Polícia Federal indicia secretária da Camargo Corrêa e Thomaz Bastos é escalado para defender a empreiteira

Jorge Serrão

Tem culpa a Secretária? A Operação Castelo de Areia copiou o enredo de filmes policiais de mistério, nos quais o “mordomo é sempre o culpado”. A secretária da Camargo Corrêa, Darcy Flores Alvarenga, foi indiciada pela Polícia Federal. Seu crime foi ter agendado encontros de diretores da empreiteira com doleiros.

Como uma das comuns rotinas de uma secretária é marcar encontros para seus chefes, a agora indiciada Darcy ganha status do sofá transformado em culpado pela traição naquela famosa piada de português. Como não dá para jogar a secretária pela janela, tacaram-na na cela da Polícia Federal. Na falta do sofá e do mordomo, condene-se a secretária, ao som da música de Carmem Miranda: “Alô, alô... Responde... Responde com toda sinceridade...”

Para enfeitar ainda mais a piada, o advogado Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça do governo Lula, foi especialmente escalado para trabalhar em conjunto com Antônio Cláudio Mariz de Oliveira na defesa da construtora Camargo Corrêa. Sorte da secretária Darcy que contará com os maiores defensores do mundo para escândalos como este. A Camargo Corrêa é acusada de remessa ilegal de dinheiro ao exterior e de repasse de dinheiro a partidos políticos em troca de vantagens em licitações públicas.

Os ingredientes de ironia e humor ficaram mais acentuados no caso por causa de uma coincidência. No dia em que estourou a Operação da PF, na quarta-feira passada, Thomaz Bastos (que é fã ardoroso de Carmem Miranda) esteve em Brasília. Encontrou-se por dois minutos com o chefão Lula da Silva. Bastos admitiu que, na ocasião, já estava contratado pela empreiteira. Mas negou qualquer indicação presidencial para assumir o caso. Thomaz Bastos alegou que tinha laços antigos com a Camargo Corrêa, com quem mantinha boas relações, pois conhecera seu fundador, Sebastião Camargo – já falecido.

Outros envolvidos

Além da secretária Darcy Flores Alvarenga, a Polícia Federal indiciou o diretor de Licitações da Camargo Corrêa, engenheiro Raggi Badra Neto, por crimes de câmbio ilegal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Ambos foram presos junto com os dirigentes da empreiteira Fernando Dias Gomes, Darcio Brunato, Pietro Francisco Bianchi, além da outra secretária da diretoria, Marisa Berti.

Também foram detidos na operação outros três doleiros do Rio de Janeiro - José Dinei Mattos, Jadail Fernandes de Almeida e Maristela Brunet - e um em São Paulo, o suíço Kurt Paul Pickel, naturalizado brasileiro e ex-funcionário de um banco suíço no Brasil.

Ilegalidade?

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira avalia que a prisão deles não tem fundamento legal.

Segundo ele, os funcionários da construtora não poderiam ser detidos sem a existência de um processo.

As prisões foram determinadas pelo juiz da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, Fausto De Sanctis, o mesmo que mandou prender os banqueiros Daniel Dantas e Edemar Cid Ferreira.

A desembargadora Cecília Mello, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, deve julgar até segunda-feira um habeas corpus para libertar os presos.

Nada político...

O juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, negou que a Operação Castelo de Areia tivesse objetivos políticos.

O magistrado garantiu que não houve intenção de investigar "ocupantes de cargos públicos ou funções políticas".

O juiz ressaltou que as investigações "apuram o suposto cometimento de crimes apenas de investigados com profissões de natureza privada, notadamente de lavagem de dinheiro, tendo como antecedentes crimes contra a administração pública e crimes financeiros, perpetrados, em tese, mediante organização criminosa".

O escândalo

Os executivos da Camargo Corrêa e suas secretárias são suspeitos de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, câmbio ilegal, formação de quadrilha e uso de documentos falsos e de laranjas.

O Ministério Público Federal informou que a quadrilha desviou pelo menos R$ 30 milhões entre janeiro de 2008 e março deste ano.

Parte do dinheiro teria financiado campanhas políticas de candidatos de pelo menos sete partidos: PSDB, DEM, PPS, PSB, PDT, PP e PMDB.

O MPF acusa o grupo também mandava dinheiro ilegalmente para contas correntes em paraísos fiscais, como Uruguai, Ilhas Cayman e Suíça.

Tudo explícito

Conversas telefônicas interceptadas com a autorização da Justiça mostram que os diretores da empreiteira Camargo Corrêa distribuíram dinheiro "por fora" (não contabilizados) para abastecer campanhas de candidatos até dias antes da eleição municipal do ano passado.

Num diálogo de 23 de setembro de 2008 - 12 dias antes do primeiro turno - entre o diretor Pietro Giavina Bianchi, preso pela PF, e um homem chamado Marcelo, ficou claro que muitas das negociações ultrapassavam os limites legais.

