Israel expande incursão e ocupa segunda cidade em Gaza


Fumaça sobe de prédios atingidos por ataque israelense na Cidade de Gaza; ofensiva militar chega ao 11º dia




CIDADE DE GAZA - Tanques e tropas israelenses entraram na segunda maior cidade da Faixa de Gaza, Khan Yunis, pela primeira vez nesta terça-feira, 6. Apoiados por helicópteros de combate, os tanques disparam pesado armamento automático e canhões, de acordo com testemunhas. Oficiais da inteligência israelenses e oficiais militares estão impulsionando a continuidade da operação contra o território palestino até que esteja garantida a eventual queda do regime do grupo islâmico Hamas. Mais de 560 pessoas morreram desde o início da ofensiva israelense, há mais de uma semana, e outros 2.500 foram feridos.

A incursão teria ocorrido no distrito de Abassan al-Kabira, na parte leste da cidade. Se confirmada, esta seria a primeira vez que forças israelenses entram na fortaleza do Hamas desde a invasão do território, na noite do último sábado. Os combates mais fortes foram registrados no norte de Gaza, onde testemunhas afirmam ter visto bombardeios acompanhados por helicópteros e artilharia em terra e mar. Segundo Israel, a ofensiva militar foi iniciada após o Hamas violar uma trégua vigente havia seis meses. O objetivo é eliminar a capacidade de o grupo lançar foguetes contra o sul do país - dezenas foram lançados. O Hamas acusa Israel de ter desrespeitado a trégua antes ao matar seis militantes em novembro.

A Faixa de Gaza vive uma crise humanitária. Faltam alimentos, remédios, água e gás para o aquecimento das casas ao longo do inverno. O fornecimento de energia elétrica foi interrompido em muitas áreas. Um porta-voz da ONU disse que o secretário-geral, Ban Ki-moon, informou que a situação em Gaza "agravou-se dramaticamente" nas últimas 24 horas. Israel é acusado de não permitir o envio ajuda humanitária para aliviar a crise no território, que tem 1,5 milhão de habitantes em uma faixa costeira de 40 km de comprimento por 10 km de largura - crianças são mais de 50% da população. Os israelenses, que têm o controle aéreo e marítimo de Gaza, dizem que já liberaram a entrada de dezenas de caminhões com ajuda. O Egito mantém a sua fronteira fechada.

Disparos feitos de barcos no Mar Mediterrâneo mataram pelo menos dez palestinos nesta manhã em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza. Em Shajaiyeh, leste do território, tropas israelenses invadiram apartamentos e tomaram posição nos telhados. Segundo vizinhos, os moradores foram obrigados a deixar suas casas e os soldados confiscaram seus telefones celulares. Um ataque aéreo de Israel matou três palestinos em uma escola da Organização das Nações Unidas nesta terça-feira, informaram funcionários médicos e autoridades da ONU. Centenas de palestinos buscaram refúgio na escola após fugirem dos violentos combates terrestres entre soldados israelenses e combatentes do Hamas no norte da Faixa de Gaza, informaram as autoridades.

Na última noite, três soldados israelenses foram mortos e 24 feridos, quatro deles gravemente, atingidos acidentalmente pelo disparo de um tanque. Esse foi o incidente mais sangrento envolvendo militares desde o início das operações terrestres em Gaza, no sábado. O Exército israelense afirmou ainda que matou 130 militantes desde sábado, indicio de que a cifra de mortos desde 27 de dezembro pode estar em torno de 700.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, chegou nesta terça a Damasco dentro da viagem pelo Oriente Médio que já o levou a Egito, Cisjordânia, Ramallah e Israel, para impulsionar uma trégua na Faixa de Gaza, informou a televisão oficial síria. Segundo a cadeia, durante sua visita de poucas horas à Síria está previsto que Sarkozy se reúna com o presidente sírio, Bashar al-Assad. O Conselho de Segurança da ONU discutirá sobre a situação em Gaza novamente nesta terça. Países árabes estão elaborando um projeto de resolução para apresentar ao CS, que exige o fim imediato da "agressão israelense" em Gaza. O esforço diplomático da Europa, de caráter emergencial, pretende negociar a suspensão imediata dos confrontos e a liberação da ajuda humanitária para a população civil palestina. Em um segundo momento, seria negociada a suspensão prolongada das agressões.

