Com 300 milhões de usuários, a maior população online do mundo, a internet é um dos fenômenos mais instigantes e de difícil compreensão para quem observa a China de hoje. Sua expansão é promovida e celebrada pelo mesmo governo que bloqueia inúmeras páginas e blogs, na tentativa de manter fora do alcance dos chineses temas “sensíveis” como o conflito no Tibete, a independência de Taiwan ou pressões por uma democracia pluripartidária.As autoridades de Pequim mantêm um exército estimado em 30 mil censores para “filtrar” as informações a que seus internautas têm acesso, mas é cada vez maior o espaço ocupado por discussões online que seriam impensáveis há poucos anos. Os chineses participam de milhares de fóruns e debatem com paixão os problemas que assolam o país _da crescente desigualdade de renda ao aumento da poluição. A China tem um número estimado entre 30 milhões e 50 milhões de blogs, que vão do estilo “esta é minha vida” aos que defendem mudanças políticas radicais. Neste último caso, os posts costumam cair na rede da censura, mas são colocados no minuto seguinte em outro endereço, em uma corrida interminável.
A grande incógnita é saber se a internet levará necessariamente à democratização da sociedade chinesa ou se será um instrumento de legitimação do Partido Comunista. Os donos do poder em Pequim têm sido agressivos e rápidos na tentativa de transformar a internet em uma arma que funcione a seu favor, com o uso cada vez mais freqüente da rede na identificação de demandas da sociedade e na comunicação com a população. A imprensa oficial chinesa se refere à população online como “wang min”, algo como “internauta cidadão” ou “netizen” em inglês, um termo que reflete a ideia de que a rede seria um canal de expressão da cidadania.
No sábado, o primeiro-ministro Wen Jiabao participou de um chat com milhares de internautas (“wang min”) durante duas horas, nas quais falou sobre corrupção, aumento da desigualdade social, problemas na área de saúde, desemprego, habitação, mercado acionário e até culinária. Claro que os temas “sensíveis” estavam ausentes, mas o debate foi bem menos restrito que o chat realizado no ano passado pelo presidente Hu Jintao. Nada menos que 90 mil perguntas foram apresentadas durante as duas horas.
Entre os pontos que mais me surpreenderam no diálogo de Wen com os internautas foram as críticas feitas à decisão do primeiro-ministro de doar de seu bolso 10 mil yuans para ajudar no tratamento de uma criança que tem leucemia. Ao invés de receber afagos por seu bom coração, Wen foi atacado pelas falhas do serviço público de saúde na China. Para os internautas, é melhor ter um bom sistema do que um bom primeiro-ministro. “Eu notei as severas críticas que dizem que um bom sistema importa mais do que um bom premiê e entendi os argumentos”, escreveu Wen. “A China tem mais de 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma delas custa mais de 100 mil yuans. Mas nenhuma empresa de seguro-saúde na China aceitaria o reembolso de uma despesa médica tão alta”, admitiu.
Wen Jiabao afirmou que a corrupção só pode ser combatida com limites ao exercício do poder e sustentou que os governados têm o direito de criticar os governantes _ele só não mencionou que a prática também está sujeita a limites. Ao falar do aumento da desigualdade social, Wen Jiabao citou um de seus autores prediletos, o escocês Adam Smith (1723-1790), considerado o pai do liberalismo econômico e autor da teoria da “mão invisível” como o mais eficaz instrumento de regulação do mercado. “Se a riqueza em uma sociedade é concentrada nas mãos de um pequeno número de pessoas, isso vai contra a vontade popular e a sociedade estará fadada a ser instável”, disse Wen, fazendo referência à “Teoria dos Sentimentos Morais”, obra escrita por Smith antes de a “A Riqueza das Nações”.
Em discurso a dirigentes comunistas há dois anos, o presidente Hu Jintao conclamou os camaradas a aprenderem a usar a internet e a usarem a rede para “aperfeiçoar a arte da liderança”. O jornal oficial do Partido Comunista, “Diário do Povo”, realiza desde o fim de janeiro uma pesquisa online para saber quais os tópicos de interesse dos “netizens” em preparação à reunião anual do Congresso Nacional do Povo, que começa na quinta-feira. Até o dia 2 de março, 300 mil pessoas haviam escolhido entre as 20 opções possíveis e os 10 assuntos campeões eram proteção do meio ambiente, combate à corrupção, segurança de remédios e de alimentos, reforma do sistema de saúde, distribuição de renda, emprego, habitação, educação, seguridade social e sistema Judiciário. A opção “democracia” não estava incluída entre os 20 itens da versão em chinês do jornal, apesar de aparecer na versão em inglês.
A tentativa do governo de transformar a internet em um mecanismo de comunicação com a população e de resposta às demandas dos cidadãos é o principal elemento que leva alguns estudiosos a sustentarem que a rede não levará à democratização e ao pluripartidarismo na China. Pelo contrário. Rebecca MacKinnon, professora da Universidade de Hong Kong, cunhou o termo “cyber-tarianism” para delinear um dos possíveis cenários para o futuro da internet no país, um cenário no qual o governo usa a rede para identificar as inquietações da população, atendê-las quando possível e, assim, reduzir o risco de instabilidade social. Nele, o regime de partido único comandado pelos comunistas não é ameaçado e os cidadãos têm a percepção (real ou ilusória) de participar de alguma maneira do processo decisório. Outro cenário é o de uma “cyber-ocracy”, na qual comunidades poderiam usar a internet para se organizar em torno de questões de seu interesse (agradeço à minha amiga Janaína Silveira por me enviar um texto sobre o assunto).
Muitos continuam a acreditar que a rede levará de maneira inevitável à democratização da sociedade chinesa, na medida em que amplie o acesso à informação e o espaço público para o debate de idéias. Mas ainda é muito cedo para saber quem está certo.
Abaixo, a foto de Wen Jiabao durante o chat, distribuída pela agência oficial de notícias Xinhua:
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