Este é o nome pelo qual ficou conhecida a área de pesquisa que tenta produzir energia a partir da junção de dois átomos para formar um terceiro, mas sem usar muita energia. É o mesmo tipo de reação que ocorre "a quente" no núcleo do Sol, mas físicos tentam fazê-lo agora com aparelhos que cabem em cima de uma mesa.
Plástico especial, que apontava furos microscópicos em forma de triângulo, mostra que alguns nêutrons estavam sendo liberados Um grupo liderado por Pamela Mosier-Boss, do Comando de Sistemas de Guerra Naval e Espacial dos EUA, anunciou na semana passada ter conseguido. O trabalho foi tema de uma palestra e de uma entrevista coletiva no encontro da Sociedade Química Americana.
Em estudo que passou por revisão independente, publicado na revista científica alemã "Naturwissenschaften", a cientista descreveu a produção de fusão a frio num aparato experimental relativamente simples --uma célula eletrolítica, que decompõe substâncias químicas usando eletricidade.
Ao longo da semana, a notícia gerou uma enxurrada de comentários --mais críticas do que elogios-- em blogs de cientistas mundo afora. Não é para menos, já que a história que mais marcou esse campo foi uma acusação de fraude.
Há exatas duas décadas, a comunidade física entrava em polvorosa com a notícia de que dois cientistas --Martin Fleischmann e Stanley Pons, da Universidade de Utah (EUA)-- haviam finalmente conseguido produzir a fusão a frio. Ao que parecia, era o prenúncio de uma nova era, com a produção de energia abundante, barata e limpa (a reação de fusão não gera lixo atômico).
A dupla de pesquisadores também usara uma célula eletrolítica e mostrara dados indicando que seu aparato produzia "energia excedente", sinal de que a fusão nuclear estaria ocorrendo. Dezenas de laboratórios logo começaram a tentar reproduzir o experimento, mas nenhum conseguiu. Pons e Fleischmann caíram em descrédito, mas nunca reconheceram que teria havido fraude.
O novo experimento de Mosier-Boss, porém, adotou uma técnica diferente para mostrar que a fusão nuclear pode ter ocorrido em seu experimento "frio". A pesquisadora procurou mostrar que alguns nêutrons (partículas do núcleo de átomos) estavam sendo liberados --sinal clássico de reações nucleares. Para captar os nêutrons ela usou um plástico especial, que mostrava furos microscópicos em forma de triângulo.
Seriam o sinal deixado por partículas secundárias geradas na colisão dos nêutrons com o plástico.
Novo nome, velha disputa
"Até onde sabemos, é o primeiro relato científico da produção de nêutrons altamente energéticos em um dispositivo de LENR", afirmou a Mosier-Boss, em comunicado à imprensa. A sigla é composta das iniciais de "reações nucleares de baixa energia", em inglês, nome que os químicos adotaram agora no lugar da maculada expressão "fusão a frio".
O renascimento dessa linha de pesquisa, porém, não ocorreu do dia para a noite. "Um pequeno grupo de defensores da fusão fria continuou suas pesquisas e reuniões periódicas para apresentar seus resultados", disse à Folha o físico Antonio Carlos Paes, do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial. "Parece haver agora uma cisão entre o grupo dos físicos e o dos químicos americanos a respeito das LENR."
Paes, que acompanha notícias sobre a linha de pesquisa desde 1989, conta que uma comissão da Sociedade Americana de Física tentou aplicar um golpe de misericórdia em 2005. "Revisores desaconselhavam que o governo americano aplicasse dinheiro na fusão fria."
Outro físico brasileiro, Ricardo Galvão, que pesquisa a fusão "quente" no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e na USP, diz que as marcas dos nêutrons detectados por Mosier-Boss, parecem ser consistentes.
"Mas não há nenhum ganho de energia nas reações das quais eles mostram indicações convincentes", diz. "Para produção de energia, o resultado não tem nenhuma relevância."
É cedo para saber se a fusão a frio voltará com força, dizem os físicos. A recepção aos novos experimentos, porém, ainda não é muito calorosa.
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