Tiros em Guiné-Bissau

Fábio Zanini

A semana começou de uma maneira tipicamente africana, um golpe de Estado em Guiné-Bissau. Morreu João Bernardo Vieira, “Nino” para os íntimos, figura dominante na política desse paupérrimo país desde sua independência, em 1974.

As informações ainda não são muito claras, mas aparentemente ele foi assassinado na porta de sua casa como um ato de vingança pela morte do chefe do Exército, Tagme Na Waie, algumas horas antes. É o tipo de roteiro hollywoodiano que na vida real só acontece mesmo em algumas partes da África.

O país está acéfalo, apesar de a situação na capital, pelo menos, aparentar tranquilidade. A dúvida agora é se isso vai se configurar num golpe de Estado à moda antiga, com as Forças Armadas tomando o poder e suspendendo a Constituição, ou se uma fachada de legalidade será respeitada, com o vice-presidente ou o primeiro-ministro assumindo.

Não é pouca coisa o assassinato de Nino Vieira. O país é pobre e periférico, mas ele era uma figura com certa estatura na política continental. Era um “big man” à moda antiga, um “homem grande” não por suas credenciais de visionário ou pensador, mas por confundir-se com as instituições de Estado, como ocorre frequentemente no continente. E havia uma aura romântica sobre sua biografia.

Nino destacou-se na luta pela independência, nos anos 70. Era a sombra de Amílcar Cabral, esse sim um ícone do nacionalismo africano, assassinado pela ditadura portuguesa em seus estertores, em 1974. Com o caminho livre, Nino pouco a pouco foi consolidando seu controle sobre as Forças Armadas de Guiné-Bissau até dar um golpe em 1980 e assumir o poder total.

Durante 19 anos ele governou de maneira ininterrupta um dos países mais pobres do mundo, cuja única produção econômica de algum valor é o cultivo de castanhas de caju. Primeiro num pastiche de socialismo e, após a queda do Muro de Berlim, como presidente eleito de maneira (mais ou menos) democrática, em 1994.

Cinco anos depois, uma guerra civil tirou-o do poder. Como frequentemente acontece na África, havia um componente étnico. Os rebeldes eram da etnia balanta, um grupo historicamente marginalizado da sociedade guineense e que sofreu pouca ou nenhuma influência dos portugueses (seus nomes têm uma característica “africana”, enquanto a elite local tem nomes lusófonos e fala o português).

Por seis anos Nino viveu exilado, até voltar em triunfo em 2005, novamente eleito presidente. O mito do “homem grande” era forte demais para ser derrotado.

Guiné-Bissau hoje é um país falido, e vem sendo chamado de o primeiro “narcoEstado” do planeta. Tornou-se uma rota muito lucrativa do tráfico de drogas da América Latina para a Europa. Todas as condições ali são perfeitas para isso: localização geográfica privilegiada, população miserável disposta a correr riscos e ausência de poder público.

Estive por lá em outubro de 2004. Poucos dias antes, o então chefe do Exército (antecessor do assassinado ontem) havia tido o mesmo fim: morto por rebeldes balantas, descontentes com o fato de sua etnia estar sendo supostamente discriminada em promoções hierárquicas.

Lembro da buraqueira nas avenidas centrais, dos porcos e galinhas passeando pelo centro da capital, dos apagões diários religiosamente às 19h e do palácio presidencial em ruínas, ainda um resquício dos bombardeios da guerra civil. E também da principal avenida comercial deserta num dia útil, das poucas lojas abertas e da incrível quantidade de 1 (um) cyber café para abastecer todo o país.

Mais revelador de tudo foi o dia em que um caminhava por uma calçada esburacada e, por trás de um muro alto, uma voz me pediu um trocado, do jeito que é uma marca registrada dos países africanos de língua portuguesa: “Me ajude, ó pá, que estou cheio de fome...”

Era um soldado de Guiné-Bissau, de sentinela na entrada de seu quartel, mendigando um trocado.

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