A ONU afirmou que mais de 1 milhão de pessoas em Gaza ainda estão sem eletricidade ou água e relatou que sua equipe está encontrando dificuldades para distribuir ajuda humanitária e ter acesso aos feridos. A organização disse ainda que diesel industrial é necessário para reabrir a principal usina de energia do território, que está fechada há uma semana. Dez transformadores foram danificados com os confrontos.

Queda do Hamas

A edição desta terça-feira do jornal britânico The Guardian aponta que oficiais da inteligência e militares israelenses estão pressionando para que a operação em Gaza continue até que esteja assegurada a eventual derrubada do Hamas, contando que a última semana de ofensiva tenha prejudicado a habilidade do grupo em governar.

Os serviços de inteligência apostam que o bombardeio israelense tenha mudado a opinião pública palestina sobre o Hamas, enfraquecendo o regime do partido islâmico. Oficiais geralmente relutam em afirmar que o ataque contra a Faixa de Gaza tem a intenção de forçar a saída do Hamas do poder, por conta da preocupação de que esse posicionamento prejudique a justificativa de que o país tem o direito de se defender e que a operação é uma medida defensiva para impedir o lançamento de foguetes contra comunidades do sul de Israel. O jornal aponta ainda que Israel quer que forças estrangeiras imponham ao Hamas que se submeta à autoridade do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, cujo partido foi expulso da Faixa de Gaza em junho de 2007.

Crise em Gaza move peão de ''guerra fria'' regional


A ofensiva israelense contra o Hamas na Faixa de Gaza acentuou ainda mais a divisão entre os países vizinhos de Israel. Em uma espécie de "guerra fria" que já se prolonga por alguns anos, nações árabes lideradas pelo Egito, aliado dos EUA, disputam com o Irã a influência política na região.

Os egípcios e jordanianos têm acordos de paz com Israel. O presidente do Egito, Hosni Mubarak, recebeu a ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, no Cairo, no dia anterior ao início dos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza.

A Arábia Saudita, também aliada dos EUA, recentemente fez uma proposta de paz para os israelenses em troca da retirada dos territórios palestinos. Todos mantêm relações com o Fatah, grupo do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, que governa a Cisjordânia.

Do outro lado, o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, com um discurso anti-Israel, dá apoio ao Hamas e ao Hezbollah. Seu único aliado na região é a Síria. O grupo aliado aos EUA,é composto por regimes ditatoriais ou monarquias majoritariamente sunitas e árabes, mas alguns desses países, como o Egito, têm governos seculares.

O Irã é persa e xiita, religião minoritária em todos os países árabes, com a exceção do Iraque e do Bahrein. A Síria tem maioria sunita, mas o presidente, Bashar Assad, é alauita e lidera um regime secular. Dessa forma, a divisão entre os países não é feita entre xiitas, de um lado, e sunitas, do outro. Mas sim de acordo com a forma como enxergam o futuro do Oriente Médio. São três os principais pontos de divergências entre os dois campos - o Iraque, o Líbano e os palestinos. O primeiro diz respeito à disputa para saber quem exercerá mais influência em território iraquiano após a retirada dos EUA. Os dois últimos são os que envolvem Israel.

O Irã apoia o Hezbollah no Líbano, que é xiita e já travou uma guerra contra os israelenses. Os outros países são aliados da coalizão governista libanesa, controlada por sunitas. Em maio, haverá eleições no país. Um fracasso do Hamas em responder à ofensiva em Gaza pode fortalecer os aliados libaneses de egípcios e sauditas.

O Hamas, mesmo sunita, se aproximou do Irã, com quem compartilha o ódio a Israel. O Fatah, apesar de divergências históricas com nações árabes, tem se aproximado do Egito e da Jordânia, que o veem como moderado. Além disso, o Hamas foi criado com inspiração na Irmandade Muçulmana, principal grupo opositor tanto no Egito como Jordânia.

A Síria, apesar de estar do lado iraniano, vinha negociando indiretamente um acordo de paz com Israel. O conflito congelou o diálogo. Mas o destino da Síria, na avaliação de analistas da região, dependerá muito mais do governo do americano Barack Obama do que do resultado da ofensiva em Gaza.