Segundo relatório da Justiça Federal paulista, o seguinte diálogo aconteceu às 10h19:

Marcelo: "Eram coisas para acontecerem ontem".
Pietro: "Sim, mas o que é, campanha política?".
Marcelo: "É"
Pietro: "Por dentro?".
Marcelo: "Não".

Quem seria Marcelo?

O MPF não revelou a identidade de Marcelo, mas suspeita que se trata de um colaborador para a campanha política de um candidato a prefeitura de São Paulo.

Uma semana antes, o mesmo diretor da empreiteira, em conversa com Fernando Botelho, vice-presidente da Camargo Corrêa, trata do repasse de recursos a políticos de Brasília, por intermédio do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.

Botelho é também vice-presidente da Fiesp.

Onde foi a divisão?

Ao ser informado que o dinheiro "foi passado lá pro pessoal de Brasília", Botelho procura saber se foi feito diretamente de São Paulo.

Pietro é claro: "Foi em Brasília que fizeram a divisão".

Em seguida, o vice-presidente da Camargo Corrêa faz a seguinte cobrança:

"Eu falei agora com o Paulo Skaf e ele falou que (o repasse) não foi feito ainda".

Negar é preciso

O presidente da Fiesp, em nota oficial, negou uma relação com o esquema, mas disse que a federação promove relações entre empresas e partidos.

"No exercício da missão institucional de defender os interesses da produção, em especial, e da sociedade, em geral, a Fiesp, que tem mantido um transparente diálogo com parlamentares de todas as correntes ideológicas, não está impedida de - num ato legal e legítimo -, observadas, rigorosamente, todas as exigências e formalidades jurídicas, promover relações institucionais entre empresas e partidos políticos".

Agora, o medo de Skaf é que tal escândalo atrapalhe sua pretensão de concorrer ao governo do Estado de São Paulo ou de ser candidato a vice de alguém, em 2010.

Outra conversa

A Justiça também detectou uma conversa entre o diretor da empreiteira, Fernando Dias Gomes, também preso na operação "Castelo de Areia", e Pietro Francisco Bianchi.

No diálogo, Dias Gomes informa ter ligado em nome do deputado federal José Carlos Aleluia (DEM-BA), que queria "saber se foi pago alguma coisa no passado".

A assessoria do deputado diz que ele não recebeu qualquer tipo de doação que não esteja contabilizada oficialmente.

A listinha

Ainda nesta conversa, os dois diretores da Camargo Corrêa falam sobre uma lista com os nomes de todos os partidos e políticos que teriam sido beneficiados com dinheiro da empreiteira, legal e ilegalmente.

Pietro: "Tem aquela pasta das eleições"
Gomes: "Ah, tá bom"
Pietro: "E lá tem todos os caras que foram pagos".
Gomes: "Eu procuro lá, então"
Pietro: "A relação, inclusive a oficial, colaboração oficial"
Gomes: "Tem as duas, né?"

Por dentro e por fora...

Durante as buscas e apreensões, a Polícia Federal encontrou uma lista com os nomes de políticos e funcionários públicos que teriam sido beneficiados com dinheiro da Camargo Corrêa.

A planilha teria informações sobre os repasses registrados na Justiça eleitoral e o "por fora".

A maioria das doações seria de R$ 100 mil.

Jogada feia

Na linha de investigações sobre supostos crimes financeiros envolvendo a Camargo Corrêa, a PF e a Procuradoria da República descobriram que algumas das empresas de fachada usadas no esquema de remessa ilegal a paraísos fiscais estavam em nome dos doleiros que negociavam com diretores da empresa.

Detido por policiais no Rio, o doleiro Jadair Fernandes de Almeida seria o dono da Altercom, usada para enviar recursos ao exterior, inicialmente, em duas remessas, de US$ 200 mil e de US$ 600 mil.

As transferências eram feitas em operações de dólar-cabo, em que uma rede de internacional de doleiros executa remessas sem que o dinheiro deixe o Brasil.

O elo do esquema

Cerca de R$ 2 milhões em valores de hoje teriam sido mandados ao exterior desde janeiro de 2008, quando a investigação começou.

O elo das operações entre as empresas de fachada seria o doleiro suíço naturalizado brasileiro Kurt Paul Pickel.

Também com atuação no Rio, a doleira Maristela Brunet, outra presa quarta-feira, atuaria junto com o doleiro Jadair no mercado informal de troca de moedas.

Empresas de fachada?

Pelo menos duas empresas seriam usadas para remeter recursos a paraísos fiscais: a Surpark S/A, que teria sede no Uruguai e filiais das Ilhas Cayman, e a Admaster Serviços Ltda.

Outra empresa de fachada usada pelo grupo é o Instituto Pirâmides, instalado num bairro pobre de Saquarema, na região dos Lagos do Rio de Janeiro.

No endereço que consta na Junta Comercial, funciona um centro educacional e a empresa Transit Assessoria Contábil.

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