lula durante a entrevista coletiva. "Em minha juventude, carreguei faixas em São Paulo que diziam 'fora FMI', (mas) o Brasil não quer se comportar como um país pequeno", disse Lula, em entrevista coletiva à imprensa na embaixada brasileira, depois do final da reunião do G20, grupo que reúne representantes dos países ricos e dos principais emergentes.
Ele não informou, no entanto, o valor que deverá ser repassado, e lembrou que, no passado, o Brasil pediu ajuda à instituição financeira e que as condições às quais estava submetido eram impopulares.
"A contribuição do Brasil será na forma de empréstimos [ao FMI] que não diminuam nossas reservas e que serão concedidos a países pobres, sobretudo, da América Latina", afirmou Lula.
Já o ministro da Fazenda Guido Mantega disse que o montante da participação brasileira será divulgado "nos próximos dias".
Para Lula, o G20 foi marcado também pela igualdade entre países desenvolvidos e emergentes.
"É a primeira reunião de que participei na qual os países desenvolvidos estiveram em igualdade de condições com os países em desenvolvimento", disse Lula.
"Hoje foi um momento muito importante para a história mundial", afirmou o presidente, após o anúncio do plano que injeta US$ 1 trilhão no FMI e regula os paraísos fiscais, impondo também restrições aos salários e bonificações dos banqueiros.
Segundo Lula, essa reunião de Londres foi diferente das anteriores "porque ninguém chegou sabendo tudo, como se os outros não soubessem nada".
"Com a crise, muitas coisas mudaram porque os países que a causaram ainda não mediram todos os prejuízos que sofreram, porque ninguém sabe seguramente o que deve ser feito", ressaltou o presidente.
Consenso
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anfitrião da atual cúpula, afirmou após o encontro que o "G20 alcançou novo consenso de que se tem de agir conjuntamente. (...) Problemas globais requerem soluções globais", disse em pronunciamento. Segundo ele, o encontro de hoje vai abrir caminho para uma "ação coletiva, e não uma coleção de ações individuais".
"Esse US$ 1 trilhão é dinheiro novo. É dinheiro gerado através do FMI emitindo seus direitos especiais e do crédito comercial, que vem de agências de exportação", explicou o primeiro-ministro britânico em entrevista coletiva.
Os países reforçaram ainda a necessidade de manter as políticas de corte de juros para estimular as economias internas, o que ajudará a atingir a cifra de US$ 5 trilhões de expansão fiscal (principalmente cortes de impostos e gastos públicos) para a criação de empregos até o fim de 2010. Brown ressaltou que tal valor, resultado dos esforços dos governos já anunciados, reflete o maior montante já "liberado" no mundo para estimular as economias.
Outro ponto abordado é a necessidade de "trabalhar urgentemente com os líderes" mundiais para fazer avançar a Rodada Doha de liberalização comercial, no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio). Segundo ele, para expandir o comércio global, serão destinados fundos de US$ 250 bilhões aos países para financiamento. Aos países emergentes, estão previstos mais US$ 100 bilhões de bancos de desenvolvimento multilaterais, o que eleva o total dos fundos a US$ 1,1 trilhão.
Regulamentações
O texto final inclui um acordo para a criação de um método de eliminar os ativos "podres" (de alto risco de calote) dos bancos e o endurecimento das regulamentações sobre "hedge funds" (fundos de alto risco), paraísos fiscais e o sistema bancário. "O sigilo bancário do passado tem de acabar (...) Estamos entrando em um processo profundo de reestruturação de nosso sistema financeiro para o futuro."
No documento final desta reunião do G20 saíram ainda decisões de redefinir as regras para o pagamento de bônus, "sem recompensa para o fracasso", segundo as palavras de Brown. Também foi determinado o objetivo de desenvolver um "sistema de alarme precoce" para crises.
Segundo o premiê britânico, as instituições internacionais, como o FMI, passarão por uma "modernização" para incluir mais os países emergentes.
Brown destacou, porém, que apesar da melhora de alguns indicadores nada será resolvido de uma hora para outra. "Os países chegaram a um plano que envolve maiores cortes de taxas de juros, maior aumento de recursos na história de instituições internacionais. É uma reestruturação do sistema fiscal do mundo inteiro", ressaltou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário