Antes criticadas, as empresas com dinheiro agora são invejadas: sofrem menos com a falta de crédito e encaram a crise com mais tranqüilidade
Por Fabiane Stefano
Nada como uma crise financeira para expor as contradições do mercado. No começo de 2008, as empresas que mantinham o caixa cheio de dinheiro viam-se questionadas por adotar uma estratégia conservadora. Eram acusadas de deixar o dinheiro parado - um péssimo negócio, segundo a maioria dos analistas - quando o mundo oferecia tantas oportunidades para empreender e lucrar. Trata-se de uma crítica recorrente no mundo das finanças corporativas nos tempos de vacas gordas - até Bill Gates já a ouviu por tradicionalmente manter bilhões de dólares na conta da Microsoft. Bem, a crise veio, atingiu as bolsas de valores de todo o mundo e congelou o crédito. Nas primeiras semanas após o ápice do pânico no mercado financeiro, o crédito para empresas desapareceu - ou apareceu a um custo exorbitante. Diante do cenário de escassez, subitamente mudou a imagem das companhias antes criticadas por sentar nos próprios caixas: elas agora são vistas como ilhas de tranqüilidade, num mar de companhias descapitalizadas que clamam por crédito. É algo semelhante ao que ocorre com o próprio país. Há pouco tempo, havia quem criticasse o Banco Central por ter acumulado 200 bilhões de dólares. Hoje, a existência dessa reserva é saudada como um fator de alívio para o Brasil em meio à derrocada das finanças mundiais, que deixou muitos países sem margem de manobra.
"A empresa que tem um bom caixa enfrenta a crise com mais facilidade e acaba fortalecida no final", diz Marcel Malczewski, presidente da Bematech, fabricante de equipamentos de automação comercial de Curitiba - ela mesma um alvo de críticas nos tempos de bonança. Boa parte dos 150 milhões de reais que a Bematech mantém hoje em caixa é sobra da abertura de capital, realizada em 2007. O dinheiro cobre com folga as dívidas de curto e longo prazo e, de acordo com Malczewski, deverá ser utilizado em algum momento para aquisições de empresas de software. Mas, enquanto as oportunidades não surgem, os recursos ajudam a Bematech a enfrentar as necessidades financeiras do dia-a-dia sem precisar recorrer a linhas de capital de giro do mercado - que hoje só oferece opções muito caras. "Se a crise perdurar, temos como segurar o rojão", diz ele. Nesse quadro, uma antiga expressão utilizada nos Estados Unidos, que andava meio em desuso durante a época do crédito farto, voltou à moda: cash is king (o caixa é o rei, numa tradução livre).
Assim como o pulmão no ser humano, o caixa é o canal das entradas e saídas diárias de dinheiro que oxigenam uma empresa. É ele quem dá fôlego para bancar as obrigações do dia-a-dia, como o pagamento de funcionários, impostos e fornecedores. A boa administração manda que as companhias operem com uma folga no caixa para não ser surpreendidas pelo imponderável (o problema das épocas de fartura é justamente que o imponderável parece não existir). "Se a partir de amanhã nenhum centavo entrasse no caixa da companhia, ainda teríamos recursos para operar por dois anos", diz Luiz Largman, diretor de relações com os investidores da construtora Cyrela, que tem hoje quase 4 bilhões de reais disponíveis. A pedido de EXAME, a consultoria Economática fez com exclusividade um levantamento da situação de companhias de capital aberto na Bovespa, ao final do terceiro trimestre de 2008. Foram analisadas 206 empresas, que somavam, juntas, valores a receber de 287 bilhões de reais no prazo de um ano versus obrigações a pagar de 193 bilhões com vencimento no mesmo período. É essa diferença que constitui o chamado índice de liquidez corrente, utilizado para analisar a capacidade de pagamento de uma empresa no curto prazo. De acordo com o trabalho da Economática, esse grupo de companhias aumentou a liquidez corrente em 46% de 2003 para cá, após enfrentar um aperto no início da década.
