
Petroleiro Sirius Star, rendido por piratas
BRUXELAS - A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vai discutir, juntamente com outras organizações internacionais soluções, para o problema da segurança marítima global, afirmou nesta quarta, 19, o presidente da Comissão Militar da aliança, almirante Giampaolo Di Paola. "Ninguém pode fugir do fato de que 80% a 90% do comércio mundial é feito pelo mar, inclusive o de energia, e com a emergência do problema da pirataria na Somália, há uma consciência crescente sobre o problema. Só estamos no princípio da reflexão", disse Di Paola em entrevista coletiva.
A pirataria, cujos episódios ganharam força nos últimos dias no Oceano Índico, foi discutida nesta quarta pela Comissão Militar, principal órgão militar da Otan, formado pelos chefes de Estado-Maior dos 26 países-membros da Aliança.
Os piratas que seqüestraram na segunda-feira o petroleiro saudita Sirius Star exigem um resgate em "dinheiro" e afirmam que já "há negociadores" no navio, segundo uma gravação sonora atribuída a um dos eqüestradores e divulgada pela televisão catariana Al-Jazira, nesta quarta. Na breve fita, o suposto pirata diz que "há negociadores a bordo do navio e em terra", mas não detalha o montante exigido para a libertação do cargueiro, atacado no fim de semana passado em águas do Mar Arábico. Segundo o governo saudita, as negociações continuam.
Mesmo com uma ampla força marítima internacional monitorando a costa da Somália, piratas conseguiram seqüestrar pelo menos três barcos estrangeiros nos últimos quatro dias. Desafiando os navios da Otan, da Rússia e dos EUA que protegem a região, os piratas foram mais longe - até a costa do vizinho Quênia - e capturaram um dos maiores superpetroleiros do mundo, o MV Sirius Star, que transportava US$ 200 milhões em barris de petróleo, o equivalente a um quarto de toda a exportação diária de petróleo da Arábia Saudita.
A embarcação leva a bordo uma tripulação de 25 pessoas, dois de nacionalidade britânica, dois poloneses, um croata, um saudita e 19 filipinos. Ontem, o navio foi levado da costa do Quênia, onde havia sido interceptado pelos piratas, para um porto na Somália.
A audácia dos ataques mostra que uma patrulha militar não é capaz de controlar os piratas. "Não temos capacidade naval para cobrir toda a área sob ameaça", disse Robert Middleton, especialista em África do instituto Chatham House. "Ações marítimas na área são como um curativo, lidam com os sintomas e não a causa", disse Jason Alderwick, do International Institute for Strategic Studies, lembrando que frotas estrangeiras enfrentam desafios como patrulhar uma região equivalente aos mares Vermelho e Mediterrâneo juntos.
Piratas somalis seqüestraram na terça um cargueiro de bandeira de Hong Kong, um barco de pesca tailandês, e um graneleiro grego foram tomados pelos piratas nos últimos três dias, segundo Andrew Mwangura, da Associação de Marinheiros do Leste da África. O pesqueiro operado pela Tailândia e o cargueiro de Hong Kong foram seqüestrados no litoral somali de Áden com 41 pessoas a bordo, na tarde da terça, 18, a Agência Marítima Internacional, com sede em Kuala Lumpur.
São os mais recentes seqüestros de uma lista que já soma 92 ataques desde janeiro e ameaça aumentar o custo do comércio marítimo, já que as empresas estão mudando suas rotas para evitar ataques.
Precauções

Por causa da insegurança, a companhia marítima norueguesa Odfjell ordenou que 90 de suas embarcações contornem a costa africana pelo Cabo da Boa Esperança, evitando as águas infestadas de piratas que servem de passagem para o Canal de Suez, por onde passam mais de 20 mil cargueiros todo ano.
A rota do Cabo da Boa Esperança remete os navegadores aos primórdios do comércio marítimo com o Oriente, aumentando o tempo de navegação em até 15 dias a um custo diário adicional de até US$ 30 mil.
Para evitar a patrulha de navios militares, os piratas têm ampliado o raio de suas ações além do Golfo de Áden, em direção à costa sudeste da África, na altura do Quênia. Especialistas em segurança recomendam que as empresas deixem de pagar resgates e passem a contratar empresas de segurança privada.
A recente onda de seqüestros torna ainda mais importante a necessidade de pôr fim aos 17 anos de conflito na Somália. Para os especialistas, enquanto não houver um governo central na Somália, a pirataria continuará e tentativas militares de lidar com o problema fracassarão.
Exceto por um breve período em 2006 (quando uma milícia islâmica conseguiu se manter no poder), a Somália vive mergulhada na anarquia desde 1991, quando milícias derrubaram o ditador Siad Barre. O caos tornou o país o mais falido do mundo, onde quase metade da população depende de ajuda humanitária para sobreviver.

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