Brasileira ferida fica impedida de deixar Suíça

A Promotoria de Zurique decidiu abrir uma investigação penal contra a brasileira Paula Oliveira, 26, por suspeita de ter inventado história de que foi vítima de uma agressão racista.


Paula Oliveira

A Promotoria indicou, em comunicado, que o Tribunal de Zurique já atribuiu um advogado à defesa da brasileira. Oliveira não poderá deixar o país durante a investigação e seus documentos e passaporte já foram bloqueados --o que, segundo a Procuradoria, é uma medida para garantir que Oliveira esteja presente durante toda a investigação criminal.

O Ministério Público afirmou, contudo, que a denúncia do ataque apresentada por Oliveira também será investigada.


A brasileira Paula Oliveira, 26, diz ter sido atacada por neonazistas nos arredores de Zurique, Suíça; polícia fala em automutilação

Oliveira recebeu alta na noite desta terça-feira (17) da clínica de Zurique, Suíça, onde se recuperava desde no último dia 9 dos ferimentos causados, segundo ela, por uma agressão de neonazistas. Segundo o pai da moça, Paulo Oliveira, sua filha já sabe que a polícia suíça desmentiu a versão de que estava grávida no dia em que o ataque teria ocorrido e suspeita que ela tenha provocado os ferimentos que atribui a três neonazistas. As conclusões da polícia a deixaram "indignada", contou o pai.

Segundo o relato da jovem, três skinheads a atacaram na saída de uma estação de metrô. Eles teriam marcado em seu corpo a sigla SVP --iniciais em alemão do partido ultradireitista suíço-- com um objeto cortante. Ainda segundo Paula, ela teria sofrido aborto de gêmeas num banheiro da estação.

Contudo, após uma série de testes, a polícia afirmou que Oliveira não estava grávida como afirmava. O chefe de medicina forense da Universidade de Zurique, Walter Baer, afirmou que este era um caso "típico" de automutilação.

Todas as feridas, segundo os peritos, foram feitas em locais que a própria brasileira alcançaria e nenhuma delas foi mais profunda em áreas sensíveis do corpo.

Alta médica

Ontem, Paula deixou o hospital pela saída dos fundos para evitar dar entrevistas aos jornalistas que a aguardavam em frente ao centro médico. "É um alívio para mim e um problema a menos", disse o pai da brasileira, Paulo Oliveira, ao deixar o local.

Entretanto, ao sair da clínica, ele se recusou a responder as perguntas a respeito das versões contraditórias sobre o caso.

Enquanto o pai despistava a imprensa, Paula já tinha voltado de táxi ao apartamento que divide com o namorado, em Dübendorf, localizado a 3 km de Zurique. Paulo disse que ainda não sabe quando ela voltará ao Brasil, aonde pretende levar a filha para passar um período de descanso.

"Os planos agora são deixar o tempo sarar as feridas", disse o advogado pernambucano, descartando que a filha volte nesta semana para Recife, como havia planejado antes do incidente. "Todo mundo tem o plano de voltar, mas não agora", disse. "Até porque, no Brasil, é tempo de Carnaval."

Mídia suíça diz que Paula Oliveira confessou farsa

Telejornal da noite na emissora Tele Zurich informou nesta quarta-feira, 18, que a advogada brasileira Paula Oliveira já teria confessado à polícia que inventou o caso da agressão por neonazistas. A informação foi dada também pelo jornal Weltwoche. Citando fontes da polícia, os dois veículos informam que a advogada teria confessado inclusive ser autora dos ferimentos na própria pele.

Paula teria informado que comprou o estilete numa loja chamada Ikea. Os motivos pelos quais a brasileira teria inventado o ataque não foram revelados pela mídia suíça. Nesta quarta-feira, o Ministério Público de Zurique abriu uma investigação criminal contra Paula Oliveira, por suspeita de falso testemunho à polícia. Ela alega ter perdido bebês após ter sido agredida por neonazistas na semana passada.

