Cão pode ficar em praça com castração e identidade, diz secretaria

Cachorro mora há 9 anos no bairro e prefeitura ameaçou tirá-lo. União Protetora dos Animais assumiu compromisso pelo vira-lata.


Bob brinca em ponto de taxi em Campinas (Foto: Patrícia Araújo)

A Secretaria de Saúde de Campinas, a 93 km de São Paulo, confirmou na noite desta quinta-feira (5) que o cão que vive em uma praça do município há nove anos pode permanecer no local caso seja castrado e identificado. Ainda segundo a secretaria, a União Protetora dos Animais (UPA) assumiu o compromisso pelas duas medidas.

Em nota, a prefeitura informa que uma lei estadual do ano passado estabelece que "o animal reconhecido como comunitário será recolhido para fins de esterilização, registro e devolução à comunidade de origem, após a identificação e assinatura de termo de compromisso de seu cuidador principal". Com base na lei, o animal poderá continuar onde mora.

Bob, como foi batizado, vive em uma praça no bairro do Cambuí e recebe cuidados de taxistas do Ponto Santa Cruz. O cão virou o assunto da cidade depois que a prefeitura informou aos taxistas que o animal teria que deixar o local. Na segunda-feira (2), a Secretaria Municipal de Saúde aplicou um auto de infração contra os taxistas por manterem o cachorro solto na praça “causando risco de agressão aos frequentadores do local”, segundo denúncias.

No mesmo documento, a secretaria dava 72 horas para que o cachorro fosse tirado da praça, prazo esse que terminava às 14h desta quinta. Mas, no horário limite, a secretaria informou que não ia mais retirá-lo. As medidas punitivas acabaram suspensas.

Identificação e castração

De acordo com a UPA, que entrou com o pedido de adoção, Bob deve ser castrado na segunda-feira (9) e receber um tipo de RG. “Está marcado para as 8h30 da segunda (a castração). Ele vai fazer a operação e volta para a praça no mesmo dia”, disse o presidente da UPA, o vereador Vicente Carvalho da Silva (PV).

Além da operação, o cachorro será cadastrado no banco de dados da ONG. “Serão impressas duas letras de identificação na barriga dele e ele vai receber uma coleira com nome e telefone em uma placa. Nos nossos arquivos teremos uma foto digitalizada e todos os dados deles e do proprietário, no caso, os taxistas. Agora, ele vai ficar monitorado.”

Sem agressão

“Como ele já está aqui há nove anos, tomou posse do pedaço. O lar dele é aqui. Ele chegou com 6 meses de idade", conta o taxista Antonio José dos Reis, que há 16 anos trabalha no ponto. "Às vezes ele está aqui sentado quietinho, alguém vê e vem pegar nele. Ele se assusta, late. Mas ele nunca mordeu ninguém que eu tenha visto”, disse o taxista.

O taxista Antonio José dos Reis brinca com o cachorro Bob ao lado da designer de interiores Maria Aparecida de Toledo. (Foto: Patrícia Araújo)

Colega de Antonio e há 30 anos trabalhando no Ponto Santa Cruz, o taxista Cassiano Arruda endossava a afirmação do amigo. “O Bob veio parar aqui há muito tempo. Ele chegou acompanhando um carrinho de reciclagem. Era um filhote ainda. Chegou com as patas todas feridas e nós cuidamos dele", disse. "Ele foi ficando. As pessoas passavam, viam e traziam comida. Hoje ele tem um fã-clube de cerca de cem pessoas que vêm aqui na praça só por causa dele. Trazem cobertor, biscoitinho, levam para o pet shop. Todo mundo ama ele”, contou.

Para demonstrar que desejam a permanência do animal na praça, os taxistas fizeram até um abaixo-assinado. Por volta das 14h30, mais de 80 assinaturas de moradores da região foram coletadas. Uma delas era da designer de interiores Maria Aparecida Toledo, que mora a uma quadra da praça. “A presença do Bob aqui anima as pessoas. Nesses dois últimos dias ele estava meio sumido. Acho que por causa dos rumores da saída dele. A gente sentiu falta. Mas hoje ele está aqui de volta, correndo e pegando a bolinha. Ele é o mascote dessa praça.”

Mordidas

Mas como todo pop star nunca é unanimidade, com Bob não é diferente. No meio de tantas pessoas bajulando o bichinho nesta tarde, um homem foi ao local para protestar. “Já levei mordida dele. Esse cachorro não gosta de gente negra nem de morador de rua. Já fiz curativo na mão de várias pessoas que foram mordidas por ele”, afirmava o homem que se identificou como comerciante da região, mas não quis dizer o nome. “Já me disseram que se eu viessa falar mal dele (Bob), ia sofrer represália”, comentou.


Bob deveria ser retirado do ponto de táxi onde costuma ficar porque moradores reclamam que ele oferece risco à comunidade (Foto: Edu Fortes/ AAN)

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