
Meninas palestinas observam estragos causados pela ofensiva israelense contra o Hamas na casa em que moram, no sul de Gaza
Os esforços do Exército israelense para proteger seus soldados de fogo palestino na recente ofensiva militar israelense contra alvos do movimento islâmico radical Hamas, na faixa de Gaza, pode ter contribuído para mortes de civis inocentes. A declaração é do general-de-brigada Tzvika Fogel, que participou da operação militar israelense que deixou ao menos 1.300 palestinos mortos, cerca de 5.000 feridos e destruiu 5.000 casas no território costeiro.
A declaração é mais um dos recentes episódios de denúncia e acusações contra Israel por sua conduta durante a operação militar.
Após enfrentar a condenação mundial devido ao número elevado de mortes no conflito de janeiro --ao menos 900 delas, civis-- Israel agora está sob pressão para justificar sua conduta, depois da série de reportagens do jornal israelense "Haaretz" com relatos de veteranos do conflito sobre assassinato de civis inocentes, vandalismo, além de um bilhete que ordena ataques a equipes médicas e a campanha dos rabinos do Exército para transformar a operação em uma "guerra santa".
A denúncia veio também em depoimentos de palestinos ao jornal britânico "The Guardian" que diz ter provas concretas sobre os crimes de guerra de Israel, como o uso de crianças palestinas como escudo humano.
O general-de-brigada, que foi mobilizado da reserva para participar da ofensiva de 22 dias, descreveu que era praxe considerar como potencial guerrilheiro do Hamas qualquer um que desobedecesse às ordens dos militares para deixar a zona de combate.
Contudo, afirma Fogel, os soldados israelenses ainda deveriam refletir antes de atirar e ter uma visão "razoável" de que a pessoa diante deles seria uma ameaça. Mas acrescentou: "Se você quer saber se eu acho que ao fazê-lo matamos inocentes, a resposta é inequivocamente sim".
"Seria muito desonesto da minha parte se eu lhe dissesse que isso era impossível", disse ele, à agência de notícias Reuters. "Mas, se houve tais incidentes, eles foram excepcionais. Não era o clima geral nem a política oficial."
Valor
Um dos relatos dos soldados israelenses fala justamente do descaso dos soldados israelense com a vida dos civis palestinos e a falta de ética e de moral na condução da ofensiva em um pequeno território de 360km² que abriga 1,5 milhão de pessoas.
"A atmosfera em geral, não sei como descrever. As vidas de palestinos, digamos que são menos importantes que as de nossos soldados", diz um dos trechos da declaração de um chefe de pelotão que atuou em Gaza, ao justificar a morte de uma palestina e seus dois filhos, mortos por um atirador de elite israelense. "Porque, depois de tudo, fez seu trabalho segundo as ordens que lhe foram dadas. [...] Assim, se eles estão preocupados, podem justificar desta forma", completa.
O Centro Palestino para os Direitos Humanos, que diz ter identificado todos os mortos, afirma que o conflito matou 1.417 palestinos, sendo 926 civis, inclusive 313 crianças e 116 mulheres. Muitos civis, de acordo com a entidade, morreram em bombardeios aéreos ou da artilharia israelense.
Os militares não forneceram cifras próprias. Uma entidade palestina vinculada às Forças Armadas alegou que a cifra de civis apresentada pelos palestinos inclui um grande número de jovens em idade de combate.
A lista de prioridades dos soldados israelenses, afirma Fogel, é primeiro levar os soldados seguros de volta para casa. "Segundo, estamos determinados a ganhar. Terceiro, não somos assassinos. Nós não podemos criar uma situação na qual lutaremos sem princípios."
Credibilidade
Richard Kemp, coronel britânico reformado que comandou forças no Iraque e no Afeganistão, disse compreender as táticas de Israel em Gaza, mas afirmou que em longo prazo a credibilidade dos militares depende de levar à Justiça eventuais violadores das leis de guerra.
"O combate é uma situação muito estranha. Mas não acho que se possa dizer que, por causa disso, deve-se aceitar que as regras sejam violadas"', disse Kemp, em Londres.
Fogel diz que esta será a reação do Exército. "Se tivermos um testemunho que mostra muito claramente que alguém se comportou de maneira inadequada e não fez a coisa certa, eu não tenho dúvidas de que haverá procedimentos legais", disse.
