O sol brilha em Porto Alegre para Francisco Machado, morador do Menino Deus, apenas nos fins de semana. De segunda a sexta, ele pula da cama às 5h30min e é surpreendido pela alvorada a caminho do trabalho, em Novo Hamburgo. Quando retorna à Capital, às 23h30min, o sol já se pôs no Guaíba. Com emprego e faculdade na Região Metropolitana, passa menos de um terço do dia no município onde mora. É parte da legião ascendente para quem a metrópole se transformou em mera cidade-dormitório.
O novo papel de Porto Alegre virou um fenômeno de massa nesta década. Acostumada a ser o destino para onde convergiam trabalhadores de municípios-satélite, a cidade agora sente o gosto de ser fornecedora de mão-de-obra. A mudança foi vertiginosa. Conforme estimativas da Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan), 30 mil pessoas saem diariamente da Capital para trabalhar na Região Metropolitana apenas em ônibus fretados. Quatro anos atrás, eram 2,9 mil. Somando os que seguem em linhas regulares, a força de trabalho exportada ao dia ultrapassa 50 mil indivíduos. No total de trabalhadores e estudantes, são 93 mil saindo de ônibus todos os dias para os municípios vizinhos.
A inversão no fluxo de trabalhadores é obra da evasão do parque fabril porto-alegrense para os municípios do entorno. De 1970 a 2008, a participação de Porto Alegre no PIB industrial gaúcho despencou de 25,9% para 7,7%. A transformação econômica, motivada em parte pelos custos operacionais mais baixos das cidades vizinhas, colocou rodovias entre as residências da Capital e os empregos.
— Na formação da Região Metropolitana, o trabalho estava em Porto Alegre. Os profissionais vinham de fora e tinham de comprar até o pão antes de voltar para casa. A mudança ocorreu porque a indústria precisa ficar perto das rodovias. Imagina como seria Porto Alegre cheia de carretas — analisa o geógrafo Danilo Landó, chefe da fiscalização de transporte metropolitano da Metroplan.
Hoje com perfil de classe média e população mais escolarizada, a metrópole fornece muitos dos profissionais qualificados de que as indústrias estão sedentas. Os porto-alegrenses são parcela expressiva nos quadros de grandes empresas sediadas em cidades vizinhas, como Braskem (39%), Petroquímica Triunfo (58%) e Refap (34,5%).
Para Francisco Machado, 28 anos, a jornada metropolitana é dupla. Ele passa a maior parte do dia no administrativo da Fundação Liberato Salzano, em Novo Hamburgo. À tarde e à noite, encara em São Leopoldo o curso de Psicologia da Unisinos. Nos intervalos, resolve os problemas práticos por lá mesmo: faz movimentações bancárias em uma agência local, leva adiante os trâmites para a renovação da CNH, almoça, realiza compras. Gasta quase três horas em deslocamentos todos os dias.
— O que mais esgota não é o cansaço das viagens, e sim organizar os horários. Mas não vou mudar. Tenho Porto Alegre no fim de semana, que é justamente quando ela tem mais a oferecer: a diversão e o lazer para desestressar da semana — diz Machado.
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