
População aguarda durante a madrugada de temperaturas negativas para a posse de Obama. Foto: AP
WASHINGTON - Barack Obama entra para a história nesta terça-feira, 20, ao tornar-se o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, trazendo uma mensagem de esperança para uma nação atingida pela recessão, incomodada pela guerra e faminta por mudanças depois de ter George W. Bush por oito anos na Casa Branca. Com um feriado nacional em honra ao líder de direitos civis assassinado Martin Luther King Jr. um dia antes da posse, a perturbadora história racial dos Estados Unidos esteve em evidência.
A posse de Obama representa um marco antes impensável numa nação que lutou com questões raciais desde sua fundação e onde a segregação era praticada em muitos Estados do sul do país apenas algumas décadas atrás. A posse será realizada do lado de fora do Capitólio, construído com a ajuda de escravos. Obama fará seu juramento com a mesma bíblia usada na posse de Abraham Lincoln em 1861, cuja Proclamação de Emancipação pôs fim à escravidão.
Enfrentando temperaturas geladas e possíveis nevascas, centenas de milhares de pessoas tomaram o rumo da capital do país nesta terça-feira para a primeira alteração na administração desde 2001. Ao redor do mundo, a eleição de Obama excita milhões de pessoas com a expectativa de que os Estados Unidos serão mais receptivo e mais abertos a mudanças.
A cerimônia desta terça-feira culmina a extraordinária ascensão deste democrata de 47 anos, que se muda para o Salão Oval como o quarto presidente mais jovem dos Estados Unidos. Em menos de cinco anos ele deixou de ser o pouco conhecido promotor do Estado de Illinois para a maior cargo do país, convencendo os norte-americanos de que, apesar de sua relativa inexperiência, ele poderia recuperar a economia e pôr fim à guerra no Iraque.
Um talentoso e inspirado orador, Obama elevou as expectativas de milhões que querm uma nova direção para os Estados Unidos. Ele prometeu enfatizar a diplomacia, buscar soluções globais para o aquecimento global, rejeitar a tortura e fechar a prisão na baía de Guantánamo. A presidência de Obama coloca os democratas firmemente no comando em Washington. Eles vão controlar ambas as câmaras do Congresso e a Casa Branca pela primeira vez desde 1994.
Bush deixa Washington como um dos presidentes mais impopulares, o arquiteto de duas guerras inacabadas e o homem que estava no poder quando ocorreu uma calamidade econômica. O nível de aprovação de Bush, que disparou depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, caiu com a forma como tratou a guerra no Iraque, sua resposta lenta ao furacão Katrina e ao declínio econômico.
Pesquisas antes da posse mostram que os norte-americanos acreditam que Obama está no caminho para ter sucesso e expressam confiança de que o novo presidente pode recuperar a economia. Mas Obama já advertiu que as melhorias levarão tempo e que as coisas ficarão piores antes de melhorarem.
No final de quatro dias de celebração, Obama e o vice-presidente eleito Joe Biden devem começar o dia com uma tradicional culto matutino na Igreja Episcopal de St. John, nas proximidades da Casa Branca, e encerrar o dia em dez festas de posse que devem ir noite adentro.
Programação
Como de costume, Obama e sua mulher, Michelle, foram convidados para tomar café com Bush e sua esposa, Laura, antes de todos seguirem, de limusine blindada, até o Capitólio onde haverá a transferência de poder. Na segunda-feira, o vice-presidente Dick Cheney distendeu um músculo das costas, o que o deixará numa cadeira de rodas durante a posse. Antes do meio-dia, Obama entra pela frente do Capitólio para fazer o juramento de 35 palavras, dirigido pelo Chefe da Suprema Corte de Justiça, John Roberts, que vem sendo pronunciado por todos os presidente desde George Washington.
Filho de mãe nascida no Kansas e de pai queniano, Obama decidiu usar seu nome completo, Barack Hussein Obama, na cerimônia de posse. Para horror dos liberais, Obama convidou o pastor evangélico conservador Rick Warren, um oponente dos direitos dos gays, para fazer a oração inaugural. Mais de 10 mil pessoas de todos os 50 Estados, incluindo bandas e unidades militares, devem reunir-se para seguir Obama e Biden no trajeto de 2,4 quilômetros pela avenida Pennsylvania até a Casa Branca.
A posse deve reunir até 2 milhões de pessoas. O esquema de segurança não tem precedentes e as principais ruas e pontes da capital estão fechadas. Mas isso não diminuiu a excitação da atmosfera festiva no National Mall. Havia congestionamentos nos acessos a estacionamentos próximos às estações de metrô, e mesmo às 5h os trens já estavam lotados. Alguns mais entusiasmados acamparam para estarem entre os primeiros a passar pela segurança, onde rapidamente se forma uma aglomeração. Milhares de seguranças foram mobilizados para manter a ordem. Há barricadas em grande parte do centro da cidade, cujas ruas estão fechadas para carros particulares. Num discurso de posse que está sendo preparado há semanas - e que está entre os mais aguardados da história -, Obama deve convocar os norte-americanos para uma era de responsabilidade e união contra as dificuldades.