O chefe das Forças Armadas de Israel, tenente-general Gabi Ashkenazi, também prometeu nesta segunda-feira (23) responsabilizar os soldados por qualquer ação anti-ética.
Em um relatório apresentado nesta segunda-feira no Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), o relator especial sobre a situação nos territórios palestinos, Richard Falk, pediu uma "investigação de especialistas" para determinar se, dado o contexto, os israelenses eram capazes de distinguir entre alvos militares e a população civil.
"Se isso não era possível, então a ofensiva foi ilegal por natureza e constitui um crime de guerra da maior amplitude", escreveu no documento.
Soldados de Israel usavam crianças como escudo humano, afirma "The Guardian"
da Efe, em Londres
O jornal britânico "The Guardian" publicou nesta terça-feira reportagem na qual apresenta "provas documentadas" de supostos crimes de guerra cometidos por Israel durante a recente ofensiva militar contra alvos do movimento islâmico radical Hamas na faixa de Gaza, que se estendeu de 27 de dezembro passado a 18 de janeiro e deixou mais de 1.300 palestinos mortos.
Entre os crimes citados pelo jornal está o uso de crianças palestinas como escudo humano e os ataques diretos contra médicos e hospitais. O "Guardian" diz ter encontrado provas dos ataques feitos contra civis por aviões não tripulados que, segundo o jornal, são tão precisos que seu piloto pode distinguir até a cor da roupa de um possível alvo.
Os depoimentos estão em três vídeos feitos pelo "Guardian", que ampliam os pedidos da comunidade internacional para que se investigue a operação israelense contra o Hamas por crimes de guerra. Na última semana, o jornal israelense "Haaretz" também publicou uma série de reportagens com relatos de soldados que denunciam assassinato de civis inocentes, vandalismo, além de um bilhete que ordena ataques a equipes médicas e a campanha dos rabinos do Exército para transformar a operação em uma "guerra santa".
Entre os depoimentos mais dramáticos está o de três irmãos adolescentes da família Al Attar, que afirmam terem sido tirados de casa e obrigados a se ajoelhar em frente a carros de combate israelenses para evitar que os palestinos atacassem os invasores.
Os irmãos contam também que os soldados israelenses os enviaram em outras ocasiões como missão avançada às casas dos palestinos para, no caso da presença franco-atiradores, servirem de escudo para as primeiras balas.
A utilização de escudos humanos foi declarada ilegal em 2005 pela Suprema Corte israelense após vários incidentes do tipo.
Segundo o jornal, vários médicos e motoristas de ambulâncias contaram terem sido alvo de disparos israelenses e 16 morreram assim, algo estritamente proibido pelas Convenções de Genebra.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais da metade dos 27 hospitais e das 44 clínicas de Gaza foram bombardeados pelos israelenses.
Em um relatório publicado nesta terça-feira, a própria organização Médicos pelos Direitos Humanos de Israel denuncia as violações. "Observamos uma forte degradação ética por parte das Forças de Defesa Israelenses no que se refere ao tratamento da população civil de Gaza, que equivale de fato a um total desprezo pelas vidas dos palestinos", critica a organização.
Exército de Israel ordenou ataque contra equipes de resgate em Gaza, diz "Haaretz"
Um palestino encontrou uma instrução, escrita a mão e em hebraico, que indicava aos soldados israelenses a atacar equipes de resgate durante a recente ofensiva militar na faixa de Gaza, entre dezembro e janeiro, que deixou mais de 1.300 palestinos mortos, dos quais ao menos 900 civis, e causou duras críticas de organizações de direitos humanos contra Israel por crimes de guerra.
O conteúdo do comunicado é a terceira de uma série de reportagens publicadas pelo jornal israelense "Haaretz" nas quais os soldados israelenses relatam vandalismo e assassinato de civis inocentes durante a ofensiva e denunciam que rabinos incitaram uma "guerra religiosa" contra os palestinos em Gaza.

Palestina caminha por escombros de campo de refugiados em Rafah após um ataque israelense
"Regra de engajamento: Abrir fogo também contra pessoal de socorro" era o texto que estava escrito em uma folha de papel encontrada em uma das milhares de casas palestinas tomadas pelas Forças de Defesa israelenses em Gaza.
