A maior montadora do mundo e a mais poderosa empresa do bloco industrial está por um fio. Amanhã, pode ser definido o destino da General Motors nos Estados Unidos. A fabricante de modelos como Corvette, Cadillac e Bel Air deve ser socorrida com empréstimo do governo americano. Se o resgate não vier, poderá ir à falência. Na visão de analistas, mesmo que seja salva, a GM não voltará a ser a gigante que produz 9 milhões de veículos por ano .
Aos cem anos completados em setembro, a GM era para os americanos o que a Varig era para os brasileiros. Ninguém imaginava que um dia poderia quebrar. Hoje, busca-se salvar a fabricante de veículos - que só este ano acumula prejuízos de US$ 21,3 bilhões -, não só pelo seu peso econômico, mas por ser um ícone do mundo financeiro e automotivo.
Ford e Chrysler, que junto com a GM formam as chamadas Big Three (Três Grandes), também estão em sérias dificuldades. O grupo, responsável por uma cadeia que emprega cerca de 3 milhões de pessoas nos EUA, espera um programa de ajuda de US$ 50 bilhões.
As atenções recaem principalmente sobre a GM, principal símbolo do capitalismo. A empresa que por 37 anos liderou a lista das 500 maiores da revista Fortune foi a que mais vendeu carros no mundo nas últimas sete décadas. Em seu mercado principal, ganhou muito dinheiro com as picapes e utilitários-esportivos, carrões que ocupavam as garagens de milhares de americanos.
Embriagada pelo sucesso, a GM não se deu conta de que o mundo migrava para outro tipo de automóvel, menor e mais econômico, ao contrário de suas concorrentes japonesas Toyota e Honda, que desenvolveram carros pequenos e movidos a combustíveis alternativos.
Ao deparar-se com a crise atual, desencadeada pelo aumento do preço da gasolina e da quebra de empresas dos ramos imobiliário e financeiro, a GM viu-se obrigada a recorrer ao governo para manter suas linhas de montagem a partir de 2009.
A derrocada da GM, na visão do consultor José Roberto Ferro, do Lean Institute, começou nos anos 50, quando a Toyota criou novo sistema de gestão, baseado na produção enxuta, mais competitiva e mais produtiva, o que resultou em carros com mais qualidade e melhor resultado financeiro.
"A GM até que tentou promover essas mudanças, com fábricas mais modernas", afirma Ferro. "Mas não conseguiu mudar o sistema de gestão interno." Desde então, vem perdendo vendas e participação para as fabricantes asiáticas, principalmente a Toyota.
Ferro acredita que a crise pode dar uma lição de humildade ao comando da GM, que sempre foi "arrogante e não reconheceu sua fragilidade".
ACORDOS GENEROSOS
Outra grande dificuldade enfrentada pela GM e pelas outras duas grandes montadoras dos EUA - Ford e Chrysler - é o alto custo com fundos de pensão. Na época da bonança, a GM cedeu a várias exigências dos sindicatos de trabalhadores, e hoje o custo da mão-de-obra em suas fábricas é muito superior ao das montadoras asiáticas, que não têm acordos trabalhistas tão generosos.
Para Marcelo Cioffi, da PriceWaterhouseCoopers, as vendas fora dos Estados Unidos, que já correspondem a mais da metade dos negócios da GM, é que vão sustentar o grupo, principalmente os mercados emergentes.
Estudo feito pela Price indica que, de 2008 para 2010, a produção de veículos nas regiões da Ásia/Pacífico, América do Sul, Leste Europeu e Oriente Médio/África vai crescer entre 8,4% e 23,3%. Já a América do Norte crescerá menos de 3% e União Européia ficará estável.
"Todo o crescimento da indústria nos próximos anos virá dos emergentes, por isso é importante ter opção nesses países", afirma Cioffi. A demografia desses países vai ajudar muito, afirma o consultor.
Segundo ele, na Índia há 7 veículos para cada mil habitantes. Na China, a proporção é de 10 por mil, enquanto no Brasil é de 90 por mil. Nos países desenvolvidos, a média está acima de 400 carros para cada mil habitantes. Nos EUA, por exemplo, é de 480; na Alemanha, de 500.