Até 2 milhões de pessoas são esperadas em Washington
População chega para a cerimônia de posse antes do amanhecer. Foto: AP
WASHINGTON - Multidões se encaminham para a capital dos Estados Unidos nesta terça-feira, 20, complicando o trânsito antes do amanhecer na medida em que pessoas de outras áreas e residentes locais se encaminham para a avenida Pennsylvania e para o National Mall para o juramento do presidente eleito Barack Obama. Por volta das 4h desta terça-feira (horário local, 7h em Brasília), filas se formavam na entrada do sistema de metrô nos subúrbios. Trens extras foram colocados em razão da expectativa de maior demanda.
Os trens estavam lotados, mas as pessoas pareciam estar de bom humor, apesar de ser cedo. O professor de história Calvin Adams, de Arlington, Virgínia, disse ter acordado ainda mais cedo para poder testemunhar a história sendo feita em primeira mão e, dessa forma, contar a seus alunos. O sistema de metrô Metrorail começou a funcionar às 4h (7h em Brasília), uma hora mais cedo do que em dias normais, para levar as pessoas para a cidade. Milhares de ônibus alugados, vindos de todos os pontos do país estão no Distrito de Columbia, lotando estacionamentos e até mesmo ruas, que foram fechadas na segunda-feira para acomodar os visitantes.

Multidão aguarda cerimônia de posse de Obama no National Mall, perto do Capitólio, na cidade de Washington, hoje às 05:20 da manhã, hora local.
Todas as pontes que conectam o Distrito de Columbia e a Virgínia foram fechadas e apenas veículos autorizados, pedestres e ciclistas podem passar por elas. Uma grande parte do centro da cidade de Washington será fechada e em outros setores não será permitido o estacionamento de veículos. As duas estações de metrô nas proximidades do National Mall permanecerão fechadas na maior parte do dia.
Quem quiser pegar um táxi para deixar a cidade pode não conseguir. Alguns taxistas decidiram não trabalhar por causa do fechamento das ruas e porque eles também querem ter a oportunidade de assistir a posse.
Posse faz emergir diversidade racial da "branca" Washington
Bandeira dos EUA com rosto de Obama é vendida nas ruas de Washingtonpor US$ 10
O centro de Washington mudou de cor nos últimos dias. Apelidada de "cidade Oreo" --que, como o biscoito recheado, tem o entorno negro (56% da população total, quase toda na periferia) e o centro ocupado por uma elite branca--, a cidade finalmente reflete nas principais ruas e restaurantes sua diversidade racial.
Na capital, a terceira mais desigual das mais importantes cidades dos EUA, a renda média dos negros é de US$ 43,5 mil anuais, praticamente a mesma de 1980. A dos brancos é de US$ 92 mil, aumento de 68% no mesmo período, segundo o Instituto de Política Fiscal da cidade. Além disso, os negros de Washington têm cinco vezes mais chances do que os brancos de estar desempregados.
Americanos negros, da capital ou de outros Estados, disseram que veem a posse como marco da luta por igualdade racial, de relevância comparável a 1968, quando manifestações por direitos civis culminaram no assassinato do líder Martin Luther King.
"Não é só que achamos que os negros serão mais respeitados. É que poderemos nos sentir mais orgulhosos de nosso povo", diz Rick Schell, desempregado que veio da Carolina do Norte para a posse.
"Eu tantas vezes duvidei na eleição que a América fosse capaz de derrubar o preconceito e eleger um negro. A cada primária estadual, pensava: este Estado não elegerá um negro, isso não vai acontecer. E fui me surpreendendo. Agora acho que o mundo vai pensar: OK, os americanos não são tão idiotas e injustos", disse à Folha, ao ver com a família a Casa Branca pela primeira vez.
Para Jeffrey C. Stewart, pesquisador de temas raciais da Universidade da Califórnia, a conjunção do aniversário de King e da posse de Obama é, por vezes, tida como superestimada, mas isso é um erro.
"Pessoas foram linchadas, queimadas, segregadas no início do século 20 apenas por entrar em um espaço público onde estavam brancos. O fato de que este mesmo país agora elege um negro como representante para o mundo é espantoso, mesmo que não mudem [automaticamente] as políticas públicas para os afroamericanos", declarou ao site Politico -que, como grande parte da mídia, abriu o debate para o paralelo entre 1968 e 2009.
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