Ataques a depósitos no Paquistão destroem mais de 160 veículos da Otan

da Associated Press, em Peshawar


Militantes atacaram dois terminais de transportes no Paquistão e causaram incêndio que destruiu mais de 160 veículos da Otan

Militantes atacaram neste domingo dois terminais de transportes no Paquistão e causaram um incêndio que destruiu mais de 160 veículos destinados às tropas lideradas pelos Estados Unidos no Afeganistão. O ataque é mais um episódio da crescente violência nas últimas semanas em Peshawar, capital da Província da Fronteira Noroeste, na fronteira entre os dois países, e atinge uma linha vital de fornecimento militar.

O Exército americano disse que as perdas teriam apenas um impacto "mínimo" sobre as suas operações contra o ressurgimento da milícia taleban no Afeganistão.

No entanto, a audácia do ataque alimenta a preocupação de que militantes estejam apertando o cerco a Peshawar e poderiam obstruiur o fornecimento por meio da famosa rota de passo Khyber, no sopé das montanhas fronteiriças.

Cerca de 75% dos suprimentos para as forças ocidentais no Afeganistão passam pelo Paquistão depois de serem descarregadas de navios no porto de Karachi, no mar Arábico. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) já está procurando uma via alternativa, através da Ásia Central.

O ataque ao Terminal Logístico Portward reduziu uma seção do complexo murado a um grande ferro velho.

O gerente do terminal, Kifayatullah Khan, disse que homens armados derrubaram o portão antes do amanhecer com um lançador de granadas, mataram um guarda e puseram fogo a um total de 106 veículos, incluindo cerca de 70 Humvees, veículos blindados leves utilizados pelas tropas.

Os atacantes fugiram depois de uma breve troca tiros com a polícia, que chegou ao local cerca de 40 minutos mais tarde, disse Khan.

Os outros nove guardas estavam de plantão, mas se mantiveram à distância, já que o número de militantes chegava a 300, disse Khan, embora o oficial da polícia Alam Kashif tenha dito que havia apenas 30.

No depósito Faisal, próximo ao local do primeiro ataque, o gerente Shah Iran disse que 60 veículos destinados ao Afeganistão, assim como três caminhões paquistaneses foram queimados em um ataque similar.

Não está claro se os ataques fora feitos pelo mesmo grupo de militantes.

Região vulnerável

As ações deste domingo são as mais recentes de uma série que pôs em evidência a vulnerabilidade da rota de abastecimento diante da ampliação do poder dos talebans e de outros militantes islâmicos na região fronteiriça.

Em um ataque também atribuído a insurgentes, 12 caminhões carregados de suprimentos para a Otan foram queimados no terminal Faisal na semana passada. Dois guardas foram mortos a tiros.

Em novembro, militantes islâmicos fugiram com um Humvee através da perigosa estrada de Peshawar e o mostraram depois a repórteres em um reduto mais ao sul.

O Exército americano minimizou a importância dos ataques e a extensão das perdas. "É militarmente insignificante", disse a Tenente-coronel Rumi Nielsen-Green, porta-voz do Exército americano "Você não pode imaginar o volume de suprimentos que passarem ali e por outros locais e por outros caminhos."

"Até agora não houve uma significativa perda ou impacto para a nossa missão", disse ela.

O Paquistão interrompeu o tráfego através da passagem Khyber durante vários dias em novembro, enquanto tomava medidas para a segurança dos comboios de mantimentos, que viajam em baixa velocidade.

Shahedullah Baig, um porta-voz do Ministério do Interior paquistanês, insistiu neste domingo que havia segurança extra protegendo os terminais.

"Elas são totalmente protegidas, mas, nesse tipo de situação, incidentes desse tipo acontecem," disse Baig.

No entanto, Khan, o gerente de depósito, disse que era mentira, e que havia apenas um punhado de policiais nos terminais de domingo à tarde.

Peshawar tem observado um aumento da violência nas últimas semanas, incluindo o assassinato de um americano que trabalhava em um projeto humanitário.

A cidade fica perto das regiões tribais ao longo da fronteira afegã, onde se suspeita que estejam refugiados Osama bin Laden e outros líderes do grupo terrorista Al Qaeda.

