
Novo terremoto derrubou parte da Igreja das Almas Santas, em Áquila, cuja cúpula estava comprometida pelo sismo de domingo; o número de mortos pelo terremoto na região central da Itália chegou a 135 nesta terça-feira
KATIA DOLMADJAN
da France Presse, em Camarda
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Tomar banho no riacho, ir ao "toilette" atrás das árvores e cozinhar na fogueira: no vilarejo italiano de Camarda, castigado pelo grande terremoto que atingiu a região de Abruzzo neste domingo (5), os desabrigados não têm outra escolha a não ser se virar e esperar, sem muita esperança, pela ajuda das autoridades.
"Só hoje recebemos essas barracas azuis do Ministério do Interior. Para essas duas primeiras noites, fui no depósito buscar o ônibus da minha empresa de transportes", relatou Paolo Boccabella à agência de notícias France Presse.
No meio do campo, Paolo corta o cabelo de seu cunhado, sentado em uma cadeira. Um clima que poderia ser bucólico se não tivesse, ao fundo, o povoado destruído aos pés da montanha, devastado pelo terremoto.
Número de mortos em terremoto na Itália chega a 235
A Defesa Civil italiana informou nesta terça-feira que o número de mortos no terremoto que atingiu a parte central da Itália neste domingo chegou a 235. Ainda há pelo menos 15 pessoas desaparecidas e 1.000 estão feridas, cerca de cem delas seriamente.
Enquanto segue o resgate, parentes começam a se preparar para enterrar os mortos. O primeiro funeral de uma vítima está marcado para esta quarta-feira, na cidade de Loreto Aprutino, e será conduzido pelo arcebispo de Pescara. Pelo menos 235 corpos foram armazenados em um necrotério improvisado em uma escola da Polícia de Finanças da Itália, perto de Áquila, informou a imprensa local.
O trabalho de resgate seguiu pela noite e entrou a madrugada, à luz de holofotes e sob chuva, frio e o medo de novos tremores, como os que aconteceram nesta terça-feira.
O número de mortes aumentou progressivamente ao longo do dia, mas os homens que trabalham no resgate, muitos deles voluntários, tiveram um momento de alegria e aplaudiram quando resgataram uma estudante de 20 anos das ruínas de um prédio de cinco andares no centro de Áquila, cidade que registrou a maioria dos mortos.
"Um resgate como esse vale o trabalho de seis meses", disse Claudio, um bombeiro de Veneza, depois que Eleonora Calesini, foi tirada dos escombros. Segundo parentes, a estudante, que usa um aparelho auditivo, teve ferimentos em um braço, mas estava em bom estado de saúde.
Mais cedo, uma mulher de 98 anos foi resgatada depois de passar 30 horas embaixo dos escombros.
Entre os mortos estão quatro estudantes presos nos escombros de um dormitório da Universidade de Áquila, informou a agência de notícias Ansa. "A menos que haja um milagre, fui informado que eles provavelmente estão mortos," disse o reitor da universidade, Ferdinando Di Orio. No início da noite, os corpos de dois deles foram localizados.
Muitas das vítimas eram estudantes da universidade. Um bombeiro do porto de Pescara, que foi à cidade ajudar os esforços de resgate desabou em lágrimas depois de localizar nos escombros o corpo de sua enteada, que estudava em Áquila.
Novos terremotos
Cerca de 17 mil sobreviventes que ficaram desalojados após o pior terremoto em três décadas na Itália passaram uma noite de medo em tendas e carros na região montanhosa de Abruzzo. O tremor mais forte desde o terremoto de segunda-feira derrubou edifícios, incluindo partes da basílica e da estação, quando o sol estava se pondo.
Em Áquila, o tremor derrubou partes da Igreja das Almas Santas, cuja cúpula estava comprometida, além de escombros dos edifícios danificados na madrugada desta segunda-feira. Os contêineres de água instalados na estação de trens da capital de Abruzzo também caíram.
"Nós avisamos as pessoas para não voltarem para as suas casas", disse o primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, em uma entrevista coletiva em Áquila, onde prometeu as buscas por sobreviventes irão continuar pelos próximos dois dias.
O terremoto lançou detritos sobre moradores e equipes de resgate em Áquila. "Eu quero ir para casa! Quero ir para casa!", gritou uma mulher identificada apenas como Patrizia depois que pedaços de fachada de um prédio em ruínas caíram sobre eles.
Sua mão tremia quando homens do resgate entregaram a ela um copo de água. O namorado dela, Agostino Paride, 33, um engenheiro, disse que eles tinham dirigido 70 km até Áquila para levar alimentos e roupas para parentes que estavam na barraca de um acampamento.
O prefeito de Áquila disse que o terremoto de 5,6 graus na escala Richter deixou um morto --o que não foi confirmado pelos bombeiros. Em Roma, 100 km a oeste, os móveis tremeram nos andares mais altos dos prédios. Há relatos de que um romano de 76 anos morreu após um ataque cardíaco.
"Nas duas últimas noites, eu dormi três horas no máximo. Eu me sinto fisicamente e mentalmente cansada pela falta de sono e pelo medo", disse Ilaria Ciani, 35, que passou as noites em uma grande tenda azul no acampamento de sobreviventes em um campo de esportes perto de Áquila.
O governo, que declarou estado de emergência nacional, enviou tropas para a região, criou 20 acampamentos e 16 cozinhas de campanha para fornecer comida quente e alojamento para 14 mil pessoas.
Camarda, que fica a 785 metros de altitude no caminho da montanha de Gran Sasso, teve muita sorte. Todos os seus moradores estão, milagrosamente, sãos e salvos, ainda que a maioria das casas, feitas de pedra, esteja inabitável, ou em parte destruída.
"É duro, muito duro. Acabamos de receber essas barracas, mas não há nada dentro. Tivemos de voltar para nossa casa para pegar colchão. Também prometeram banheiros químicos, mas ainda não chegou nada. Para dizer a verdade, vamos ao banheiro lá atrás das árvores. É um pouco degradante, sobretudo, para as mulheres", lamentou Fernando Alloggia.
"Lavei os pés em uma bacia com água do riacho", acrescentou Fernando, sentado na frente da barraca destinada à sua família. "É isso, é simples. A gente se vira, fazendo o que dá. Há muita solidariedade. Cozinhamos nesse braseiro, ou na churrasqueira. A Defesa Civil disse que teríamos uma cozinha móvel, então, nós esperamos."
Na barraca em frente, uma mulher troca um bebê que chora. Um pouco mais adiante, uma família armou uma mesa de camping, onde empilha garrafas de água mineral. "O que vocês queriam? Precisamos nos virar. Não podemos continuar esperando de braços cruzados que alguém venha resolver nossos problemas", disse Fausto Spagnoli.
"Eu estou preparado para ter paciência e esperar que tudo se resolva, mas eu me preocupo com as crianças. Não tem mais escola para os pequenos, minha filha mais velha não vai poder ir para a universidade. Não sabemos o que vai acontecer, está tudo suspenso."
Ao longo da estrada que leva a Áquila, capital de Abruzzo, as mesmas cenas se repetem. Diante das casas com fissuras, ou destruídas, as famílias espalharam colchões na grama, armam barracas e cozinham em braseiros.
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