Aparecimento de onça causa alvoroço em vilarejo do Pará

Vila Anapolina fica a 110 quilômetros da capital do estado. Especialista explica o que fazer se você estiver cara-a-cara com o animal.

Ela fez apenas uma pequena visita, e depois desapareceu. Ainda assim, os moradores da Vila Anapolina, em Santa Maria do Pará – a 110 km de Belém – resolveram chamar o Ibama para se assegurarem de que a onça parda não iria reaparecer. Os técnicos chegaram com dardos tranqüilizantes e com um atirador treinado para capturar animais. A onça, porém, não deu mais o ar da graça.


Por comer animais menores, onça parda consegue sobreviver em locais degradados. (Foto: Trisha Shears/Wikimedia Commons)

Para acalmar os moradores, os funcionários do Ibama fizeram uma palestra explicando o que fazer caso o animal aparecesse novamente. Segundo o chefe da Divisão de Fauna e Pesca do Ibama do Pará, Alex Lacerda, que esteve na Vila Anapolina, há poucos casos comprovados de ataques de onças, mas é importante saber o que fazer no caso de estar frente-a-frente com o bicho.

Equipe do Ibama faz vistoria em local em que onça foi vista. (Foto: Ibama/Divulgação)

“O que não se pode fazer em hipótese alguma é dar as costas e correr, pois os felinos atacam a parte de trás do pescoço. [Se der as costas,] você está praticamente pedindo que ele te ataque”, adverte Lacerda. “Você tem que ter contato visual e se afastar aos poucos. Isso não é garantia de que você não irá ser atacado, mas diminuiu muito o risco.”

O funcionário do Ibama avisa que um dos maiores erros é tentar capturar ou mexer com o animal, pois o risco de ataque aumenta, principalmente se a onça for ferida. “E matar onças é rime ambiental, com pena de seis meses a um ano, mais multa de cinco mil reais”, avisa. “Só não é considerado crime é se a pessoa matar para se defender.”

Fuga do desmatamento

Na Vila Anapolina, os técnicos do Ibama planejam fazer fiscalizações para descobrir por que a onça tem saído da mata. “Se ela está chegando próxima das casas é porque está havendo um desmatamento onde ela habita”, afirma Lacerda. Segundo ele, não é comum onças chegarem perto de vilas e cidades. “Ela pode estar ferida ou com fome”, pondera.


Destruição das florestas diminui população de onças pintadas. (Foto: Lea Maimone/Wikimedia Commons)

Como se alimentam de outros mamíferos, as onças precisam de grandes áreas para a caça. Com o desmatamento, a população do animal tem diminuído. A espécie mais afetada é a onça pintada, que é a maior e se alimenta de animais grandes. “A onça parda é de menor porte, e tem uma gama de presas maior. Por isso ela consegue viver em áreas degradas”, explica o funcionário do Ibama.

Onças e homens

Para quem quiser saber mais sobre como homens e onças podem conviver pacificamente, é possível ler, na internet, o “Guia de convivência gente e onças”, lançado pela Fundação Ecológica Cristalino, de Mato Grosso, no final de 2008. O livro, voltado para pecuaristas do Pantanal e da Amazônia, dá dicas de como proteger o gado dos ataques do felino e lista uma série de motivos para que não se matem as onças pintadas.

Livro ensina pessoas a conviverem pacificamente com onças

Segundo autor do livro, são raríssimos os ataques de onças a humanos quando elas não são provocadas. (Foto: Divulgação)

É possível que seres humanos e onças pintadas consigam compartilhar em paz o mesmo ambiente? O livro “Guia de convivência gente e onças”, lançado recentemente pela Fundação Ecológica Cristalino, de Mato Grosso, diz que sim. Focando pecuaristas do Pantanal e da Amazônia, a publicação dá dicas de como proteger o gado dos ataques do felino e lista uma série de motivos para que não se matem as onças pintadas.

Segundo o biólogo Sílvio Marchini, autor do livro, o desaparecimento do animal não se deve apenas à perda de seu ambiente natural, mas também a uma cultura de matar onças. “No Pantanal, por exemplo, caçar onça é uma tradição. Eles encaram isso como parte da identidade pantaneira”, afirma. “Por outro lado, na fronteira agrícola [onde começa a floresta amazônica] há uma população que veio de locais onde não existem mais onças, ou nem mesmo florestas, que muitas vezes são vistas como um obstáculo a ser vencido.”

Para muitos fazendeiros, a onça é encarada como um prejuízo à sua atividade econômica. De acordo com Marchini, nos locais onde o animal ainda é comum, os ataques do felino são responsáveis pela perda de 1 a 2% do rebanho todo ano. Por causa disso, seu livro tem uma seção especial explicando como os fazendeiros podem proteger seus bois do animal sem matá-lo.

Uma das dicas é não caçar as presas naturais das onças, como veados e porcos-do-mato. Outra recomendação é manter os bezerros e as vacas prenhes perto da sede da fazenda, evitando que eles fiquem próximos às áreas preferidas pelas onças.

Ataque a humanos


O grande medo que as pessoas sentem do felino brasileiro é exagerado, segundo o autor do livro. “Talvez tenhamos esse medo inato. Mas não temos medo dos perigos modernos, como acidentes de carro ou colesterol, que matam muito mais”, argumenta. Segundo Marchini, são raríssimos os casos em que onças atacam sem ser provocadas.

Na publicação, ricamente ilustrada, um gráfico mostra que mosquitos, cobras, abelhas e até mesmo os cães domésticos são responsáveis por muito mais mortes de pessoas ao redor do mundo do que as onças.

Coleção de argumentos


O perigo de extinção das onças pintadas se deve principalmente à grande área necessária para sua sobrevivência. No Brasil, um único macho pode demarcar uma área de até 100 quilômetros quadrados, onde não permite que outros machos entrem. Segundo o biólogo, isso faz com que reservas ou parques inteiros não sejam suficientes para abrigar uma única família de onças.

Um dos efeitos colaterais da necessidade de espaço desses animais é que eles acabam saindo de áreas protegidas, entrando em fazendas e se expondo a perigos. “As áreas dos entornos dos parques acabam sendo um sumidouro dessas espécies. Eles saem dos parques e acabam morrendo. A longo prazo, as populações desaparecem”, afirma Marchini. “Essa constatação reforça a importância de mudar a cabeças das pessoas que vivem nos entornos dos parques”, defende.

Além de motivos ecológicos – como o equilíbrio dos ecossistemas pantaneiro e amazônico –, no livro o biólogo cita razões econômicas, culturais e até mesmo emocionais para que são se matem as onças pintadas. “Pela mesma razão que tombamos edifícios históricos e abrigamos obras de arte em museus, nos sentimos apegados às onças o suficiente para preferir que elas continuem existindo”, diz trecho da publicação.

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