Bancada evangélica da Câmara Municipal impediu investigação de templos

vide atualização feita em 20.01.2009 às 12:00, abaixo

O lobby da bancada evangélica da Câmara Municipal de São Paulo impediu uma investigação das instalações de locais onde são realizados eventos com grande concentração de pessoas na cidade, revela reportagem de Conrado Corsalette e José Ernesto Credendio na Folha

Vereadores ligados às igrejas evangélicas --cerca de 15% dos 55 vereadores-- pressionaram os colegas a fim de deixar os templos de fora da apuração da CPI do Licenciamento, há dois anos. A informação é do próprio presidente da CPI, o vereador Antonio Donato (PT).

A CPI foi criada em 2006, depois de um show do grupo mexicano RBD que deixou três pessoas mortas em uma unidade dos supermercados Pão de Açúcar. Os vereadores constaram irregularidades no local.

Para garantir que a comissão não pudesse extrapolar o acordo, foi batizada de modo a deixar claro que era restrita a "locais de reunião com lotação superior a cem pessoas, destinados a atividades comerciais, de entretenimento e lazer". No final, a CPI não investigou templo nenhum.

Acidente

Neste domingo (18), o teto da igreja Renascer em Cristo no Cambuci (centro) caiu após o término de um culto, por volta das 19h. Nove pessoas morreram --entre eles uma adolescente de 15 anos-- e mais de cem ficaram feridas no templo, na avenida Lins de Vasconcelos.

O Ministério Público do Estado de São Paulo irá apurar se houve negligência na liberação do edifício da igreja. De acordo com o órgão, em 1998, o prédio foi interditado pois o teto e o forro já apresentavam problemas e ofereciam riscos aos frequentadores.

Em nota divulgada na noite desta segunda, a Renascer afirmou que "acompanhou e verificou a reforma do telhado da sede" e que os "problemas não foram causados pela Renascer".

Ontem, moradores vizinhos ao prédio relatam ter visto operários trabalhando no telhado do edifício dias antes desabamento do teto da igreja do templo. Moradores relataram à Folha Online que um barulho parecido com o som de um rojão foi ouvido da rua de trás da igreja na última sexta-feira (16).

Por meio da assessoria de imprensa a igreja informou que "não há qualquer lógica na suposição levantada por testemunhas não identificadas ou identificáveis, dando conta que o teto do local apresentava sinais de desabamento desde a semana passada --uma afirmação que beira o absurdo".

Atualização

Igreja desabou por falta de manutenção, dizem técnicos


SÃO PAULO - Técnicos da Polícia Científica, do Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) e da Defesa Civil iniciaram os trabalhos para descobrir as causas do desabamento que matou 9 pessoas e feriu outras 106, sendo 8 em estado grave, no início da noite de domingo. Os primeiros indícios mostram que a estrutura desmoronou por falta de manutenção, pequenas infiltrações e excesso de peso causado por ar-condicionado, aparelhos de som e de iluminação colocados indevidamente no teto nos últimos anos, conforme os técnicos revelaram.

Fotografias feitas ontem pelos órgãos da Prefeitura mostram cupim na madeira do telhado, além de vários equipamentos de som e de luz que sobrecarregaram o teto. A instalação do ar-condicionado também foi feita sem levar em conta que a estrutura não aguentava tanto peso. "Pela condição do cimento, da madeira e das vigas de ferro, é possível falar que falta de manutenção também deve ter sido essencial pra tragédia", disse uma das peritas que trabalham na investigação.

O presidente da Renascer, o deputado federal Geraldo Tenuta Filho (DEM-SP), o Bispo Gê, disse que o teto não oferecia perigo, a manutenção era feita anualmente e ele "nunca permitiria a entrada de fiéis em um local condenado". Bispo Gê ainda anunciou que indenizará as famílias das vítimas.

Prefeitura e Renascer passaram o dia de ontem tentando se eximir da responsabilidade pelo desabamento. A igreja tinha alvará de funcionamento expedido em 15 de julho de 2008, acompanhado de um laudo técnico assinado pelo engenheiro Carlos Alberto Freire de Andrade Neto atestando a segurança.

Segundo o secretário de Habitação, que assumirá em breve a de Controle Urbano, Orlando Almeida, os técnicos do Contru só são obrigados a checar as saídas de emergência e os equipamentos de segurança, mas não as condições estruturais do imóvel. "Isso é responsabilidade do proprietário", disse ele. A Renascer limitou-se a afirmar que tem alvará válido até 2009.

O Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea/SP) informou que o engenheiro Andrade Neto, que assinou o laudo técnico, poderá ser responsabilizado criminalmente pela tragédia. A entidade também vai investigar o desabamento.

