Israel e Hamas estudam cessar-fogo proposto por França e Egito

Palestinos recolhem água durante trégua de três horas dada por Israel para entrada de agência humanitária

CIDADE DE GAZA - Líderes israelenses se reúnem nesta quarta-feira, 7, para decidir se continuam com a ofensiva contra o grupo islâmico Hamas na Faixa de Gaza ou consideram a proposta internacional de cessar-fogo para acabar com os 12 dias de confrontos no território palestino. Com o criticismo crescendo sobre a operação por conta do grande número de civis mortos e a crise humanitária vivida pela população por conta dos ininterruptos ataques, Israel anunciou uma trégua diária de três horas para permitir que a ajuda passe por um corredor humanitário, cuja criação foi anunciada na véspera.

Os presidentes da França e do Egito, Nicolas Sarkozy e Hosni Mubarak, apresentaram um plano para obter uma trégua imediata e encerrar o conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza. A proposta, apresentada durante uma entrevista coletiva em Sharm el-Sheikh, pede um cessar-fogo por um período limitado destinado a permitir o envio de ajuda humanitária a Gaza, um encontro urgente entre israelenses e palestinos para discutir meios de impedir novas ações militares e motivos para o conflito, incluindo o fim do bloqueio de Gaza. Também pede a retomada de diálogo sobre uma reconciliação entre o Hamas e a Autoridade Palestina, que perdeu o controle de Gaza para o grupo em meados de 2007. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, e os EUA apoiaram imediatamente o plano Mubarak-Sarkozy.

Segundo o presidente israelense, Shimon Peres, o país estudará os planos propostos pela França e pelo Egito para resolver a crise. "Não queremos estender a guerra. Não queremos uma guerra prolongada. Não temos ambições territoriais. Estamos interessados em pôr fim a isso, mas pôr fim não só à atual situação, mas fim ao terror", acrescentou. "Agora temos a ideia geral. Temos que olhar os detalhes, porque, infelizmente, isso depende de como será organizado. Um papel, por si só, não pode mudar a situação", afirmou o chefe de Estado israelense sobre o plano franco-egípcio.

O movimento palestino Hamas expressou suas reservas em relação à iniciativa egípcia para colocar fim às hostilidades na Faixa de Gaza, e insistiu na necessidade de que, em primeiro lugar, Israel pare sua ofensiva armada. "Dissemos ao Egito que insistimos na suspensão do bloqueio a Gaza, parando a agressão contra nossa gente e abrindo todas as passagens fronteiriças", afirmou o representante do Hamas no Líbano, Osama Hamadan. Alguns dirigentes do Hamas criticaram as autoridades do Cairo por parcialidade a favor de Israel, ao manter fechada a passagem fronteiriça de Rafah, a única que liga a Gaza a um ponto fora do território israelense.

Os pontos básicos da proposta de Mubarak incluem uma trégua por um período limitado e a abertura dos postos fronteiriços para que seja possível receber assistência humanitária em Gaza. Também estabelece negociações para suspender o bloqueio sofrido há um ano e meio por esse território palestino, controlado pelo Hamas, garantias para que evitar uma escalada do conflito e passos para conseguir a reconciliação palestina.

Enquanto os líderes israelenses se encontram em Tel Aviv, mais combates foram registrados nos arredores da Faixa de Gaza. Israel disse que cerca de 30 alvos do Hamas foram atingidos durante a noite. Oficiais de saúde de Gaza afirma que os novos ataques mataram pelo menos oito pessoas nesta quarta-feira. O Exército de Israel matou na terça ao menos 30 palestinos - algumas fontes falam em 42 - que estavam em uma escola da ONU na Faixa de Gaza. Este foi o mais violento ataque contra o território desde o início do conflito, que já deixou mais de 670 palestinos mortos. Muitas das vítimas da ação eram crianças que tinham sido levadas para a escola justamente por ser considerada um abrigo seguro que não seria alvo de ataques israelenses. A ONU pediu para que seja feita uma "investigação imparcial" sobre o ataque.

