Escritor John Updike morre aos 76 anos

John Updike, vencedor do prêmio Pulitzer, autor profícuo de cartas e crônicas sobre sexo, divórcio e outras aventuras do pós-guerra nos EUA, morreu nesta terça-feira aos 76 anos.

O escritor John Updike morreu aos 76 anos em decorrência de um câncer no pulmão

Updike morreu em decorrência de um câncer no pulmão, de acordo com comunicado da seu editor nos EUA, Alfred A. Knopf.

Um frequentador assíduo das listas de mais vendidos, Updike escreveu novelas, contos, poemas, críticas, as memórias ''Self-Consciousness'' e ainda um famoso ensaio sobre o jogador de baseball Ted Williams.

Updike era ainda colaborador constante da revista "New Yorker".

Convicto do trabalho duro, ele publicou mais de 50 livros em sua carreira que começou na década de 50. Updike ganhou praticamente todos os prêmios literários, incluindo dois Pulitzers e dois National Book Awards.

No Brasil

Paulo Henriques Britto, tradutor de algumas das principais obras de Updike, tinha uma relação epistolar com o autor.

"Ele era dos autores mais acessíveis. Respondia cartas através de correio tradicional", contou Britto.

O tradutor e escritor lembra ainda de uma visita que o autor fez ao Brasil. "Foi na época da tetralogia do Coelho, saímos para almoçar. Ele era uma pessoa muito cordial", relembra.

Para Britto, Updike será sempre lembrado pela Tetralogia do Coelho. "Ele pega um personagem da pequena burguesia, um americano médio da região nordeste dos EUA, cujo único momento de glória foi vencer o campeonato de basquete no 'high school'."

"Ele ganha o apelido de Coelho na faculdade e só o narrador o chama assim. E há a peculiaridade de o romance ser narrado no presente", explica Britto.

Para o tradutor, que também é professor da PUC-RJ, o autor é um "ótimo criador de personagens e fino analista psicológico".

Outro ponto que Britto destaca é a proficuidade de Updike: "Ele escrevia mais de um romance por ano, contos, além de resenhas de artes plásticas para a 'New Yorker'. Ele dava a impressão de não ter tempo de mais nada na vida".

Veja abaixo uma lista de obras do escritor publicadas em português

"Bech no Beco" (2000)
Trad. de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

"Bem Perto da Costa" (1991)
Companhia das Letras

"Busca o Meu Rosto" (2005)
Trad. de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

"Cidadezinhas"
Trad. de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

"Coelho Se Cala"
Trad. de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

"Gertrudes e Claudio" (2001)
Trad. de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

"Uma Outra Vida"
Companhia das Letras

"Terrorista" (2007)
Trad. de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras

"Sobre a Fazenda" (1999)
ed. Imago

"O Centauro" (1988)
ed. Europa-América

"Brazil" (1994)
Companhia das Letras

"As Bruxas de Eastwick" (1987)
ed. Gradiva

"Coelho Cai" (1992)
Companhia das Letras

"Coelho Corre" (1992)
Companhia das Letras

"Coelho Cresce" (1992)
Companhia das Letras

"Coelho em Crise" (1992)
Companhia das Letras

"Confie em Mim" (1988)
Rocco

"Consciência à Flor da Pele" (1989)
Companhia das Letras

"Memórias em Branco" (1995)
Companhia das Letras

"Na Beleza dos Lírios" (1997)
Companhia das Letras

"Pai-Nosso Computador"
Rocco

"Uma Questão de Confiança" (1988)
ed. Difel (Portugal)

"S." (1989)
Rocco

"Saba das Feiticeiras" (1985)
Rocco

"Casais Trocados"
ed. Abril

"O Golpe"
ed. Nova Cultural

Leia trecho de "Terrorista", de John Updike

Leia a seguir trecho de "Terrorista", livro de John Updike

Demônios, pensa Ahmad. Esses demônios querem tomar de mim meu Deus. O dia inteiro, na Central High School, as meninas rebolam, debocham e exibem seus corpos macios, seus cabelos sedutores. Os ventres nus, enfeitados com vistosos piercings no umbigo e tatuagens lascivas em roxo, indagam: O que mais há para mostrar? Os rapazes desfilam, blasés e orgulhosos, com olhares mortos, indicando, com gestos violentos de assassinos e risos indiferentes e sarcásticos, que este mundo é tudo que existe - um corredor barulhento, envernizado, cheio de armários de metal e terminando numa parede lisa, profanada por grafites e tantas vezes pintada e repintada que dá a impressão de estar avançando cada vez mais, milímetro por milímetro.