O que nem o governo nem a Igreja conseguiram esclarecer é que o teto do templo da Renascer passou por uma reforma "total" entre setembro e novembro de 2008, que não foi comunicada à Prefeitura. A informação do deputado estadual José Antonio Bruno (DEM), bispo primaz da Igreja, é que o telhado e as telhas foram trocados. Pela legislação municipal, o Contru deveria ter sido informado previamente sobre a obra, o que não ocorreu, segundo a Secretaria da Habitação. O templo, portanto, estava irregular e passível de fechamento.

A promotora Mabel Tucunduva, da Promotoria de Habitação e Urbanismo do Ministério Público Estadual, disse que, em 1998, instaurou procedimento para apurar as condições de funcionamento de templos e igrejas da capital. Na ocasião, um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) apontou "risco de ruína total ou parcial da estrutura (de sustentação do telhado)".

Após a reforma, no ano seguinte, um engenheiro, um arquiteto e o próprio IPT liberaram a sede da Renascer. "É inadmissível que, dez anos depois, esse telhado tenha ruído", disse a promotora, que agora pretende investigar os demais templos da Renascer na cidade. O promotor Ricardo Andreucci vai acompanhar o inquérito sobre o acidente, instaurado na 1ª Delegacia Seccional. Na segunda, seis pessoas foram ouvidas.

A Secretaria da Habitação informou que recebeu apenas um pedido de alvará de funcionamento da Renascer em dez anos. A pasta disse ainda que, se o proprietário não pede o alvará, "está sujeito a fiscalizações". Ainda assim, não soube esclarecer por que o local não foi vistoriado antes.

Igreja usa mídia própria para falar em 'milagre'

A Igreja Renascer utilizou na segunda-feira, 19, toda a sua estrutura de comunicação - rádio, TV e portal - para se defender das acusações de negligência no desabamento de domingo e atribuir a um "milagre" não terem ocorrido mais mortes do que as nove registradas. Uma mensagem do comando dizia que a Renascer estava "estarrecida e chocada" com o ocorrido.

Na maior parte do tempo, porém, a tragédia foi ignorada nas emissoras da entidade. "Venha estar conosco nas Igrejas Renascer em Cristo, que continuam com suas atividades normais."

Na internet, pastores e seguidores da Renascer afirmaram que o acidente ocorreu porque "Deus sabe o que faz" e que "tudo estava sob controle absoluto de Deus". "Vamos agradecer a Ele esse grande livramento: se o teto tivesse caído na hora do culto, agora poderíamos contar mais de 500 mortos. Louvemos a Deus", dizia uma mensagem no site da Igreja.

Contrastando com o clima de consternação geral, um pastor disse no início da tarde de ontem, na Rádio Gospel FM (90,1 MHz, em São Paulo, emissora da Renascer), que a segunda-feira era um dia de "muitas vitórias e milagres", apesar do ocorrido. Outro apresentador falou que "jamais houve irresponsabilidade na Renascer". "Temos toda a documentação, laudos, vistorias", declarou. Em seguida, disse que "Satanás está criando mentiras sobre o desabamento".

Também foram feitos apelos na Rede Gospel de Televisão, que ficou o dia todo com uma tarja preta no canto da tela, para que fiéis doassem sangue em favor dos feridos, no Hospital das Clínicas. Quem aparecia era o ex-deputado estadual Geraldo Tenuta Filho, o Bispo Gê, presidente da Renascer. Uma lista com o nome dos feridos foi feita pela Renascer e pode ser consultada no site. A relação, porém, ignora as nove mortes.

Ânimos exaltados

Rivais na busca pela audiência, Globo e Record apresentaram em seus telejornais cobertura parecida sobre a tragédia. O tom da notícia, no entanto, foi mais duro na emissora líder de ibope do que na Record, rede que tem como acionista a também evangélica Igreja Universal.

O estado exaltado de alguns fiéis que tentavam impedir o trabalho de jornalistas na área do acidente também foi retratado nos dois canais. Segundo a Central Globo de Comunicação, a repórter Maria Manso e o repórter cinematográfico Ronaldo de Sousa foram agredidos por um grupo de pessoas que montaram cordão de isolamento, impedindo a passagem da equipe no local do desabamento. As agressões, no entanto, ficaram de fora da edição dos telejornais.

As redes católicas de TV estão tratando de forma diferente a tragédia no templo evangélico. Ontem, por exemplo, a Rede Vida ignorou o fato em seu telejornal das 18 horas. "Nossa linha editorial é não registrar tragédias", explica o diretor de jornalismo, Monteiro Neto. "Na época do Caso Isabela, queríamos ser um oásis para nosso telespectador, que só encontrava a tragédia nos outros canais." De acordo com o diretor, uma das intenções da missa noturna de ontem seria "pelas vítimas do desabamento em São Paulo", sem citar a Igreja Renascer.

Já a TV Canção Nova e a TV Aparecida noticiaram o fato em seus telejornais, mas sem qualquer especulação de causas e sem citar polêmicas.

