Porque não teremos um Obama tão cedo?

Gustavo Krieger
Correio Brasiliense

As eleições americanas criaram uma obamamania entre os políticos brasileiros. Virou moda buscar semelhanças com o senador do Partido Democrata que fez história ao se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não perde uma chance de comparar sua trajetória com a dele. Durante a campanha municipal, candidatos esforçaram-se para incluir frases de Barack Obama em seus discursos. No dia da eleição, o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), repetiu como um mantra uma das sentenças preferidas do democrata: "Temos que ter a audácia da esperança". Mas é mais fácil falar do que fazer. A campanha de Obama, revolucionária para os padrões americanos, também é muito distante da realidade política brasileira.

A começar pelo caixa. O senador financiou uma das campanhas mais caras da história dos Estados Unidos com base em contribuições individuais, a maioria feitas pela internet. A estratégia entrou em vigor ainda em 2007, quando ele se preparava para disputar as primárias do partido Democrata. Deu muito mais certo do que os próprios estrategistas dele imaginavam. Obama deu-se ao luxo de dispensar o financiamento público de campanha. A medida lhe permite gastos ilimitados, mas o obriga a arrumar todo o dinheiro. Ele captou mais de US$ 650 milhões. Para se ter uma idéia do que isso representa, a campanha de reeleição do presidente George W. Bush, em 2004, gastou US$ 188 milhões.

A expectativa é que mais de 1,5 milhão de americanos tenham contribuído individualmente para a campanha. Somente em setembro, a campanha arrecadou US$ 150 milhões, a maior marca da história dos Estados Unidos. A grande maioria vem de doações abaixo de US$ 200.

No Brasil, as pessoas físicas são desprezíveis no financiamento de grandes campanhas. Em 2006, quando se reelegeu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou gastos de R$ 103,5 milhões. Deste total, nada menos que R$ 103 milhões vieram de empresas ou grandes empresários. Os simpatizantes comuns responderam por pouco mais de R$ 500 mil.

As doações pela internet, que constituíram a grande arma de Obama, não estão regulamentadas no Brasil. Nos Estados Unidos, elas são feitas como despesa no cartão de crédito. Aqui, isto ainda é impossível. A justiça eleitoral teve imensa dificuldade de lidar com o uso da internet para propaganda dos candidatos e, na dúvida, adotou uma postura restritiva, que chegou ao fechamento de comunidades no orkut que manifestavam simpatia por candidatos ou partidos.

Primárias

No sistema político brasileiro, dificilmente Obama seria candidato. Ele nunca foi o nome preferido pela hierarquia do partido Democrata. Só conseguiu porque venceu nas primárias do partido a ex-primeira-dama Hillary Clinton, considerada até então a grande favorita. As primárias são uma instituição americana. Em alguns estados, são abertas até a participação de quem não é filiado no partido.

Aqui no Brasil, a força das hierarquias é que pesa mais. No máximo, quem escolhe os candidatos à presidência são às convenções nacionais, onde votam parlamentares e dirigentes partidários. O PSDB estuda a possibilidade de realizar primárias para escolher seu candidato a presidente em 2010. Seria uma mudança radical para um partido que, na campanha de 2006, optou pela candidatura de Geraldo Alckmin numa reunião onde não havia sequer dez pessoas. Azarão no início da campanha, Obama ganhou corpo com a disputa interna. No Brasil, ao contrário, impera a filosofia de que disputa equivale a divisão e enfraquece o partido.

Nos Estados Unidos, há um alto índice de fidelização do voto. Os eleitores se dividem entre os dois grandes partidos, o Republicano e o Democrata. Há estados que votam sempre na mesma legenda. Em outros, a disputa é decidida pelo contingente de eleitores independentes. No Brasil, com um quadro partidário extremamente pulverizado, isso não acontece. Além disso, a política de alianças aqui obedece a conveniências locais. PT e PSDB, principais adversários na política nacional, foram aliados em mais de mil cidades nas eleições municipais deste ano.

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