Indicadores econômicos e avaliações oficiais mostram que as principais economias asiáticas --Japão, Coréia do Sul e China-- se preparam para enfrentar um 2009 em que não faltarão graves problemas.
A Coréia do Sul enfrenta no momento uma crise econômica "sem precedentes", segundo o Ministério da Economia, em relatório enviado ao presidente do país, Lee Myung-bak e divulgado hoje. O ministério vê na queda da demanda doméstica e nas exportações o maior risco para a economia do país --as exportações sul-coreanas em novembro caíram 19% na comparação com o desempenho visto um ano antes.
No Japão, que entrou oficialmente em recessão no terceiro trimestre do ano, a produção industrial é o mais novo fator de preocupação para o governo: a queda no mês passado foi de 8,1% em relação a outubro. Trata-se da pior queda desde que a coleta dos dados sobre a produção industrial passou a ser feita, em fevereiro de 1953.
Na China, o governo já se alarma com o desaquecimento no ritmo de uma economia que vinha apresentando taxas de crescimento de dois dígitos. O ministro da CNRD (Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento), órgão responsável pelo planejamento econômico, Zhang Ping, afirmou nesta quarta-feira (24) que a crise financeira mundial já tem repercussões negativas em toda a China : desde o terceiro trimestre a crise se alastrou, das zonas costeiras às regiões do interior do país, das indústrias exportadoras a outros setores, das pequenas às grandes empresas.
Japão
O Japão ainda anunciou outros números desapontadores hoje. O mercado de trabalho do país, por exemplo, perde força: a taxa de desemprego subiu para 3,9% em novembro, 0,2 ponto percentual a mais que no mês anterior. O número de desempregados subiu em novembro para 2,56 milhões de pessoas, 100 mil a mais que no mesmo mês do ano anterior.
Outro indicador divulgado hoje no Japão já seria negativo por si só, mas em um cenário de aumento de desemprego pode ter sua força ampliada: a inflação no país ficou em 1% em novembro (dado anualizado).
Na segunda-feira (22) o governo japonês reconheceu que a situação do país piora. "Aparentemente a economia seguirá piorando", diz o relatório mensal do governo --que já destacava uma forte queda da produção industrial e dos resultados das empresas.
No PIB (Produto Interno Bruto) global, o peso do Japão diminuiu; a participação da economia do país em 2007 caiu para um nível baixo recorde, 8,1%. É o menor nível desde que os números começaram a ser coletados, em 1980. Em 2006, a participação já havia atingido um mínimo histórico, 9%.
As exportações do Japão também amargam resultados desapontadores: as exportações de veículos japoneses retrocederam em novembro, marcando o segundo mês consecutivo. A produção de veículos no Japão, por sua vez, caiu 20,4% em novembro deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado -- a maior queda desde 1967.
Coréia do Sul
"A economia sul-coreana está diante de uma crise sem precedentes, com a demanda doméstica e as exportações, os dois pilares do crescimento econômico, caindo ao mesmo tempo", diz o ministério, em seu relatório anual. Segundo o documento, o ministério tentará elevar as exportações do país para US$ 450 bilhões em 2009, contra os cerca de US$ 430 bilhões projetados para este ano.
O banco central da Coréia do Sul já prevê desempenhos fracos tanto para este ano como para o próximo. Em 2008, o PIB do país deverá crescer 3,7% --0,9 ponto percentual a menos que o previsto em julho, antes que a crise financeira global ganhasse um segundo fôlego, com a quebra do banco americano Lehman Brothers, em setembro.
Para 2009, a previsão do banco é de crescimento de 2%; se confirmado, o resultado será o pior desde 1998. A reação da Coréia do Sul só deve só deve se fazer sentir em 2010, quando a expansão deverá chegar a 4%.
China
O comitê permanente da Assembléia Nacional Popular da China avalia que o país se vê diante de "grandes desafios". "Se não conduzirmos bem as dificuldades poderemos nos ver confrontados com graves riscos no plano econômico e social", informou o órgão.
A Cass (Academia de Ciências Sociais da China, na sigla em inglês) já divulgou um relatório no qual prevê um cenário difícil para a economia chinesa em 2009. O país corre o risco de sofrer um colapso no mercado imobiliário, além de ver um aumento no desemprego e um crescente desequilíbrio entre ricos e pobres, que poderiam levara inquietação social ao país.
O governo da China estuda, como estratégia para evitar que a crise derrube o país, promover exportações e consumo interno. O governo decidiu na quarta-feira (24) que novas medidas fiscais devem ser adotadas para favorecer certas indústrias exportadoras.
Para estimular o consumo interno, os habitantes das zonas rurais serão a meta principal; nas áreas rurais, o governo pretende desenvolver os mercados e as infra-estruturas logísticas, aumentar os salários e elevar os subsídios.
EUA e Europa
Os EUA se encontram em recessão desde o fim do ano passado. Os indicadores econômicos mais recentes corroboram essa condição: os gastos do consumidor americano (pilar da economia do país, com 70% de participação em toda a atividade econômica dos EUA) caíram 0,6% em novembro. A queda do mês passado completa cinco meses de contração, a maior seqüência de perdas desde o início da pesquisa feita pelo Departamento do Trabalho, em 1959.
Outro foco da fraqueza dos EUA é o mercado de trabalho: o número de pedidos iniciais de auxílio-desemprego no país atingiu o maior número desde novembro de 1982, chegando a 586 mil --isso depois de terem sido fechados 533 mil postos de trabalho no país em novembro. Além disso, o governo americano confirmou a contração de 0,5% no PIB do país no terceiro trimestre.
A Casa Branca já prevê um desempenho ainda pior para o trimestre em curso. "Não há nenhuma dúvida de que será muito fraco", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Tony Fratto.
Na Europa, França, Irlanda, Itália, Espanha e Alemanha já estão em recessão. O Reino Unido é o próximo: o CEBR (Centro de Pesquisa Econômica e Empresarial, na sigla em inglês) informou que a economia britânica registrará contração de 2,9% no próximo ano e terá a pior recessão desde 1946. O PIB (Produto Interno Bruto) britânico ficou paralisado no segundo trimestre e retrocedeu 0,5% no terceiro trimestre, a primeira queda em 16 anos, segundo dados oficiais.
FMI
O FMI (Fundo Monetário Internacional) pediu nesta terça-feira (23) que os países estimularem rapidamente a demanda para evitar que se repita a Grande Depressão dos anos 30, no momento em que vários indicadores confirmaram que muitos países já entraram em recessão.
"Estamos diante de uma crise de amplitude excepcional, cujo principal componente é o desabamento da demanda", disse o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, em entrevista concedida ao jornal francês "Le Monde". "É fundamental que consigamos conter esta perda de confiança e relançar a demanda privada, para evitar que a recessão se transforme em Grande Depressão", afirmou.
Segundo ele, a recuperação tem que vir através do aumento das despesas públicas, por meio de um programa de grandes obras, de construção de pontes ou de renovação de escolas, e não pela redução das receitas públicas com medidas como cortes de impostos, "que as famílias tendem a transformar em poupança para se precaverem".
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