No sábado, um carro-bomba foi detonado em uma área ocupada no mercado da cidade, matando 29 pessoas e ferindo mais cem. O ataque destruiu uma mesquita xiita e um hotel, mas os autores não foram identificados.

A instabilidade no noroeste do Paquistão coincide com graves tensões com a Índia, ao sul, na seqüência dos recentes atentados terroristas em Bombaim, que mataram 172 pessoas.

O governo indiano atribui o ataque a um grupo militante islâmico que luta pelo controle da Caxemira, região disputada pelos dois países desde a independência de ambos, em 1947.

Pobreza, partilha e os EUA isolam islâmicos na Índia

Segundo o historiador Ramachandra Guha, 50, o radicalismo islâmico na Índia se alimenta da situação de pobreza dos muçulmanos no país, dos efeitos da partilha que originou o Paquistão, em 1947, e do patrocínio de guerrilheiros pelos EUA durante a Guerra Fria.

Autor de "A Índia depois de Gandhi" e diretor da organização New India Foundation, que promove o estudo da Índia contemporânea, ele foi considerado um dos cem intelectuais mais influentes no mundo pela revista "Foreign Policy". Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu


Al Qaeda recruta


"A Al Qaeda já começou a recrutar na Índia os muçulmanos mais angustiados com sua situação. Os muçulmanos indianos não podem se sentir de lado. Devem ser levados ao sistema de educação moderno, estimulados a aprender inglês, hoje decisivo para se empregar bem na Índia. Durante muito tempo, o governo era negligente com a educação. Hoje vivemos uma fase de empolgação, todo mundo quer estudar."


Sem Justiça


"Em 2002, cerca de 2.000 muçulmanos foram mortos em um massacre. Era resposta a um atentado de radicais islâmicos, que por sua vez foi revanche pela destruição de uma mesquita. Mas nenhum dos assassinos foi levado à Justiça, o que só fortalece os radicais."


Pobres ficaram


"No movimento pela independência da Índia nos anos 30 e 40, a classe média começou a se mudar para o que hoje é o Paquistão na esperança de ter uma nação muçulmana. Empresários, comerciantes, médicos, universitários migraram em massa. Os pobres muçulmanos ficaram na Índia. Há poucos advogados, professores. Muitos matriculam seus filhos em escolas religiosas, não estão na educação moderna."


Preconceito


"Não há discriminação oficial, mas há preconceito. Os muçulmanos estão atrás na educação, e há preconceito velado. Tenho certeza de que um médico muçulmano, próspero em Bangalore, terá dificuldades para alugar um apartamento de indianos. Não é discriminação institucional, é cultural, leva tempo para mudar."


Guerra Fria


"O Paquistão é aliado americano desde 1954. A Índia era próxima da União Soviética. Quando os soviéticos invadiram o Afeganistão, os americanos armaram os guerrilheiros muçulmanos. Nos anos 80, o Paquistão viu a emergência desses fundamentalistas patrocinados pelos EUA, que hoje controlam cada vez mais setores da Justiça, da educação e das Forças Armadas. Ninguém controla os predicadores mais radicais, que pedem a destruição da Índia nas mesquitas."

Revanche

"A tensão do Paquistão com a Índia é religiosa, mas tem algo de revanche. A Índia apoiou o movimento separatista de Bangladesh, que se tornou independente do Paquistão em 1971. O Paquistão nunca a perdoou. Nações, como indivíduos, têm memória. O sucesso econômico recente da Índia é uma explicação menor."


Caxemira livre


"A presença militar na Caxemira é excessiva. Há muitos abusos contra os direitos humanos lá. Há uma espiral de violência. Não era um movimento sectário, mas foi tomado pelos radicais, o que acaba justificando mais repressão pelo Exército da Índia e novas revanches por seus excessos. A Índia não entregará a Caxemira. Pode até dar mais autonomia, mas não interessa a ninguém uma Caxemira livre, que cairia nas mãos da Al Qaeda."


Sem harmonia


"O nacionalismo indiano de Gandhi e Nehru estava comprometido com a criação de um Estado laico, de harmonia entre as minorias, mas, nos anos 60 e 70, com a disputa pela Caxemira, a direita nacionalista cresceu, acha que os muçulmanos não fazem parte da Índia."

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