Uma eventual falência da montadora seria um gatilho para uma recessão enorme nos EUA, que já enfrenta séria crise no mercado imobiliário, financeiro e automotivo, com queda de consumo e desemprego.
A pressão para que o governo aprove o socorro é grande. Em seu editorial de sexta-feira, a publicação AutomotiveNews, uma das mais conhecidas no setor automobilístico, afirma que, se a GM apelar para a falência (Capítulo 11), haverá um colapso nas vendas da marca.
"Os 100 mil empregos americanos vão morrer. Seguro saúde para milhares de americanos estará em risco. Centenas dos 1.300 fornecedores vão morrer. O colapso deles pode levar junto a Ford e a Chrysler. Concessionários em todo o país vão fechar", diz o texto.
A marca não vai desaparecer, mas pode mudar de mãos, avaliam analistas. Grupos chineses e indianos certamente vão aproveitar essa oportunidade para entrar no mercado americano que, apesar da crise, vai produzir cerca de 12 milhões de veículos este ano. É o mais baixo volume em 16 anos, mas ainda significativo.
CIRURGIA
A ajuda federal daria apenas um fôlego extra para a companhia sanear dívidas mais urgentes e poder investir no desenvolvimento de veículos mais competitivos.
"No médio prazo, a empresa terá de se reorganizar, racionalizar atividades, reduzir seu tamanho e fechar fábricas para ter uma dimensão que a ajude a voltar à lucratividade", diz Thomas Felsberg, da Felsberg&Associados, escritório de advocacia especializado em recuperação judicial.
Ele acredita que qualquer ajuda do governo virá com condições draconianas, mas é a favor de que a falência seja evitada, pois "é como uma cirurgia, só se faz quando não há outra alternativa". Felsberg, porém, não vê "um cenário de catástrofe" no caso da GM.
Obama faz novo apelo ao Congresso por pacote
O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, voltou a pedir ontem ao Congresso que tome medidas urgentes para aliviar os efeitos da crise econômica - que ele descreveu como uma situação de "recessão". Em seu discurso semanal, por rádio, Obama disse esperar que os senadores dediquem a última sessão do ano do Congresso para discutir um pacote que alivie o impacto da crise sobre a vida de milhões de trabalhadores do país.
O pedido aconteceu um dia depois de senadores democratas anunciarem que haviam desistido de tentar aprovar um amplo plano de estímulo econômico - que propunha investimentos de US$ 61 bilhões a US$ 150 bilhões - antes da posse de Obama, em 20 de janeiro.
"É importante aprovar ao menos uma antecipação de um plano que crie trabalho, alivie a situação das famílias e ajude a economia a começar a crescer outra vez", disse Obama. "Se o Congresso não aprovar um plano imediato que dê à economia o impulso que ela precisa, esta será minha primeira medida como presidente", acrescentou.
O democrata ressaltou o impacto da crise sobre a indústria automobilística do país. "Perdemos postos de trabalho por dez meses seguidos, quase 1,2 milhão de empregos só este ano. E a maioria deles no setor de automóveis", disse. "Milhões de cidadãos passam hoje noites em claro se perguntando como vão pagar suas contas." Obama não especificou que tipo de plano quer ver aprovado. Nos últimos dias, porém, deixou claro sua preocupação com a crise na indústria automobilística.
BENEFÍCIOS
A intenção dos senadores agora é propor um plano menos ambicioso, que deve incluir US$ 6 bilhões para expansão de benefícios a desempregados e a infusão de US$ 25 bilhões no setor automobilístico da indústria. Segundo o senador Harry Reid, líder da bancada democrata, o plano deve ser apresentado já amanhã, para que possa ser votado na quarta-feira.
Caso não seja aprovado, os democratas terão de se contentar com a aprovação de uma única medida de ajuda econômica antes da posse de Obama - a extensão para 13 semanas dos benefícios a desempregados.
Em uma carta aos republicanos, Reid culpou os senadores do partido e a Casa Branca por impossibilitarem a aprovação de um plano mais amplo. "Entendo que os senadores republicanos estejam preparados para bloqueá-lo", disse ele ao senador Mitch McConnell, líder republicano. "Isso é decepcionante." AP, REUTERS, WPOST
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