Itamaraty mantém apoio

O Itamaraty disse não ter recebido nenhuma informação de que Paula teria inventado o ataque, mas ressaltou que manterá o apoio consular a brasileira ainda que a versão da imprensa suíça seja confirmada. Mais cedo, o chanceler Celso Amorim reafirmou que se necessário o País dará assistência jurídica à advogada.

Segundo o Ministério Público suíço, a investigação aberta nesta quarta-feira ocorre por Paula ter alegado estar grávida, quando exames provaram o contrário. A Justiça vai intimar Paula para que preste depoimento e após ouví-la deverá liberá-la para que retorne ao Brasil. De acordo com a Procuradoria-Geral de Zurique, um advogado já foi indicado para defender Paula e ela aceitou a oferta.

Os promotores querem manter Paula na Suíça, para garantir a presença dela durante a investigação criminal. O passaporte dela e seus documentos legais estão bloqueados. "Esta medida garante que a mulher permaneça na Suíça o tempo que sua presença for necessária para o inquérito e todas as providências da investigação tiverem sido tomadas", afirma o comunicado.

Na terça, a advogada recebeu alta do hospital e voltou para casa. Ela deixou o hospital pela porta dos fundos. Paula afirmou ter sido atacada no último dia 9, nas proximidades de uma estação de trem de Zurique por três skinheads, um deles com um símbolo nazista tatuado atrás da cabeça.

Segundo essa versão, os agressores usaram um objeto cortante para marcar as siglas do Partido do Povo da Suíça (SVP), de direita, integrante da coalizão governista. Além disso, imagens revelaram vários outros cortes em Paula.

Brasileiros que moram na Suíça temem efeitos da repercussão do caso Paula Oliveira

Um clima de mal-estar cerca os brasileiros que vivem na Suíça. Depois da reviravolta provocada pelos exames da polícia que questionam a versão contada pela pernambucana Paula Oliveira, a sensação geral mistura perplexidade, constrangimento e temor de que a imagem do país fique arranhada.

Poucos lembram a última vez em que uma história envolvendo o Brasil teve tanto destaque. Nos primeiros dias, a cobertura foi modesta. Só ganhou as manchetes pela repercussão no Brasil, que incluiu comentários do presidente Lula.

Para Irene Zwetsch, porta-voz do Conselho Brasileiro na Suíça, seja qual for o desfecho, o caso Paula "ficará marcado" por muitos anos. Ela diz ter recebido reações "de A a Z", desde as de constrangimento até as de desconfiança em relação às conclusões da polícia.

Para ela, que mora há 11 anos em Berna com o marido e os dois filhos, o destaque e o julgamento precipitado da imprensa no Brasil sobre o caso refletem diferenças culturais e de temperamento. "A imprensa no Brasil é impulsiva, emotiva", diz Irene, que trabalha como tradutora. "Na Suíça eles são mais cautelosos, até por medo de processos".

A imprensa suíça tem se referido à brasileira como Paula O., e distorcido o seu rosto nas fotos que publica. Com a mudança no curso das investigações, a mídia e o governo brasileiros viraram alvo de duras críticas.
"Como a imprensa brasileira tirou conclusões antes de saber o outro lado?", questionou o repórter Thomas Möckli, do jornal "Der Lanbote". "A credibilidade dela ficou abalada com o exame da polícia, e a da imprensa brasileira também".

Agora, muitos brasileiros que vivem na Suíça temem sofrer as consequências. "Claro que há racismo aqui", diz uma cearense que, com o namorado, comprava flores no aeroporto de Zurique. Em situação ilegal, não divulgaram o nome. "Isso só vai piorar o preconceito".

Nilce Cunha, do Centro Brasileiro de Ação Cultural (Cebrac), em Zurique, conta que, após o choque inicial e a solidariedade dos brasileiros a Paula, todos estão confusos. "O momento é de dúvida", diz ela, que conheceu Paula do Cebrac, e a descreve como "uma pessoa normal". "Podia ser sua irmã, ou sua vizinha".

Não há dados oficiais sobre o total de brasileiros na Suíça. A embaixada calcula em 60 mil, dois terços em situação ilegal.

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