Os professores, cristãos débeis e judeus não praticantes, falam palavras vazias sobre a virtude e a honradez do autocontrole, porém seus olhares esquivos e suas vozes insinceras traem sua falta de fé. Eles são pagos para dizer essas coisas, pagos pela prefeitura de New Prospect e pelo governo estadual de Nova Jersey. Ahmad e os dois mil outros alunos os vêem se enfiando em seus carros depois das aulas no estacionamento apinhado, pontilhado de lixo, como tantos caranguejos pálidos ou escuros que voltassem a suas cascas, e são homens e mulheres como quaisquer outros, cheios de concupiscência e medo e paixão por coisas que podem ser compradas. Infiéis, pensam que a segurança está em acumular coisas deste mundo, e nas diversões corruptoras da televisão. São escravos das imagens, imagens falsas de felicidade e riqueza. Mas mesmo as imagens verdadeiras são imitações pecaminosas de Deus, o único ser capaz de criar. O alívio por ter escapado incólumes de seus alunos por mais um dia faz com que os professores se dispersem nos corredores e no estacionamento falando alto demais, como bêbados cada vez mais excitados. Os professores caem na farra quando não estão na escola. Alguns têm as pálpebras avermelhadas, o mau hálito e o corpo inchado daqueles que costumam beber em excesso. Uns são divorciados; outros vivem maritalmente sem ser casados. Fora da escola, levam vidas desorganizadas e libidinosas, sem autodisciplina. São pagos para pregar a virtude dos valores democráticos pelo governo estadual, cuja sede fica em Trenton, e por aquele governo satânico mais longe, em Washington, porém os valores em que acreditam são ímpios: biologia, química, física. Quando se trata dos fatos e fórmulas desses assuntos, suas vozes falsas soam firmes e retumbam na sala de aula. Dizem que tudo provém de átomos cegos e implacáveis, responsáveis pelo peso frio do ferro, a transparência do vidro, a imobilidade da argila, a agitação da carne. Os elétrons fluem por fios de cobre, por portas de computador e pelo próprio ar, quando a interação de gotículas de água provoca relâmpagos. Só é verdade aquilo que podemos medir e deduzir a partir de nossas mensurações. Tudo o mais é apenas o sonho passageiro que chamamos de nosso ser.

Ahmad tem dezoito anos. Estamos no início de abril; mais uma vez o verde penetra sorrateiro, semente por semente, nas fendas de terra da cidade cinzenta. Ele olha do patamar de sua altura recém-conquistada e pensa que, para os insetos invisíveis na grama, ele seria, se eles tivessem uma consciência como a sua, Deus. No ano passado Ahmad cresceu sete centímetros, chegando a um metro e oitenta e dois --mais forças materialistas invisíveis a exercer sua vontade sobre ele. Ele não vai crescer mais do que isso, pensa Ahmad, nesta vida nem na outra. Se houver uma outra, um demônio interior murmura. Que provas, além das palavras ardentes e divinamente inspiradas do Profeta, garantem que existe outra vida? Onde ela estaria escondida? Quem estaria eternamente abastecendo as fornalhas do Inferno? Que fonte infinita de energia haveria de manter o Éden opulento, alimentando as huris de olhos negros, fazendo crescer os frutos pesados nas árvores, renovando os riachos e chafarizes em que Deus, conforme a nona sura do Alcorão, eternamente se regozija? E a segunda lei da termodinâmica?

As mortes dos insetos e vermes, cujos corpos rapidamente são absorvidos pela terra, o mato e o asfalto da estrada, tentam dizer a Ahmad, demoníacas, que a morte dele será igualmente pequena e definitiva. No caminho da escola, ele percebeu um sinal, uma espiral traçada na calçada em icor luminoso, o visgo angelical do corpo de alguma criatura vil, um verme ou lesma do qual esse vestígio é tudo que resta. Aonde iria essa criatura, descrevendo uma espiral centrípeta sem nenhum sentido? Se estava tentando se afastar da calçada quente que a assava viva sob o sol forte, foi um equívoco, e os círculos por ela descritos se revelaram fatais. Porém no centro da espiral não ficou nenhum minúsculo corpo de verme.

Então para onde voou aquele corpo? Talvez tivesse sido arrebatado por Deus e levado diretamente para o Céu. O professor de Ahmad, o xeique Rashid, imã da mesquita que fica num sobrado em 2781½ West Main Street, lhe diz que, segundo a tradição sagrada da Hadith, tais coisas acontecem: o Mensageiro, montado no cavalo alado branco Buraq, foi guiado através dos sete céus pelo anjo Gabriel até um determinado lugar, onde ele rezou com Jesus, Moisés e Abraão antes de voltar à Terra, para se tornar o último dos profetas, o maior de todos. São provas de suas aventuras naquele dia as marcas deixadas pelo casco de Buraq, nítidas e límpidas, no Rochedo sob a Cúpula sagrada no centro de al-Quds, chamada de Jerusalém pelos infiéis e sionistas, cujos tormentos nas fornalhas do Jahannan são bem descritos nas suras de número sete, onze e cinqüenta do Livro dos Livros.

O xeique Rashid recita com uma belíssima pronúncia a sura 104, referente ao Hutama, o Fogo Que Consome:

E quem te ensinará o que é o Fogo Que Consome?
É o fogo de Deus a arder,
Que abrasará os corações dos amaldiçoados.
Em verdade, elevar-se-á sobre eles como uma abóbada,
Em colunas estendidas.


Com Associated Press, em Nova York

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