Um dos motivos para a divisão entre esses dois blocos de países é que, para alguns, o Irã passou a oferecer os mesmos riscos que Saddam Hussein na época em que governava o Iraque e desenvolvia um programa nuclear.

Os líderes árabes temem que o regime iraniano possa provocar instabilidade na região, segundo o professor da Universidade Columbia, Rachid Khalidi. "Mas é claro que a maioria do povo árabe se preocupa muito mais com os israelenses que com o Irã", diz Khalidi. "Isso demonstra como esses regimes nem sempre representam as suas populações."

A Turquia, um membro da Otan que mantém relações militares e diplomáticas com Israel, causou surpresa ao criticar os bombardeios israelenses. A população do país (não-árabe) é uma das mais anti-EUA da região. O conflito, porém, não deve alterar a postura pró-Ocidente de Ancara.


Ofensiva terrestre deixa 130 membros do Hamas e cinco soldados israelenses mortos

O Exército de Israel informou nesta terça-feira que matou 130 combatentes do movimento islâmico radical Hamas desde o início da ofensiva terrestre na faixa de Gaza, no sábado passado (3). Segundo a imprensa israelense, os combates em terra com o Hamas deixaram ainda cinco soldados israelenses mortos, quatro deles por fogo amigo.

"Durante os últimos dois dias, pelo menos 130 terroristas do Hamas morreram em combates com o Exército na faixa de Gaza", afirma um comunicado militar.

Israel confirmou ainda que lançou mais de 40 bombardeios aéreos desde a madrugada desta terça-feira. Um destes ataque, informam os jornais israelenses "Jerusalem Post" e "Haaretz", atingiu um prédio em Gaza no qual estava abrigado o chefe da divisão de lançamentos de foguetes do Hamas, Ayman Sayam.

Segundo o Exército, Sayam chefia ainda o programa de artilharia do movimento radical em toda a faixa de Gaza.

Há quatro dias consecutivos, milhares de soldados israelenses enfrentam os militantes do Hamas na faixa de Gaza, a segunda etapa da grande ofensiva militar israelense iniciada no último dia 27 e que deixou mais de 550 palestinos mortos e cerca de 2.500 feridos.

Unidades de infantaria, de blindados, de engenharia e de inteligência participam na ofensiva terrestre, com o respaldo da aviação da artilharia e da marinha de guerra.

Segundo Israel, a ofensiva militar é justamente uma resposta à violação --com o lançamento constante de foguetes-- do Hamas da trégua de seis meses assinada com Israel e que acabou oficialmente no último dia 19.

Soldados

A ofensiva terrestre do Exército deixou ainda cinco soldados israelenses mortos. Quatro soldados foram mortos em dois combates separados nesta segunda-feira contra militantes palestinos na faixa de Gaza. Um quinto soldado foi morto neste domingo (4).

Três soldados morreram devido ao ataque equivocado de um tanque de Israel contra um edifício tomado dos palestinos em Gaza. A confirmação de três dos soldados mortos foi revelada na noite desta segunda-feira pelo Exército Israelense.

Nesta terça-feira, foi confirmada a morte do quarto soldado, em um ataque separado, mas também de fogo amigo. Segundo os jornais israelenses, capitão Yonatan Natanyel, 27, foi morto por fogo amigo no norte da faixa de Gaza, próximo a Beit Hanun.

Os três soldados que morreram no que os jornais chama de incidente de fogo amigo eram da infantaria de Golã. No ataque de um tanque israelense, ao menos outros 24 soldados ficaram feridos, três seriamente e um em estado crítico.

Um dos soldados mortos foi identificado como Yosef Muadi, 19, de Haifa. Segundo o "Haaretz", ele será enterrado na vila de Yarka, na Galiléia, na tarde desta terça-feira.

Os outros dois foram identificados como major Dagan Wartman, 32, de Ma'aleh Michmash, que servia como médico do 13º batalhão das forças de Golã, e o sargento Nitai Stern, 21, de Jerusalém.

Segundo relatórios citados pelo jornal "Jerusalem Post", parte do batalhão foi atacada com artilharia pesada em Saja'iya e entrou em uma casa próxima para se proteger. Confundindo-os com membros do Hamas, um tanque israelense atirou na casa, que desmoronou.

