Hugo Chávez anuncia 'mudanças profundas' na Venezuela

Em primeiro ato público após promulgação de reeleição ilimitada, presidente promete avançar com 'revolução'


Chávez discursa em Coro, Venezuela/efe

CARACAS - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse nesta sexta-feira, 20, que sua "revolução bolivariana" e socialista coloca "mudanças profundas" na estrutura do país, e que descarta qualquer tipo de pacto com a oligarquia, como chama à oposição tradicional. "Não chegamos aqui para fazer umas pequenas reformas, mas para transformar a fundo as estruturas políticas, econômicas e sociais", assegurou o líder em um ato militar na região ocidental de Falcon, transmitido em cadeia obrigatória de rádio e televisão.

Este é o primeiro ato público de Chávez após a promulgação ontem da emenda constitucional para a reeleição ilimitada, aprovada em referendo no domingo passado, e que o habilitou a concorrer à reeleição para a Presidência em 2012.

Vestido de verde oliva, o presidente reivindicou a propriedade social da terra, da indústria e dos meios de produção já que, segundo sua opinião, o socialismo não pode ser apenas um sonho, mas deve se concretizar "ter corpo, músculos, esqueleto, carne, vida."

Além disso, negou qualquer tipo de pacto com a oposição "apátrida", à qual se referiu como "a oligarquia derrotada", quando os venezuelanos aprovaram em referendo a emenda para a reeleição ilimitada, o que permitirá a Chávez optar novamente à Presidência dentro de quatro anos, período 2013-2019.

"Eu não cheguei aqui para trair este povo e fazer pactos infames com a oligarquia, mas para cumprir um pacto com o povo ou morrer na batalha", concluiu o presidente venezuelano.

Vitória em referendo pode impulsionar socialismo de Chávez


Chávez discursa em Caracas após vitória/Reuters

SÃO PAULO - Com a mudança constitucional venezuelana aprovada em referendo, as atenções voltam-se agora para os próximos passos do presidente Hugo Chávez. Luis Fernando Ayerbe, professor de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp), aponta que a vitória da emenda que retira os limites de reeleição para cargos públicos "dá força política" ao chefe de Estado, mas alerta que ele pode interpretar o trunfo como sinal verde para colocar em prática políticas mais amplas do chamado socialismo do século XXI, proposto por sua "revolução bolivariana". "Essa agenda implica em uma série de mudanças estruturais no país, e certamente teria um peso muito grande se implantada", comenta o analista.

Ayerbe explica que o novo socialismo de Chávez, apesar de não muito claro, pode ter grande repercussão. Ele destaca possíveis conflitos em "como lidar com a propriedade privada, com o capital estrangeiro e com a estrutura partidária". "Na Venezuela, a crise financeira está afetando fortemente o país, mais do que no Brasil ou na Argentina, pela forte dependência do petróleo. Nesse momento de crise, a vitória de Chávez no plebiscito é algo que lhe dá fôlego", afirma.

De acordo com os números oficiais, votaram no domingo pelo "sim" 6.000.594 eleitores, ou 54,36%. O "não" obteve 45,63%, o que corresponde a 5.040.082 votos. Foram considerados nulos 199.041 votos, ou cerca de 2%. A abstenção foi de 32,95%, considerada baixa para os padrões da Venezuela. Após a divulgação dos primeiros resultados, Chávez anunciou que estava começando "o terceiro ciclo da revolução, entre 2009 e 2019."

O triunfo do chefe de Estado, porém, não foi arrasador. "A oposição tirou uma boa porcentagem de votos", avalia o professor. "O resultado mostra que a oposição tem o respaldo de cerca de 40% dos eleitores. O caminho para esses opositores agora é buscar maior apoio e se colocar como opção ao presidente, que já deixou claro sua perspectiva", continua. "A reeleição ilimitada, apesar de legal e presente em alguns países, sinaliza que Chávez pretende se perpetuar no poder."

Apesar das denúncias de intimidação dos opositores, que argumentavam que a medida já havia sido rechaçada em plebiscito em 2007 e não deveria ser votada novamente, Ayerbe não acredita em indícios de fraude. "Foi uma eleição com a vistoria de vários organismos internacionais e independentes. Não houve por parte deles nenhum relatos de fraude ou problemas", acrescenta.

2012

Segundo o professor, na próxima eleição presidencial, que ocorrerá em 2012, o desafio de Chávez é grande. "A situação agora é totalmente diferente dos últimos anos. Ele terá que administrar uma crise", comenta. "Num contexto de queda do preço do petróleo e nas receitas do governo, o desafio de Chávez será mostrar que, em tempos difíceis, a revolução bolivariana e seu projeto têm condições de manter a melhora na vida dos setores populares."

