
Tanques israelenses se posicionam na fronteira; líder do Hamas propõe cessar-fogo, segundo Conferência Islâmica
GAZA - A aviação israelense continua a atacar a Faixa de Gaza nesta segunda-feira, 29. O número de mortos já chega a 307, de acordo com a agência Reuters. Israel começou a preparar-se para uma incursão terrestre de larga escala. Cerca de 6.500 reservistas foram convocados e tropas se posicionam na fronteira de Israel ao norte do território palestino. O governo israelense declarou a faixa de Gaza como 'zona militar fechada', informaram fontes da Reuters. Esse gesto pode ajudar o país a realizar um ataque terrestre. O fechamento significa que civis e jornalistas podem ser barrados de entrar na região. Esta ofensiva já é considerada a mais sangrenta desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
O governo israelense afirma agir em resposta aos quase 150 foguetes lançados pelo Hamas contra o sul de seu território desde o fim do cessar-fogo de seis meses com o grupo, há dez dias. Os ataques palestinos causaram pânico na população, mas deixaram apenas uma vítima. Mesmo sob a violenta ofensiva israelense, mais de 20 foguetes foram lançados ontem.
O soldado israelense Gilad Shalit, capturado por três milícias palestinas em junho de 2006, teria sido ferido após uma das incursões da Força Aérea Israelense, em retaliação, informaram fontes do Hamas à uma rede de televisão egípcia. Não foi informado sobre as condições do refém, nem sobre como ele teria sido ferido.
Novos ataques
Os ataques desta segunda-feira se concentram na cidade de Gaza. O Ministério do Interior do Hamas foi destruído. A Universidade Islâmica de Gaza, que estava vazia, também foi atacada. Cinco mísseis atingiram o edifício de laboratórios da universidade. Segundo o Exército de Israel, o local era utilizado na fabricação de foguetes, explosivos e material eletrônico para o Hamas.
Um ataque aéreo contra a localidade de Yabaliya, no norte do território palestino, matou ao menos quatro meninas, com idades entre um e 12 anos, todas da mesma família, que viviam próximo a uma mesquita alvo de ataques. Outros dois menores morreram em um ataque contra Rafah, no sul da Faixa de Gaza, segundo fontes médicas. O outro morto é um ativista do Hamas.
Na noite de domingo, F-16 israelenses bombardearam várias instalações de segurança e quartéis da Polícia do movimento islâmico Hamas, além de prédios, veículos e outros alvos. Entre os últimos pontos bombardeados ontem está uma delegacia situada no campo de refugiados de Beach, na Cidade de Gaza, que ficou completamente destruída, segundo contaram testemunhas na região.
Fontes de segurança do Hamas disseram que Israel realizou no domingo mais de 50 bombardeios, em um dos quais foi destruída uma prisão do Hamas. Um porta-voz do Exército israelense disse que nos últimos dois dias foram atingidos 240 alvos palestinos em Gaza.
Balanço
Os bombardeios incessantes de Israel - cerca de 300 operações aéreas desde o meio-dia de sábado - causaram uma destruição sem precedentes em Gaza, reduzindo edifícios inteiros a escombros.
Shlomo Brom, um ex-alto oficial militar israelense, disse que esta é a força mais letal usada em décadas de conflito palestino-israelense. "Desde que o Hamas tomou Gaza (em junho de 2007) isso se tornou uma guerra entre dois Estados, e na guerra entre Estados, mais força é usada", disse.Os nove hospitais de Gaza estão superlotados com baixas.
Ehud Barak diz que Israel fará 'guerra sem trégua'
O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, justificou os ataques à Gaza dizendo que a paciência de Israel se esgotou quando o Hamas lançou quase 150 foguetes contra o sul de seu território desde o fim do cessar-fogo de seis meses com o grupo, há dez dias.
Ele afirmou que a ação em Gaza - que ganhou o nome de "Operação Chumbo Grosso" - deve continuar e poderá ser "aprofundada e ampliada, caso necessário". "Nós não temos nada contra o povo de Gaza, mas estamos em uma guerra sem trégua contra o Hamas e seus aliados", afirmou o ministro nesta segunda-feira. Ele disse ainda que o objetivo é terminar com as ações hostis contra os civis israelenses.
"Qualquer outra nação teria feito o mesmo" é o discurso oficial do governo israelense. Apesar da crítica internacional massiva contra a resposta com força desproporcional, é possível perceber a pressão doméstica que o governo sofre pela forma como lida com o Hamas.
'A culpa é do Hamas'
A chanceler israelense, Tzipi Livni, voltou a responsabilizar o Movimento Islâmico de Resistência Hamas pela ofensiva militar israelense contra o território palestino de Gaza. "Eu espero que a comunidade internacional, inclusive todo o mundo árabe, envie uma mensagem clara ao Hamas: ''A culpa é sua. A responsabilidade é sua. São vocês que estão sendo condenados. Vocês não vão obter legitimidade da comunidade internacional dessa maneira. A responsabilidade pelas vidas dos civis em Gaza está em suas mãos''", disse Livni durante entrevista ao programa Meet the Press, da rede norte-americana de televisão NBC.