A batalha com os membros do Hamas que estavam nas proximidades durou horas até que a artilharia israelense liberou a área e levou os feridos de helicóptero.

Números

O ataque de fogo amigo causou o mais grave acontecimento para as Forças de Defesa israelenses nos onze dias consecutivos de ofensiva terrestre contra alvos do Hamas na faixa de Gaza.

Eles citam ainda ao menos dois outros incidentes de fogo amigo nos últimos dois dias. Um soldado que ficou ferido por uma metralhadora e outro durante a detonação de um aparelho explosivo.

Segundo os jornais, o número de palestinos mortos nesta segunda-feira (5) chega a cem. Outros 80 palestinos foram presos pelas Forças de Defesa israelenses e admitiram no interrogatório inicial pertencerem ao Hamas.

Eles foram transferidos, ainda segundo os jornais, para prisões temporárias dentro do território de Israel.

Tanques israelenses invadem maior cidade no sul de Gaza


As Forças Armadas de Israel atacaram o sul da faixa de Gaza no 11º dia da ofensiva contra o Hamas, grupo que controla o território palestino. Apoiados por helicópteros de combate, tanques abriram fogo contra supostos alvos terroristas em Khan Yunis, a maior cidade do sul de Gaza e conhecido reduto do Hamas.

O Exército israelense não confirmou qualquer ofensiva contra a região. A incursão no bairro de Abasan al-Kabira, zona leste de Khan Yunis, pode ser a primeira das forças israelenses na cidade.

Nesta segunda-feira (5), Israel ampliou a ação na faixa intensificando o cerco à Cidade de Gaza na fase de guerrilha urbana do confronto, iniciado no último dia 27 com bombardeios em resposta ao lançamento de mísseis caseiros por militantes do Hamas.

Tropas israelenses entraram em confronto com militantes palestinos no final da noite desta segunda-feira nos subúrbios da Cidade de Gaza. O Hamas e Jihad Islâmica afirmaram que seus militantes enfrentaram os soldados israelenses com metralhadoras e lançadores de foguetes.

Fim do conflito

Nesta segunda, o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, disse "já ter atingido o Hamas, mas que ainda falta muito para o fim da guerra".

A ministra israelense das Relações Exteriores, Tzipi Livni, jogou um balde de água fria nos partidários do fim iminente das hostilidades, ao afirmar que Israel está determinado a cumprir as metas de sua campanha na faixa de Gaza. O objetivo declarado é acabar com os disparos de foguetes contra o sul de Israel.

"Combatemos o terrorismo, e não concluiremos um acordo com terroristas", avisou, referindo-se ao Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde junho de 2007. Na véspera, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, também se recusara a pôr um fim à ofensiva.

Em resposta, o braço armado do Hamas defendeu que ainda guardam surpresas para as forças israelenses. Por meio de nota, o grupo islâmico citou um arsenal de mísseis antitanque B-29 e um novo tipo de foguete para ser usado contra os israelenses.

O líder do Hamas, Mahmoud al Zahar, disse que o "movimento armado irá mostrar performances ainda melhores contra o inimigo [Israel] e que é invencível". "Nós vamos derrotá-los, se Deus quiser", disse.

O presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, apresentará nesta terça-feira um projeto ao Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) no qual pede a Israel para colocar fim à ofensiva em Gaza e exige a declaração de um cessar-fogo permanente.

A situação humanitária continua piorando na faixa de Gaza, onde se amontoam 1,5 milhão de pessoas. A maioria dos habitantes sofre com a escassez de água e comida e com os cortes de eletricidade.

O Alto Comissário da ONU para os Refugiados, Antonio Gutierres, pediu a abertura das fronteiras para permitir a fuga dos moradores. "A situação está muito difícil. Tememos pela vida de nossos filhos. Todos nossos vizinhos já deixaram suas casas", declarou Abu Jamal Khalifa, morador do bairro Al-Zeitun.

Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a "situação é extremamente perigosa e a coordenação do envio de ambulâncias está muito complexa devido aos ataques e as operações militares sem interrupção. Alguns feridos estão morrendo enquanto esperam a chegada do socorro do Crescente Vermelho".

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