Para ele, a oposição também terá que se estabilizar como uma alternativa clara ao chavismo. "Precisamos observar de que maneira a oposição irá se legitimar como opção em uma crise para o setor popular, a grande base de apoio de Chávez", conclui.

Cenário na Venezuela após a vitória de Chávez no referendo

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, venceu no domingo, 15, com uma cômoda vantagem, um referendo que lhe permite governar enquanto continuar ganhado eleições. O resultado deve estimular Chávez a aprofundar suas reformas socialistas, embora a atual crise econômica desafie os alicerces da sua "revolução". No cargo há dez anos, Chávez diz precisar de pelo menos outros dez para implantar o que chama de "socialismo do século 21". Caso a emenda constitucional não tivesse sido aprovada, ele deveria deixar o cargo em 2013, sem ter um seguidor com condições políticas de manter seu legado.

No entanto, a queda do rendimento nacional (devido à desvalorização do petróleo) e a inflação galopante ameaçam diluir os benefícios dos programas sociais chavistas, que são a base da popularidade do presidente. Veja um ponto a ponto das consequências para o país com a vitória de Chávez no referendo:

POLÍTICA INTERNA

Chávez deve recuperar e inclusive aumentar sua popularidade, parcialmente desgastada durante a campanha eleitoral por causa da retórica agressiva usada nos palanques. Dessa forma, nos próximos meses deve ter margem de manobra para adotar medidas eventualmente impopulares. Inicialmente, ele deve mostrar um tom conciliador com os adversários, mas o confronto permanecerá latente, voltando a eclodir no fim do ano, quando começará a mobilização para a eleição parlamentar de 2010.

O resultado devolve ao ex-militar a sensação de invulnerabilidade eleitoral que ele havia perdido em 2007, quando os venezuelanos rejeitaram uma ampla reforma constitucional que dava mais poderes a Chávez, inclusive eliminando os limites à reeleição do presidente. Até então, Chávez nunca perdera uma eleição. A fragmentada oposição, que obtivera alguns avanços nas eleições regionais de 2008, recebe agora um duro golpe político e terá de se reorganizar para ganhar espaços na Assembleia Nacional, dominada pelo governismo.

ECONOMIA

A queda nos preços do petróleo põe em xeque alguns planos socialistas de Chávez, que depois da sua esmagadora reeleição de 2006 iniciou uma ambiciosa campanha de nacionalizações de amplos setores da economia, pela qual ainda tem de indenizar algumas multinacionais que tiveram bens estatizados. Alguns analistas acham que o governo ainda poderia intervir em outros setores estratégicos, como alimentação, saúde e financeiro, buscando um maior controle estatal para reduzir os efeitos da crise sobre a população.

Chávez prometeu não reduzir os milionários investimentos sociais, e descarta uma desvalorização do bolívar ou novos impostos. Dessa forma, deve usar até o limite as reservas internacionais de divisas e diversos fundos, à espera de uma recuperação no preço do petróleo. Analistas acreditam, no entanto, que ele se verá obrigado a desvalorizar o bolívar, sobre o qual há câmbio fixo.

Embora limitado pela difícil situação econômica, o líder esquerdista continuará impulsionando a economia estatal, social e comunitária, em detrimento do setor privado, com movimentos como mais entrega de terras e empresas locais a grupos comunitários organizados. Chávez deve também continuar destinando recursos a organizações comunitárias de base, que dependem diretamente do poder central, e não das administrações locais, algumas das quais nas mãos da oposição, para construir a economia socialista.

POLÍTICA EXTERNA

Relegitimado nas urnas, Chávez manterá o compasso de espera frente ao novo presidente dos EUA, Barack Obama, embora mantenha o discurso "anti-imperialista" e as críticas ao capitalismo norte-americano. Chávez continuará sendo uma referência para os governos esquerdistas da América Latina, dando um passo além dos aliados governos de Equador e Bolívia, que recentemente aprovaram novas Constituições de teor socialista, mas com limitações à reeleição dos seus presidentes.

A vitória no referendo permitirá a Chávez também relançar sua política externa, que teve de deixar de lado diante da apertada agenda doméstica. Assim, Caracas deve continuar aprofundando suas alianças com governos hostis a Washington, como Cuba, Irã e Rússia.

Nota do Editor

Lá vem a ditadura comunista e bem em nossas fronteiras. Logo, estaremos cercados de ditaduras comunistas. Está na hora de reagirmos a isso.

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