Casal Hernandes pode voltar ao Brasil em junho

Estevam e Sonia Hernandes, fundadores e líderes da Igreja Cristã Apostólica Renascer em Cristo, podem voltar ao Brasil a partir de junho, quando terminam de cumprir o período de liberdade condicional nos Estados Unidos. A informação é do advogado do casal, Luiz Flávio Borges D’Urso, também presidente da seccional de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)

ondenados por conspiração e contrabando, em agosto de 2007, eles já passaram 140 dias em uma cadeia americana e cinco meses em prisão domiciliar, além de pagar multa de U$ 30 mil cada um. O Ministério Público de São Paulo chegou a pedir a extradição do casal para o Brasil, onde responde por crimes como lavagem de dinheiro, mas o pedido foi suspenso por uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro.

O casal foi preso em janeiro de 2007 no Aeroporto de Miami ao tentar entrar no país com US$ 56.467 escondidos em uma Bíblia, em CDs gospel e em duas bolsas, embora tivessem declarado à alfândega U$ 10 mil cada um.

No Brasil, os Hernandes respondem por lavagem de dinheiro, estelionato e falsidade ideológica na 1ª Vara de Justiça Criminal de São Paulo - os advogados de defesa tentaram arquivar o processo, mas o STF rejeitou o pedido. Na denúncia, o Ministério Público de São Paulo refere-se à segunda maior comunidade neopentecostal do País como uma "organização criminosa montada para lavar dinheiro proveniente de estelionato". O MP levantou cerca de cem ações civis por cobrança de dívidas contra integrantes da Igreja - são processos trabalhistas, fiéis reclamando que foram obrigados a fazer doações, locatários que nunca receberam o dinheiro de aluguéis dos templos.

Sonia e seu filho, Felipe Daniel Hernandes, chamado de bispo Tide, respondem por outro processo, na 1ª Vara Criminal, pela propriedade da torre de TV que pertence à Igreja Renascer e transmite a programação da Rede Gospel, localizada na esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista. Segundo denúncia dos promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), apesar de ter sido construída com contribuições de fiéis, a torre pertence à FH Comunicações - empresa de Sonia e seu filho.


Mercadores da fé


Tantos escândalos abalaram a fé de alguns fiéis e provocaram rachas na Renascer. Um grupo de ex-pastores e missionários tenta se organizar para fundar uma outra Renascer, por enquanto chamada de Associação Renascer. Dissidentes criaram páginas na internet com denúncias contra seus integrantes.

Um deles, O Fuxico Renascer - Os Bastidores da Dissimulação, é alimentado por ex-fiéis descontentes. Alguns dos comentários sobre a queda do teto do templo atribuíam a tragédia à "justiça Divina", colocavam questões como "a Força do Mal é maior que a do Bem?", acusavam a Renascer de "usar a palavra de Deus exclusivamente para seus interesses" e pediam orações pelos "falecidos, enganados como milhões de pessoas".

O casal é dono de um patrimônio estimado em R$ 20 milhões, que inclui uma mansão em Boca Raton, na Flórida (EUA) - avaliada em U$ 465 mil - e uma fazenda de 45 hectares em Mairinque, a 70 km de São Paulo, comprada pela Igreja em 2001 por R$ 1,8 milhão. Os bens estão bloqueados pela Justiça e não podem ser vendidos.

O casal que arrebatou milhões de fiéis levava uma vida normal antes de fundar a Igreja, em 1986. Ele, um ex-corretor de imóveis. Ela, vendedora de roupas. O império religioso começou a ser construído na casa dos dois, onde eram realizadas orações em grupo. E, desde o início, era gerido como empresa. Foi a primeira Igreja do País a apostar na classe média e no público jovem, e a tentar popularizar a cultura gospel com uma programação moderninha, capitaneada por Sonia na TV.

Hoje, a Fundação Renascer, mantenedora do império construído pelo casal, tem 1.500 templos no Brasil, com 60 "bispos" - nomeados por Hernandes - e cerca de 2.500 pastores, redes de rádio e TV, uma gravadora, uma editora e filiais em países como Argentina, Uruguai, Espanha, EUA e Japão.

Nona vítima identificada

A identidade da 9ª vítima do desabamento na sede da Igreja Renascer foi divulgada na manhã desta terça-feira, 20. Ana Lúcia de Souza Menezes, de 39 anos, havia sido identificada apenas na tarde da segunda-feira, 19, mas sua identidade não havia sido divulgada. O corpo da vítima foi liberado pelo Instituto Médico Legal (IML) às 21h40 após a presença de familiares.

O corpo da carioca estava no IML desde o acidente e não tinha sido identificado porque não estava com os documentos. Um exame de papiloscopia permitiu que a polícia localizasse uma irmã e um cunhado de Ana Lúcia no final da tarde de segunda em Moema, na zona sul da capital paulista, segundo informações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

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