
Obama falou com a al-Arabiya em Washington
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, escolheu a emissora árabe Al Arabiya para conceder a sua primeira entrevista à TV desde a chegada à Casa Branca. Em tom ameno, ele afirmou que os americanos não são inimigos dos muçulmanos; incentivou negociações de paz entre israelenses e palestinos; e repetiu a frase do discurso de posse sobre "estender a mão" ao Irã, desde que aquele país "abra os punhos".
Na entrevista, Obama lembrou os vários anos em que viveu na Indonésia quando era criança e que suas viagens a países muçulmanos o convenceram de que, independente da fé, as pessoas têm sonhos e esperanças similares. "Meu trabalho em relação ao mundo muçulmano é comunicar que os americanos não são seus inimigos; às vezes cometemos erros, não temos sido perfeitos", admitiu Obama, em entrevista ao canal com sede em Dubai.
"Mas se olharmos para o passado [...] os EUA não nasceram como uma potência colonial e não há razão alguma para que não possamos renovar o mesmo respeito e vínculo que tem tido com o mundo muçulmano há 20 ou 30 anos", enfatizou.
Durante sua campanha presidencial, Obama prometeu que melhorará os laços dos EUA com o mundo muçulmano através de uma política externa menos militarista e mais diplomática. Ele afirmou ainda que viajará a uma capital islâmica para reforçar o compromisso, promessa renovada em sua entrevista.
"Vamos manter o compromisso de que discursarei ao mundo muçulmano de uma capital islâmica", disse Obama, sem dar maiores detalhes sobre o destino. "Vamos manter muitos de meus compromissos para fazer um trabalho mais efetivo para chegar ao mundo muçulmano, assim como falar a ele e ouvi-lo".
O presidente também foi indagado sobre o tom pessoal das recentes mensagens da rede terrorista Al Qaeda difundidas desde que foi eleito presidente em novembro. Segundo Obama, o tom "nervoso" das mensagens sugere que as ideias do grupo estão falidas.
Gaza
Obama falou também sobre as negociações de paz entre palestinos e israelenses, tido como um dos maiores desafios de sua política externa depois da grande ofensiva israelense em Gaza que deixou mais de 1.300 palestinos mortos e cerca de 5.000 feridos.
"Acho que o momento é adequado para que ambas as partes se deem conta de que o caminho no qual se encontram não resultará em prosperidade e segurança para seus povos", afirmou, momentos depois de enviar para a região seu representante especial, George Mitchell.
"É hora de voltar à mesa de negociação", disse Obama, que deve liderar um governo menos pró-Israel que o de seu antecessor, George W. Bush. "Há israelenses que reconhecem a importância da paz. Eles estão dispostos a fazer sacrifícios se o momento for apropriado e se há parceria séria do outro lado".
"Quero assegurar-me de que as expectativas não sejam tão elevadas de forma que esperemos que tudo se resolve em alguns meses. Mas se começarmos um avanço firme nesses temas, tenho absoluta confiança de que os EUA, trabalhando junto com a União Europeia, Rússia e todos os países árabes da região de que podermos conseguir avanços significativos".
O democrata afirmou ainda que Mitchell se envolverá "de forma vigorosa para conseguir um progresso genuíno para a paz na região". Obama se reuniu com Mitchell e a secretária de Estado, Hillary Clinton, na Casa Branca pouco antes do enviado viajar para a região, em um roteiro que inclui Israel, Cisjordânia, Egito, Jordânia, Arábia Saudita, França e Reino Unido.
Risco nuclear
Reiterando o discurso diplomático, o novo presidente afirmou ainda que os EUA oferecerão ao Irã a "mão estendida" se os líderes iranianos "abrirem o punho" --repetindo tema do discurso de sua posse.
"Como disse em meu discurso de posse se países como o Irã tiverem vontade de abrir o punho, encontrarão nossa mão estendida. É muito importante para nós nos assegurarmos de que empregamos todas as ferramentas do poder americano, incluindo a diplomacia, em nossa relação com o Irã", acrescentou Obama.
O democrata foi duramente criticado pelo ex-rival republicano John McCain, durante a campanha pela Casa Branca, por defender o que McCain chamou de diálogo sem restrições com o presidente iraniano, Mamhoud Ahmadinejad, considerado inimigo dos EUA.
"Levaremos em conta tudo o que for necessário e apropriado em relação a manter a pressão para a meta de pôr fim ao programa nuclear do Irã", enfatizou Obama. "O diálogo e a diplomacia devem estar de mãos dadas com uma firme mensagem dos EUA e da comunidade internacional de que o Irã tem de cumprir suas obrigações tal como foram estabelecidas pelo Conselho de Segurança e sua rejeição a isso não fará mais que aumentar a pressão."
Nota do Edidtor:
Dois trechos da entrevista chamam à atenção: ei-los:
"Quero assegurar-me de que as expectativas não sejam tão elevadas de forma que esperemos que tudo se resolve em alguns meses. Mas se começarmos um avanço firme nesses temas, tenho absoluta confiança de que os EUA, trabalhando junto com a União Europeia, Rússia e todos os países árabes da região de que podermos conseguir avanços significativos".
Observem que Israel não foi citado como parte da negociação, diretamente, e isto pode significar que os EUA estariam planejando um acordo o qual Israel deverá aceitar obrigatoriamente, mesmo que não concorde
"Há israelenses que reconhecem a importância da paz. Eles estão dispostos a fazer sacrifícios se o momento for apropriado e se há parceria séria do outro lado".
Observem que quando Obama diz que há israelenses que reconhecem a importância da paz, também está dizendo que há israelenses contra a paz, seja lá que tipo de paz for. Ora, talvez ele esteja sinalizando que aqueles que mantém objeções a um acordo, mesmo que em função de objeções legítimas, serão alijados do processo de negociação. Prevejo dias difíceis para Israel.
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