A ministra disse que conversou no sábado com a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, e que vem mantendo contato com líderes norte-americanos. Segundo Livni, um dos porta-vozes da Casa Branca, Gordon Johndroe, disse que "essa gente (Hamas) não passa de bandidos, e, por isso, Israel deve defender seu povo contra terroristas como o Hamas".
Em contraste, a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Européia e a Rússia exortaram Israel a suspender imediatamente suas operações militares na Faixa de Gaza.
Livni afastou a possibilidade de Israel reocupar o território, de onde o país se retirou em 2006, afirmando que "não é este o objetivo" da ofensiva. Indagada se Tel-Aviv pretende retirar o Hamas à força do poder, Tzipi disse que "não dessa vez" - o Hamas governa o território há um ano e meio. A chanceler espera vencer o linha dura Binyamin Netanyahu para se tornar a próxima primeira-ministra israelense nas eleições de 10 de fevereiro.
Planejamento
Diferente da resposta confusa e improvisada que Israel realizou contra o Hezbollah no Líbano, em 2006, a "Operação Chumbo Grosso" teve seis meses de planejamento secreto, segundo correspondentes e analistas ouvidos pelo jornal britânico The Guardian. A preparação mapeou bases e alvos importantes para atingir o âmago do Hamas.
O gabinete da Defesa de Israel se reuniu durante 5 horas no dia 19 de dezembro e deixou o horário do primeiro ataque a ser determinado pelo ministro Ehud Barak.
Armas avançadas
Bombas, muitas e guiadas eletronicamente; mísseis de longo alcance e alta precisão; blindados protegidos por cascos cerâmicos e, aguardando na linha divisória, a poderosa Divisão Barak, tropa de elite do Exército. No ataque iniciado em Gaza há três dias, as forças israelenses estão usando equipamentos novos ou em versões de tecnologuia avançada.
É um sistema integrado. Sob o olho eletrônico do satélite militar Ofek-7 - lançado em julho ao custo de US$ 80 milhões - orbitando no limite de 600 km e enviando fotos, imagens digitais e dados estratégicos de toda a região, os supersônicos americanos F-16 Block 60, os mais novos da linha, lançam bombas inteligentes do tipo GBU-39, dotadas de guiagem a laser e navegação por satélite/GPS de alta definição.
A GBU-39 é uma arma leve, de apenas 113 kg e 1,75 m, com capacidade para transportar o explosivo HE² de alta potência: os 23 kg a bordo da GBU-39 destroem uma casa. A versão de penetração atravessa 90 centímetros de concreto antes da detonação. A Boeing Company, fabricante, iniciou em setembro a entrega de um lote de mil unidades, mais simuladores, documentação técnica e instrução.
Dotada de asas, acionadas depois do lançamento, percorre de 20 km até 110 km em vôo planado para chegar ao alvo. O índice de erro é estimado em pouco mais de 50 centímetros. A capacidade permite que os caças disparem as bombas sem sair do espaço aéreo de Israel.
Não é o único recurso. A Força Aérea emprega artefatos do mesmo tipo, embora uma geração tecnológica mais antiga, de 250 kg a 900 kg, da família Paveway, fornecidos pelos EUA.
De acordo com o Ministério da Defesa israelense, no sábado foi bombardeado um "centro de atividades terroristas" na cidade palestina de Khan Yunis. A operação foi executada por um único F-16 usando um míssil Popeye-4, ar-terra, segundo o porta-voz Avi Benyahou. Desenvolvido conjuntamente pela israelense Rafael e a americana Lockheed-Martin, o Popeye integra dois sistemas de direção: satélite infra-vermelho, um navegador inercial e TV digital. É grande (4,82 m), pesado (1.360 kg), leva 340 kg de explosivos e tem alcance de 78 km. O prédio atingido, aparentemente uma mesquita, foi destruído.
A provável ação terrestre de Israel ficará por conta da Divisão Barak (Raio), denominação oficiosa de uma experimentada tropa de elite. O grupo, formado por 5 mil homens e mulheres, é o mesmo que esteve no sul do Líbano em 2006. Os times de assalto estão equipados com o tanque pesado Merkava IV, um gigante de 65 toneladas e quase 10 metros de comprimento. Redesenhado e com a couraça reforçada por blindagem cerâmica, o Merkava carrega um canhão de 120 mm preparado para disparar munição supersônica e cinética, feita de urânio exaurido. Extra-rígido, o projétil libera, no impacto, energia térmica acima de mil graus. A vanguarda da Barak usa blindados M-113, de 12 toneladas. A bordo, 2 tripulantes e 11 soldados equipados.
Obama acompanha incursão israelense, mas não se pronuncia
O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, acompanha a ofensiva israelense contra o Hamas na Faixa de Gaza, direto do Havaí, onde está de férias, informou o assessor David Axelrod. Ele estaria em contato com o presidente, George W. Bush, e com a secretária de Estado, Condoleeza Rice.
