Vizinhos da Igreja Renascer em Cristo informaram, ontem, que o casal Sônia e Estevam Hernandes --fundadores da igreja-- tinham uma "passagem vip" e irregular para acessar o palco da sede do Cambuci (zona central de SP), cujo telhado desabou no último dia 18. A entrada era feita pela Vila Deodoro, que fica ao lado, a partir de uma área pública, que teria sido usada sem autorização.
O local servia antes para crianças brincarem. Era uma espécie de garagem aberta, que fazia divisa com o estacionamento da igreja. Um fiscal da Subprefeitura da Sé verificará a irregularidade hoje.
A Associação de Preservação do Cambuci e da Vila Deodoro já havia denunciado o problema ao Ministério Público e à prefeitura mas, em cinco anos, a área ainda não foi devolvida à população. O Ministério Público informou que a ordem já foi dada e deveria ter sido cumprida, mas que a fiscalização é de competência do Contru (Departamento de Controle do Uso de Imóveis), ligado à Secretaria de Habitação.
O presidente da associação, Gilberto Amatuzzi, 56 anos, afirmou que a abertura da passagem preferencial é apenas uma das batalhas enfrentadas pelos moradores com representantes da igreja.
"A entidade nasceu para brigar com a Renascer. Em dez anos, já reclamamos de barulho, de excesso de circulação de pessoas e carros e do muro que desabou. Agora, vamos brigar para que o templo não seja reconstruído naquele local", disse Amatuzzi.
Os moradores envolvidos na "briga" querem que a área seja desapropriada pela prefeitura. Eles acreditam que o bairro não comporta o movimento dos fiéis, que tomam as ruas que cercam o templo, e, por isso, organizarão um abaixo-assinado.
Laudo
O laudo que apontará as causas do desabamento deve ficar pronto em, no máximo, 60 dias, segundo o perito do IC (Instituto de Criminalística) José Manoel Dias Alves. O prazo, porém, depende do andamento dos depoimentos. Até ontem, mais de 35 pessoas tinham sido ouvidas.
Ministério Público
A Renascer negou, ontem, que tenha desrespeitado ordem do Ministério Público ao realizar cultos no clube Homs, que não tem alvará. A igreja afirmou que o acordo valia apenas para a sede e o entorno, no Cambuci. O Ministério Público disse que tomará as medidas cabíveis.
Outro lado
A Renascer reconheceu a irregularidade denunciada pelos moradores da Vila Deodoro. Afirmou que vai providenciar a devolução da área usada hoje como garagem, mas pediu paciência aos vizinhos em função da tragédia que matou nove pessoas e deixou mais de cem feridas após o desabamento do telhado da sede no Cambuci.
A igreja assegurou que todas as medidas necessárias já estão sendo tomadas, mas nega que tenha se apropriado da área. A Renascer também não admite que a passagem era de uso exclusivo do casal Hernandes ou do jogador Kaká, como comentaram alguns vizinhos. Eles entrariam pela porta da frente, sem incômodo à vizinhança.
O acesso irregular, segundo informou a igreja, era de "serviço". Por lá, passariam pessoas com equipamentos necessários para a realização dos cultos.
Associação de moradores quer transformar local de prédio da Renascer em memorial do cinema
A Associação de Preservação de Cambuci e Vila Deodoro tem um projeto para transformar o prédio da igreja Renascer, no Cambuci (centro de São Paulo), em um memorial ao cinema. O teto da estrutura desabou no último dia 18 matando nove pessoas e ferindo cerca de 120.
A estimativa é que todo o trabalho de demolição do que sobrou do templo deva se prolongar pelos próximos dez dias. Hoje um dos moradores que está com a casa interditada visitou o local.
O projeto depende de uma série de fatores, o principal deles é definir qual a destinação que a Renascer dará ao local.
A proposta é homenagear Antonio Vituzzo, um aficionado colecionador de equipamentos e diversos produtos relacionados ao cinema nacional, que conseguiu reunir cerca de 4.000 peças, entre projetores, rolos de filmes, câmeras, máquinas fotográficas e fotos de diversos artistas da época.
Fato é que a destinação do local preocupa os vizinhos, principalmente os de uma vila que fica ao lado do prédio. Algumas casas fazem divisa com as paredes dos fundos e da parede esquerda da estrutura. Os mais apreensivos são os moradores de uma vila composta por cerca de 40 sobrados que fica no número 319 da rua Robertson, esquina da rua Lins de Vasconcelos.
As casas --divididas por números que começam no 2, única dica para que o Correios entregue corretamente as correspondências-- estão lá há mais de 50 anos, segundo os moradores.
O comerciante Roberto David Rocha Paiva, 40, não teve a casa destruída, mas diz se solidarizar com os vizinhos. "Não dá pra dormir direito desse jeito, não é porque a minha não foi atingida que ficarei tranquilo", disse. Ele afirma que não quer mais a igreja na região. "É muita bagunça, não quero mais esse transtorno", afirma.
Em geral, os vizinhos afirmam que a relação com a igreja nunca foi pacífica.
O administrador de empresas Maurício Bonafonte, 44, já morou em outras casas da vila e hoje prepara a reforma de uma delas, onde pretende morar com a mulher e os filhos.
"Uma coisa óbvia é o seguinte: se você tem capacidade aí para 3.000 pessoas, teria de ter um estacionamento para cerca de 1.000 carros, pelo menos. E é claro que aí [no prédio] não tem. Com isso, ocupam as ruas do entorno e muitas vezes temos dificuldades entrar em casa", afirma.
Ele destaca que a tranquilidade da vila --onde crianças jogam bolas, brincam na rua particular e onde alguns até fazem churrascos nas calçadas e festas juninas, entre outros-- foi quebrada com a presença dos fiéis no entorno.
Discórdia
Uma discórdia dos moradores é um portão lateral criado pela igreja --que dá acesso ao batistério e ao altar.
Ele fica dentro da rua particular e foi colocado ali, segundo os moradores, de forma arbitrária pela Renascer. Segundo os moradores trata-se do local onde os bispos Estevan Sonia Hernandez entravam --cercados de seguranças-- quando ministravam cultos no local. Também foi o local por onde entrou o craque do Milan, Kaká, para se casar, em 2005.
Nenhum comentário:
Postar um comentário