"Nem em crianças, nem em mulheres. Além do "tantcher" --incriminação", diz ainda instrução. "Tantcher" é como as Forças de Defesa de Israel chama a rota que passa por toda a extensão da faixa de Gaza. Como o bilhete foi encontrado a leste desta rota, afirma o jornal, é possível concluir que a instrução era para que atirassem em quem atravessasse a rota na direção da área controlada por Israel.

Menino palestino é visto nos escombros de uma das milhares de casas destruídas pela ofensiva militar israelense
Segundo o jornal, um reservista que não participou da operação militar disse que a instrução faz parte das ordens de um comandante de companhia aos seus soldados e deve ter sido entregue como um "resumo" das ordens que recebeu de seus superiores.
Números
A revelação veio apenas dois dias antes do novo relatório da ONG Médicos pelos Direitos Humanos, que aponta que os soldados israelenses não garantiram a proteção especial às equipes médicas durante a ofensiva. O texto indica ainda que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 16 membros de equipes médicas foram mortos durante os 22 dias da ofensiva e outros 25 ficaram feridos durante o trabalho.
O relatório aponta ainda que Israel atacou 34 centros médicos em Gaza, incluindo oito hospitais, uma grave violação das leis internacionais de guerra. A ONG levanta ainda dúvidas sobre o respeito dos soldados israelenses ao código ético e aos valores humanitários básicos ao impedir ainda a retirada de civis feridos, cerca de 5.000 durante a operação.
"Os incidentes revelam não apenas que os militares não retiraram os feridos e suas famílias, mas também proibiram que as equipes médicas palestinas chegassem aos feridos", diz o relatório, citado em outra reportagem do jornal "Haaretz".
O jornal israelense lembra que membros de equipes de resgate da Cruz Vermelha Palestina foram atacados várias vezes durante a ofensiva. A falta de segurança para os trabalhadores humanitários tornou, em alguns casos, impossível a retirada dos feridos e mortos.
"Um número desconhecido de palestinos morreu por ter sangrado durante dias, sem tratamento médico, à espera de socorro, enquanto as pessoas não ousavam sair de suas casas. O documento encontrado na casa palestina fornece uma prova escrita de que os comandantes do Exército israelense ordenaram a seus soldados tropas que atirassem nas equipes de resgate", critica a reportagem.
Prova
Segundo o jornal, o papel com a instrução foi encontrado por um pesquisador do Centro Palestino dos Direitos Humanos, na casa da família de Sami Dardone, em Jabal al Rayes, a leste de Jabalya. A numerosa família de Dardone morava em cerca de 40 casas deste bairro. Algumas delas foram tomadas pelas tropas do Exército para servirem de abrigo, local de posicionamento de atiradores de elite ou para tiroteios em geral.
Uma fonte militar disse ao Haaretz que "o comunicado não é um documento oficial assinado por um comandante e o Exército não pode comentar fragmentos de sentenças que foram escritas em um pedaço de papel". A fonte pede ainda que o texto não seja interpretada como diretivas ordenadas por comandantes.
A data no papel indica o dia 16 de janeiro de 2008, o que o jornal diz ser "claramente um erro porque deveria indicar um ano depois". "[O papel] discute eventos políticos e militares que ocorrem em meados de janeiro de 2009. é possível concluir que o autor está discutindo a possibilidade de um cessar-fogo, que estava sendo discutido por oficiais israelenses na época", diz o "Haaretz".
"As próximas 24 horas são importantes, há uma chance de que eles Hamas não aceitarão o acordo", diz o texto. Segundo o jornal, o comunicado menciona ainda o ministro de Interior --uma referência provável ao ministro de Interior do Hamas, Said al Sayam, morto em 15 de janeiro deste ano em um ataque a sua casa.
Massacre
O comunicado é a terceira parte de uma série de reportagens chocantes sobre relatos de soldados israelenses sobre o conflito em Gaza.
Na semana passada, o jornal publicou relato de um comandante das Forças de Defesa que denunciou que rabinos do Exército disseram às tropas que lutavam na ofensiva militar que o confronto era uma "guerra religiosa" contra os pagãos.