Cerca de 300 dos mais de 670 palestinos mortos desde o dia 27 de dezembro são civis, segundo fontes da ONU e palestinas, e pelo menos 130 deles são menores de 16 anos. Com a proibição do acesso de jornalistas a Gaza por Israel e pelo Egito, a maior parte das imagens exibidas do ataque contra a escola da ONU era da TV Al-Jazira, do Catar, e da TV Al-Aqsa, ligada ao Hamas. Médicos carregavam meninos que foram colocados no chão do hospital, sem ficar claro se estavam vivos. Poças de sangue formavam-se ao redor da escola atingida pelos morteiros israelenses, que deixaram 55 feridos.

Um porta-voz das Forças de Defesa israelenses confirmou a interrupção, a partir das 9h desta quarta-feira, da ofensiva militar contra alvos do movimento islâmico radical Hamas, na faixa de Gaza. A proposta, segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, foi apresentado pelos líderes do Exército e visa, segundo Tel Aviv, "prevenir uma crise humanitária" na região.

O porta-voz Peter Lerner confirmou às agências internacionais de notícias Associated Press e France Presse que a interrupção foi efetivamente cumprida nesta quarta-feira. Ela deve durar três horas, até às 16h (12h, no horário de Brasília). "Posso confirmar que há um cessar nas atividades ofensivas neste momento para facilitar o tráfego de ajuda humanitária e permitir à população que garanta provisões e facilitar o trabalho das organizações não-governamentais", disse Lerner.

O Exército de Israel anunciou na manhã desta quarta-feira que iria interromper os bombardeios em Gaza durante três horas todos os dias para permitir a entrada dos caminhões de ajuda humanitária.

A decisão foi adotada depois que Israel aceitou abrir um corredor humanitário na faixa de Gaza para auxiliar os cerca de 1,5 milhão de palestinos que vivem na região e que, há doze dias consecutivos, vivem sob constantes bombardeios aéreos, navais e terrestres pela grande ofensiva militar lançada por Israel contra alvos do movimento islâmico radical Hamas.

A ofensiva militar já deixou mais de 600 mortos e cerca de 2.500 feridos. Entre as vítimas, estão ao menos 40 palestinos mortos em um ataque de tanques israelense contra uma escola administrada pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Autoridades palestinas na faixa de Gaza disseram que foram informadas de que Israel interromperia os ataques durante um período para permitir que as lojas abram e os funerais das vítimas ocorram.

Segundo estimativas da ONU, os ataques israelenses deixaram 80% da população completamente dependente de ajuda humanitária. Enquanto a ONU insiste em um cessar-fogo efetivo na região, suas agências alertam para a crise humanitária causada pela destruição de mais de 600 alvos, incluindo estradas, edifícios públicos, delegacias de polícia e parte da infraestrutura da faixa de Gaza.

Corredor


O gabinete do primeiro-ministro Ehud Olmert anunciou nesta quarta-feira que Israel abrirá o corredor humanitário "para prevenir uma crise humanitária na Faixa de Gaza". A decisão foi comunicada à secretária de Estado americana, Condoleezza Rice.

As agências de ajuda humanitária, e principalmente a ONU, reclamaram do agravamento na crise humanitária da região por causa da ofensiva israelense. Com a entrada do Exército, o território foi dividido, grandes áreas urbanas foram cercadas e o pouco fluxo de suprimentos foi ainda mais reduzido.

Um porta-voz de Olmert, Mark Regev, descreveu a medida como "status especial para permitir a transferência de pessoas, comida e remédios".

A República Tcheca, que está na Presidência rotativa da União Europeia, pediu nesta quarta-feira que Israel que permita o livre acesso das agências humanitárias na região, e não apenas nas três horas diárias. "Pedimos a Israel que abra um corredor humanitário em Gaza e permita o livre acesso das organizações humanitárias ao território", diz um comunicado publicado pelo ministério tcheco de Relações Exteriores.