Situação controlada
O fato é que ciclos de contração de crédito não são novidade, e muitas empresas brasileiras aprenderam que é preciso ser previdente. Cada uma das sucessivas crises que ocorreram nas economias emergentes desde os anos 90 - como as da Ásia, da Rússia e da Argentina - foi seguida pelo imediato fechamento das linhas de crédito internacional. A Klabin foi uma das empresas que tiraram lições dos problemas do passado. Em 2002, a fabricante de papel e celulose não tinha caixa para suportar seu endividamento, de curto prazo e atrelado ao dólar. Na época, a situação ficou tão dramática que a Klabin suspendeu pagamentos para credores e teve de renegociar sua dívida com o BNDES. Uma vez superadas as dificuldades, a empresa adotou uma gestão mais conservadora. "A estratégia é ter em caixa o valor das dívidas que vencem nos próximos três anos", diz Antonio Sergio Alfano, diretor financeiro da Klabin. A ordem lá hoje, de acordo com ele, é gastar apenas o necessário para segurar o dinheiro dentro da companhia. "Cerca de 90% das empresas costumam fazer caixa por precaução, mas há também um componente oportunista nessa história", diz Henrique Vianna, diretor do HSBC Empresas. "Quem tem dinheiro na mão em épocas de crise consegue fazer negócios vantajosos, como comprar um concorrente em dificuldades por preço baixo." Sempre atento a oportunidades, o investidor americano Warren Buffett aproveitou a baixa das bolsas de valores para investir
5 bilhões de dólares no banco Goldman Sachs e 3 bilhões na GE entre setembro e outubro. Em ambos os casos, Buffett negociou o direito de receber dividendos e de comprar mais ações das duas companhias nos próximos cinco anos por um preço inferior ao da data de seu investimento (vale lembrar que os papéis do Goldman e os da GE caíram de lá para cá).
É fácil entender as vantagens de um caixa parrudo em épocas de escassez de crédito, mas a administração dessa conta no dia-a-dia é complexa. Empresas que represam demais os recursos costumam ser tachadas de companhias sem perspectiva clara de futuro, pois deveriam direcionar esse dinheiro para reinvestir no próprio negócio, o que, em tese, seria mais lucrativo. No Brasil, em geral, o dinheiro em caixa normalmente é aplicado em ativos de renda fixa, como CDBs, e oferece rendimentos de não mais que 12% ao ano. É justamente por isso que os acionistas costumam chiar. "Do ponto de vista do investidor, se é para deixar o dinheiro em renda fixa, a empresa deveria distribuir dividendos e deixar essa decisão para o dono do dinheiro", diz Einar Rivero, diretor da Economática. Às vezes, isso leva a divergências entre acionistas e gestores das empresas. Os fundos de investimento que têm participação minoritária na Telemig Celular conseguiram marcar para janeiro uma assembléia para pleitear uma distribuição extraordinária de dividendos, uma vez que a operadora mineira tem em caixa cinco vezes mais do que sua dívida bruta. Mas o conselho de administração da empresa já avisou que tentará segurar o dinheiro por não considerar prudente uma distribuição neste momento. A concessionária de rodovias CCR, por outro lado, optou por distribuir 403 milhões de reais em dividendos em setembro. "Fizemos isso porque não temos previsão de realizar um grande investimento, então preferimos ter uma política agressiva de distribuição dos lucros", diz Renato do Vale, presidente da CCR. Mas a empresa não descuida do caixa: agora está fazendo a emissão de debêntures para levantar 500 milhões de reais, o que elevará sua reserva para 1,1 bilhão.
Com folga nas contas
É claro que o caixa é uma fotografia estática e reflete apenas parte da situação financeira de uma empresa. Para os analistas, o que interessa no longo prazo é olhar sua relação com o endividamento. "O importante é saber se a geração de caixa dá conta das dívidas da empresa", diz Rivero, da Economática. E, para o dinheiro continuar entrando, é necessário que o ritmo da atividade continue em níveis consistentes - o que, em diversos setores da economia brasileira, pode não ocorrer em 2009. Nesses casos, o jeito é diminuir o ritmo de saída do dinheiro, colocando em prática corte de custos ou postergando investimentos. De qualquer forma, o importante é não deixar o caixa minguar, porque, pelo menos enquanto a crise perdurar, ele continuará a ser rei.
Nenhum comentário:
Postar um comentário