Deportada da Espanha, brasileira viveu 17 dias em aeroporto da BA

Deportada da Espanha, sem dinheiro para comprar uma passagem e com poucas peças de roupa dentro de um saco de lixo, a dona-de-casa Cássia Oliveira Duarte, 32, morou por 18 dias no Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães, em Salvador (BA).

Nesta terça-feira à tarde, comovidos com o drama da mulher, funcionários do aeroporto fizeram uma "vaquinha" e compraram uma passagem para ela até Goiânia. De lá, seguirá amanhã de ônibus para sua cidade --Palmeirópolis (458 km de Palmas)-- com o custo também arcado pelos "amigos".

Duarte disse que deixou a cidade natal há quase três anos para trabalhar como empregada doméstica em Madri. "Uma amiga me disse que a Espanha era um país bom para ganhar dinheiro e arrumou toda a minha documentação", contou. "Comecei a trabalhar logo que cheguei à Espanha e, todos os meses, mandava 100 euros para minha família."

Separada, mãe de dois filhos, ela disse que no começo deste ano o setor de imigração descobriu que ela estava clandestinamente na Espanha. "Não tive tempo para nada. Eles me disseram que eu tinha de deixar o país imediatamente. Assim, fui deportada para Salvador, cidade que não conhecia." Ela desembarcou na cidade no dia 16.

Segundo o chefe da Polícia Federal no aeroporto, Francisco Miguel Gonçalves, pela lei de imigração o país que deporta não tem, necessariamente, a obrigação de encaminhar a pessoa para a sua cidade natal. "O único compromisso é mandar para o país de origem."

Por meio de sua assessoria, a Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária) informou que a dona-de-casa não foi "despejada" do aeroporto porque não representou perigo para os frequentadores. Além disso, segundo a Infraero, ela ficou em uma área pública, sem causar nenhum transtorno.

Durante o tempo em que permaneceu no aeroporto, a dona-de-casa sobreviveu basicamente da solidariedade dos funcionários. "Eles pagavam lanches para mim e deixaram usar um banheiro com chuveiro." Para dormir, usou sempre o terceiro piso do aeroporto, com vista panorâmica para as pistas, onde existe apenas uma pequena lanchonete. "Usava as poucas roupas que trouxe como travesseiro e o saco de lixo servia para forrar o chão."

Para "passar o tempo", durante a maior parte do dia caminhava pelas dependências do aeroporto, empurrando um carrinho de bagagem. "Como não tinha nada para fazer, ficava olhando as vitrines das lojas, os aviões subindo e descendo, as pessoas indo para casa e sonhando com a minha vez."

Segundo Duarte, quase toda a sua bagagem ficou na Espanha. "Tudo ficou na casa onde trabalhava, não deu tempo de pegar nada."

Ela disse que telefonou todos os dias a cobrar para parentes em Palmeirópolis. "Minha família me tranquilizou muito. Tinha dias que estava desesperada, mas, depois do telefonema, voltava a ficar calma." Além da passagem, Duarte ganhou R$ 35 dos funcionários. "Vou usar o dinheiro para comer alguma coisa na estrada."

A história dava um filme

A situação que viveu Duarte lembrou o filme "O Terminal" (2004), protagonizado por Tom Hanks. No filme, um viajante europeu é obrigado a passar meses em um aeroporto por não conseguir visto de entrada nos Estados Unidos nem autorização para voltar a seu país.

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