"Há uma escassez cruel em Gaza de produtos básicos, de sobrevivência. Falta água e eletricidade", diz o texto, publicada após o retorno da missão europeia pelo Oriente Médio, que fracassou em conseguir um cessar-fogo.

Entrada

Segundo a embaixada de Israel no Brasil, nesta terça-feira (6), 49 caminhões carregados de alimentos, remédios e equipamentos entraram na região. O WFP (Programa das Nações Unidas para Alimentos, em português) voltou a entregar mantimentos em Gaza, após um recesso de dois dias.

A passagem de Kerem Shalom também foi aberta para a entrada de 80 carregamentos de ajuda humanitária. O depósito de combustíveis de Nahal Oz funcionou e enviou 215 mil litros de diesel especial (necessário para a estação elétrica da região), 93 mil litros de diesel para uso dos diversos organismos das Nações Unidas e 50 toneladas de gás de cozinha para uso doméstico.

Segundo a ONU, este número supera a quantidade permitida antes da ofensiva, mas ainda é inferior aos 475 veículos com ajuda humanitária que chegavam a Gaza antes de junho de 2007, quando o Hamas assumiu o controle do território.

Atendendo à um pedido do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Israel permitirá a entrada de dois médicos e duas enfermeiras, através da passagem de Erez. Também nesta terça-feira, a entidade qualificou a situação na faixa de Gaza como uma "crise humanitária plena do tipo mais grave".

"Rejeitamos trégua permanente com Israel", diz líder do Hamas


O líder do braço político do movimento islâmico radical Hamas afirmou nesta quarta-feira que o grupo está avaliando as propostas de cessar-fogo na faixa de Gaza, mas que rejeita trégua permanente com Israel.

O líder em exílio Moussa Abou Marzouk afirmou, segundo o jornal israelense "Haaretz", que não haverá espaço para negociações de uma trégua permanente com os israelenses e que, enquanto houver a ocupação das tropas do Exército de Israel em Gaza, haverá resistência dos militantes do Hamas.

Nesta quarta-feira, Israel interrompe por três horas, até às 16h (12h, no horário de Brasília), os bombardeios contra alvos do Hamas na faixa de Gaza. A grande ofensiva militar israelense, iniciada no último dia 27, já deixou mais de 600 mortos e cerca de 2.500 feridos.

Segundo Marzouk, o Hamas recebeu propostas de cessar-fogo da França, Turquia, Síria e Egito. Contudo, o grupo mantém sua exigência por um fim imediato da ofensiva israelense, com a retirada das tropas de Gaza e a abertura das fronteiras da faixa.

Outro lado

O governo israelense também não parece disposto a aceitar uma trégua com o Hamas. Após uma nova reunião do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) ter adiado o acordo de cessar-fogo na região na noite desta terça-feira (6), o presidente de Israel, Shimon Peres, disse que busca não um cessar-fogo, mas o fim do lançamento de foguetes pelo Hamas.

"Nós não estamos buscando um cessar-fogo, mas um cessar do terror", disse Peres, acrescentando que Israel está revisando o plano de cessar-fogo apresentado pelos presidentes da França e do Egito.

A proposta inclui a abertura de um diálogo do qual participem o Hamas e a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e que adote "todas as medidas necessárias" para deter a violência.

Assim, as conversas incluiriam assuntos como o combate ao contrabando de armas na fronteira de Gaza e a reabertura de todos os postos de controle fronteiriços fechados desde que o Hamas assumiu o controle da faixa territorial em junho de 2007, expulsando o Fatah, partido do presidente da ANP, Mahmoud Abbas.

A última trégua assinada entre Israel e Hamas acabou oficialmente no último dia 19. Oito dias depois, Israel iniciou uma grande ofensiva militar na faixa de Gaza para enfraquecer o Hamas e interromper o lançamento de foguetes artesanais contra seu território.

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