
Funes (esq.) agradece acompanhamento de Lula durante a campanha e sinaliza aproximação nas relações bilaterais
O presidente recém-eleito de El Salvador, o esquerdista Mauricio Funes, prometeu nesta sexta-feira combater a sonegação de impostos e fortalecer as políticas sociais no país após encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no escritório da Presidência brasileira em São Paulo.
No encontro, em que agradeceu o que chamou de "acompanhamento" feito pelo governo brasileiro da campanha presidencial salvadorenha, Funes, eleito no domingo (15), tentou aproximar-se da imagem do presidente brasileiro, a quem classificou de um modelo para a esquerda democrática. Ele também desmentiu declarações de um deputado do seu partido de que o novo governo buscaria a renegociação da dívida externa de El Salvador.
"Para mim o presidente Lula e seu governo constituem uma referência de um exercício democrático de um governo de esquerda que pode mandar sinais de confiança aos investidores estrangeiros e também aos investidores nacionais", afirmou Funes. "O governo do presidente Lula demonstrou que se pode fazer um governo de esquerda com estabilidade macroeconômica, com governabilidade democrática."
Durante a campanha, o candidato conservador Rodrigo Ávila, da corrente política que governa El Salvador desde a redemocratização, no início dos anos 90, tentou vender, segundo Funes, a ideia de que a eleição de um candidato pertencente à Frente Farabundo Martí para a Liberação Nacional (FMLN), uma ex-guerrilha que participou da guerra civil dos anos 80, seria um "salto no vazio" e que governaria sob a influência do presidente Venezuelano, Hugo Chávez. Funes afirmou, no entanto, estar mais próximo do que chamou de "modelo brasileiro".
"Enfrentamos uma campanha de desprestígio em que se levantaram temores como se levantaram aqui no Brasil quando o presidente Lula era candidato", disse Funes. "Tratou-se de generalizar a ideia de que um governo de esquerda não seria um governo amigo dos empresários [...] que eu ia ser o pivô para o presidente Chávez na América Central"
Dívida
Tentando afastar esses temores, o presidente eleito de El Salvador afirmou que as declarações do deputado de seu partido Gerson Martinez sobre a busca pela renegociação da dívida externa de mais de US$ 8 bilhões de El Salvador não refletem a posição do seu futuro governo.
Martinez, que é membro FMLN e participou da campanha de Funes, ganhou destaque na imprensa salvadorenha nesta sexta-feira com suas afirmações de que o próximo governo buscaria estender os prazos de pagamento da dívida e rever as taxas de juros dos contratos.
"Esse foi um lapso cometido por um deputado da FNML que não é membro do gabinete e tampouco será, e portanto não representa a posição deste servidor como presidente eleito", disse Funes. "Eu quero reafirmar aos organismos multilaterais que a dívida será paga, [...] com os prazos e juros que foram negociados. Vou cumprir todos os compromissos adquiridos por governos anteriores"
EUA
Funes, que recebeu um telefonema do presidente Barack Obama na segunda-feira, tentou mostrar-se alinhado com o governo dos Estados Unidos, país em que vive um terço dos salvadorenhos.
Os governistas afirmaram durante a campanha que a vitória de Funes poderia colocar em risco a relação com os EUA, com possíveis reflexos sobre privilégios de imigração aos salvadorenhos e sobre as remessas anuais de US$ 3,5 bilhões dos emigrantes para os familiares em El Salvador, a maior fonte de recursos externos do país, equivalente a 18% do Produto Interno Bruto.
"Seria um suicídio para o meu governo e para o povo salvadorenho se eu não buscasse construir relações muito mais estreitas com o governo dos Estados Unidos", disse Funes, que afirmou ter recebido nesta sexta-feira um telefonema da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, em que ela teria manifestado interesse em trabalhar com seu governo.
Segundo ele, essas manifestações "encerram o capítulo" das ameaças de rompimento de relações que a direita levantou, com o apoio de alguns congressistas republicanos nos EUA.
Prioridades
Ao mesmo tempo, disse Funes, seu governo vai trabalhar para estimular o desenvolvimento econômico do país, para que a criação de empregos não torne necessária a emigração rumo aos EUA.
Ao lado do desenvolvimento, a prioridade apresentada pelo próximo presidente salvadorenho é o combate à pobreza, assunto que segundo ele o aproxima do governo brasileiro. Ele disse ter visitado o presidente Lula três vezes antes da eleição, para conhecer projetos sociais.
"Há ideias que estão contidas no meu programa de governo que foram tomadas das ações concretas que o presidente Lula fez, tanto no primeiro quanto no segundo mandato especialmente na área social", disse Funes, que lembrou compartilhar com o Lula também o marqueteiro de sua campanha, o brasileiro João Santana, que trabalhou na reeleição do presidente brasileiro.
Ele disse que pretende ampliar um programa semelhante ao antigo Bolsa Escola, que concede uma ajuda em dinheiro para famílias de alunos pobres matriculados na rede pública. O programa já existe no país, mas está restrito à área rural.
O dinheiro para financiar os programas sociais virá, segundo Funes, do combate à sonegação de impostos, que segundo ele é de 38% no imposto de renda e de 40% no Imposto sobre Valor Agregado (IVA), cobrado sobre produtos e serviços. Ele minimizou a queda de 12% na arrecadação em janeiro deste ano, em relação a janeiro de 2008, dizendo que ela derivou da instabilidade política criada pela eleição e afirmou que pode buscar financiamento externo para os programas --o que ele chamou de um "endividamento responsável".
Uma aliança na área da produção de etanol também foi discutida com Lula, disse Funes, informando que planeja destinar parte da produção de cana-de-açúcar de seu país para a fabricação de álcool combustível, visando a diminuir a dependência de El Salvador em relação à importação de petróleo e a permitir futuras receitas de exportação do produto para os EUA.
Outro programa social que pretende implantar, baseado na experiência brasileira é o Cidade Mulher, com assistência de saúde, jurídica e trabalhista a mulheres, que deve ser coordenado pela futura primeira-dama, a brasileira Vanda Pignato.
Licenciada do cargo de representante do Partido dos Trabalhadores na América Central, Pignato afirmou que vai deixar oficialmente a função partidária antes que Funes assuma a Presidência.
A visita ao presidente brasileiro foi feita em caráter não oficial, disse o futuro presidente salvadorenho. Ele e a mulher vieram ao Brasil buscar seu filho de um ano e meio, que tinha ficado com a família da mãe no último mês e meio de campanha.
O presidente Lula não falou à imprensa após o encontro.
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