"O presidente Bush responde pelos Estados Unidos até 20 de janeiro e nós respeitamos isso", apontou o assessor. Ele reconheceu que o país tem uma "relação especial" com Israel. "Obama trabalhará muito próximo dos israelenses. São um grande aliado, o mais importante na região", comentou. "Obama fará um trabalho para promover a paz e trabalhará estreitamente com os israelenses e os palestinos", disse.
Líder do Hamas está disposto a assinar cessar-fogo em Gaza
O líder do partido Hamas, Khaled Meshaal, afirmou que está disposto a assinar um cessar-fogo em Gaza, o que poderia significar o fim de ataques israelenses e bloqueio do território, segundo informações do Ministério dos Negócios Estrangeiros nesta segunda, 29, no Senegal.
Segundo a agência Efe, o ministério disse que a proposta de trégua em Gaza foi feita através de um telefonema de última hora no domingo, 28, pelo Presidente senegalês Abdoulaye Wade, o atual líder da Organização da Conferência Islâmica (OCI, na sigla em Inglês). "O líder do Hamas disse que ele estava pronto para assinar o acordo em um local escolhido por ambos os lados", o ministério disse em uma declaração.
O comunicado não deu outros detalhes. Em outra notificação, Wade condenou um ataque aéreo israelense em Gaza como "inaceitável". "O atual presidente da OIC exige que Israel pare imediatamente os bombardeios e se abstenha de ataques em território palestiniano", disse.
Cerca de 150 foguetes foram disparadas no sul do Estado judeu em dois dias, segundo o exército israelense, dois dos quais caíram perto do porto de Ashdod, sem vítimas. Um porta-voz do Hamas, Fawzi Barhoum, incitou grupos palestinianos a utilizarem "todos os meios possíveis, incluindo ataques suicidas" contra Israel.
Países vizinhos
No Líbano, o último país onde Israel lançou uma ofensiva no Verão de 2006, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, apelou aos seus lutadores para estarem prontos para um possível ataque. O líder xiita afirmou que as forças israelenses estavam em alerta desde sábado ao longo da fronteira com o Líbano, de acordo com o Le Monde
A Síria tem feito uma resposta diplomática pela interrupção da paz indireta às negociações com Israel, que estavam suspensas desde o anúncio da renúncia de Olmert. Em vários países árabes, os manifestantes queimaram bandeiras israelenses e americanas e convidou os seus líderes para responder mais fortemente contra o ataque à Faixa de Gaza.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, reuniu-se com Ehud Olmert, presidente palestiniano, Mahmoud Abbas e outros dirigentes regionais, para repetir o apelo para a cessação das hostilidades, segundo um comunicado emitido pelo seu porta-voz. De acordo com este texto, Israel está comprometido com o coordenador das operações humanitárias das Nações Unidas em Gaza para permitir a comboios de emergência. No domingo, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha enfatizou que os hospitais na Faixa de Gaza são incapazes de lidar com o afluxo de acidentes e falta de equipamentos.
Ataques
Segundo informações da Haaretz, um israelense foi morto e 14 outros foram feridos por um ataque de mísseis palestinos que explodiram perto de uma construção na cidade costeira de Ashkelon
Maior parte dos feridos são trabalhadores da construção da vila galiléia de Manda e da cidade beduína de Rahat. Cinco estão em estado grave, quatro estão em estado moderado e cinco sofreram ferimentos leves.
Apesar dos pedidos das autoridades para o público evitar permanecer em grupo em ambientes abertos, curiosos permaneciam reunidos no local.
Pelo menos 17 mísseis foram atirados em Israel desde a manhã de segunda - nove dos quais atingiram Ashkelon, cinco atingiram Sderot e outros quatro atingiram vários distridos a oeste de Negev. Uma casa em Sderot foi atingida em cheio.
No domingo, palestinos baseados em Gaza lançaram um ataque de pelo menos 40 mísseis no oeste de Negev, enquanto a Força Aérea Israelense continuava patrulhando o território costeiro.
Dois mísseis Katyusha, com diâmetro de 122 mm, explodiram perto de Ashdod no domingo. A mais de 30 quilômetro de Gaza, este foi o mais fundo dentro de Israel que um míssil palestino já chegou a atingir.
Segundo a BBC, os mísseis, que são versões melhoradas dos mísseis palestinos, têm alcance de mais de 40 quilômetros. Os méssis particulares que atingiram no domingo viajaram por cerca de 35 quilômetros.
A maior parte do arsenal dos militantes palestinos é composta de foguetes improvisados - pouco mais do que canos com abas metálicas soldadas na ponta, cheios de explosivos.
Embora eles raramente matem, são projetados para isso e são lançados indiscriminadamente. Em uma ocasião foram lançados em um momento que coincidiu com a hora de ingresso dos alunos na escola.
Os moradores de comunidades na linha de fogo se acostumaram a planejar suas vidas em torno dos locais onde há abrigos de concreto reforçado.
Com apenas 15 segundos de alerta, os que vivem em um raio de 10 quilômetros da Faixa de Gaza sabem que precisam correr para se abrigar assim que as sirenes de "Código Vermelho" soam. Os que estão mais longe têm até 45 segundos para correr.
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