"A mensagem deles era bem clara: nós somos judeus, nós viemos para esta terra por um milagre, Deus nos trouxe de volta a esta terra, e agora nós precisamos lutar para expulsar os pagãos que estão interferindo na conquista da terra santa", disse o comandante, citado pelo jornal.
O relato de Ram, um pseudônimo para proteger a identidade do militar, vazou de um encontro no dia 13 de fevereiro entre membros das Forças Armadas, estudantes do curso preparatório de soldados de Yitzhak Rabin, que compartilharam suas experiências em Gaza.
Alguns veteranos, formados na academia militar, falaram sobre o assassinato de civis inocentes e de suas impressões de desprezo profundo aos palestinos dentro das forças israelenses. "A atmosfera em geral, não sei como descrever. As vidas de palestinos, digamos que são menos importantes que as de nossos soldados", diz um dos trechos da declaração de um chefe de pelotão que atuou em Gaza, ao justificar a morte de uma palestina e seus dois filhos, mortos por um atirador de elite israelense.
O diretor da instituição, Danny Zamir, confirmou ao jornal israelense que os relatos são autênticos.
Soldado israelense denuncia que rabinos incitaram "guerra religiosa" em Gaza
Um comandante das Forças de Defesa israelense denunciou que rabinos do Exército disseram às tropas que lutavam na recente ofensiva militar contra alvos do movimento islâmico radical Hamas, na faixa de Gaza, que eles estavam lutando uma "guerra religiosa" contra os pagãos. O relato foi publicado nesta sexta-feira pelo jornal israelense "Hareetz", como continuação aos relatos divulgados nesta quinta-feira (19) sobre o vandalismo e assassinato de civis inocentes durante a ofensiva.
Segundo Ram, um sargento religioso de sua unidade "reuniu todo o pelotão e conduziu uma oração para aqueles que estavam indo para a batalha". "E também quando nós estávamos na operação, eles nos enviavam aqueles livrinhos repletos de salmos, uma tonelada deles. Imagino que poderíamos ter enchido um quarto da casa em que eu fiquei por uma semana com os salmos que eles mandavam."
O comandante afirmou ainda, segundo o "Haaretz", que havia uma "enorme diferença entre o que a unidade de educação militar enviava e o que os rabinos da IDF enviavam".
A corporação distribuía panfletos sobre a história da luta de Israel em Gaza desde 1948 até agora, segundo ele. Mas as mensagens que os rabinos passavam a muitos soldados eram no sentido de que "esta operação é uma guerra religiosa".
O rabinato da IDF oferecia ainda diversos serviços religiosos aos soldados, como supervisionar a preparação de comida kosher, segundo os preceitos do judaísmo, providenciar livros de oração, sessões de oração e aconselhamento religioso para qualquer soldado que quisesse participar. O envolvimento, contudo, não era obrigatório.
Crítica
Os testemunhos dos militares contradizem declaração oficial do Exército israelense sobre o rígido comportamento moral de suas forças durante a operação e confirmam em parte as acusações de organizações internacionais de direitos humanos que criticaram o excesso de violência na operação.
As Forças de Defesa de Israel pediram uma investigação sobre os relatos do grupo de soldados. O advogado militar, general Avichai Mendelblit, instruiu a Unidade de Investigação da Polícia Militar a iniciar uma investigação sobre os relatos de soldados de uma academia de cadetes sobre o assassinato de civis palestinos desarmados, vandalismo e a falta de regras e ética na condução da ofensiva israelense.
Segundo Zamir, o escritório da chefia das Forças de Defesa pediu a transcrição dos relatos dos soldados e uma reunião foi marcada para esta semana para debater o tema. "Eles não pretendem evitar a responsabilidade", disse, nesta quinta-feira (19).
O ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak, respondeu as declarações publicadas pelo jornal dizendo estar confiante de que as Forças de Defesa lidarão com o tema "com toda a seriedade". "Nós temos o Exército mais moral do mundo", disse Barak, à Radio Israel.
"Eu passei dezenas de anos em uniforme. eu sei o que aconteceu na Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e eu digo a você que ao chefe das Forças de Defesa ao último soldado, o Exército mais moral do mundo está pronto para receber ordens do governo de Israel. Eu não tenho dúvidas de que cada incidente será analisada individualmente", completou.
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