Contra crise, governo libera mais R$ 19 bi em linhas de crédito para empresas

EDUARDO CUCOLO
LORENNA RODRIGUES
RENATA GIRALDI


O ministro Guido Mantega (Fazenda) anunciou nesta quinta-feira, durante reunião do chamado Conselhão (o CDES, Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), uma série de novas medidas que, juntas, disponibilizam R$ 19 bilhões em linhas de crédito para diversos setores via BNDES (banco estatal de investimento) e Banco do Brasil. A retração do crédito é o principal efeito da crise financeira no Brasil. O ministro confirmou ainda o adiamento no prazo de pagamento de alguns tributos para elevar o capital de giro do setor produtivo.

Durante seu discurso, Mantega avaliou ainda que, desde o fim de outubro, os mercados mundiais entraram no que ele chamou de momento de "calmaria". "A boa notícia é que o pior da crise está passando e já há sinais de arrefecimento."

O anúncio com valor mais alto refere-se ao BNDES, que terá mais R$ 10 bilhões para financiar o capital de giro de empresas e para empréstimos em linhas de exportação pré-embarque --ou seja, os valores serão usados para permitir as vendas externas. Em outubro, o governo já tinha liberado R$ 5 bilhões.

Outros R$ 5 bilhões, provenientes do BB (Banco do Brasil), serão usados para abrir uma linha de crédito para capital de giro de pequenas e médias empresas.

Como já era esperado, Mantega confirmou R$ 4 bilhões, também do BB, para ajudar os bancos de montadoras a elevar o crédito aos consumidores. Em seu discurso, Mantega afirmou que o dinheiro é suficiente para garantir as vendas nos meses de novembro e dezembro --após esse período, o ministro disse esperar uma normalização do crédito nesse setor.

Segundo dados de hoje da Anfavea, tanto a produção de veículos como as vendas caíram em outubro, seja na comparação com setembro ou na relação com outubro do ano passado.

O presidente do banco, Antônio Francisco de Lima Neto, afirmou que só nesta semana já vai liberar R$ 1 bilhão. "Como as montadora têm uma fonte de captação importante no crédito interbancário, quando ele secou, eles tiveram que reduzir os prazos de financiamentos. Com a volta do interbancário, é natural que se volte a ter uma melhor acomodação dos prazos", avaliou.

De acordo com o presidente do BB, o montante disponibilizado para as montadoras é suficiente para "quebrar a inércia" que se instalou em relação a prazos e volumes de crédito e aquecer o mercado.

Tributos

Durante a reunião do CDES, Mantega anunciou ainda que irá acelerar a devolução de créditos tributários para as empresas e confirmou a ampliação no prazo do recolhimento de impostos em dez dias.

Ele confirmou que as empresas terão, em média, mais dez dias para recolher os impostos federais e, dessa forma, ficarão mais tempo com dinheiro em caixa. O pagamento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) será adiado do dia 15 para o dia 25 de cada mês. O PIS/Cofins, do dia 20 para 25. O IR (Imposto de Renda) recolhido na fonte e a contribuição para a Previdência passam a ser pagos não mais no dia 10, mas no dia 20 do mês.

"Nós vamos postergar as datas de pagamento de alguns tributos. Estamos fazendo algo que não é muito grande, porque senão impacta as contas públicas", afirmou Mantega. "É um alívio para as empresas que terão dez dias a mais de capital de giro para pagar as suas contas."

Em relação ao crédito tributário, o ministro disse que vai montar um "mutirão" para agilizar a liberação. "Isso também vai gerar um bom capital de giro para as empresas."

O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Armando Monteiro Neto, pediu ao governo prazo maior, mas elogiou as medidas adotadas. "'É uma medida importante que vai ter impacto positivo sobretudo para pequenas e médias empresas."


Setor de bens de capital prevê queda em pedidos

Com o anúncio de corte na produção e revisão nos planos de investimento de empresas como Vale e Petrobras por conta da crise global, a indústria de máquinas e equipamentos prevê que terá menos pedidos nos próximos meses.

De acordo com o presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), Luiz Aubert Neto, os setores de óleo e gás, açúcar e álcool, papel e celulose e mineração respondem por 30% a 40% das compras do setor de bens de capital.

"Se você recebe a notícia de corte de investimentos nesses setores específicos, fica na dúvida se continua a investir ou não, porque são grandes compradores de nossos produtos", afirma Aubert.

Na semana passada, a Vale anunciou que fará um corte de produção de 30 milhões de toneladas de minério de ferro, ou 10% do total extraído pela empresa. Já a Petrobras pediu contenção de gastos a seus funcionários. E, embora negue oficialmente, já há uma expectativa de que a estatal possa adiar projetos em refinarias. Usinas de álcool e açúcar que entrariam em funcionamento no centro-sul também tiveram seus projetos adiados.

"Essas notícias nos preocupam bastante. Especialmente Petrobras e Vale são 'players' muito importantes para nós", diz o presidente da Abimaq.

O setor de máquinas e equipamentos faturou R$ 7,94 bilhões em setembro deste ano --crescimento de 15,7% na comparação com agosto. Apesar da crise, a previsão da Abimaq é que seja registrado neste ano crescimento de 25% na receita, uma vez que as carteiras de pedidos para os próximos meses estão fechadas.

"O receio que temos é com relação à entrada de novos pedidos", diz Aubert.

No entanto, os subsetores de máquinas têxteis e máquinas gráficas já apresentam entre janeiro e setembro uma queda no faturamento de 25,2% e 26,2%, respectivamente, por conta do ciclo de apreciação cambial verificado até agosto. Com o dólar em um patamar baixo, ficava mais barato importar os produtos inteiros em vez de investir em máquinas para produzi-los.

Dólar

Com a disparada da moeda norte-americana, houve queda de 9,3% nas importações de máquinas em setembro, em relação a agosto.

"Pelo que vimos, o câmbio já começou a dar uma segurada nas importações, especialmente da China", afirma o presidente da Abimaq.

Já as exportações continuam em alta. Nos primeiros nove meses do ano, as vendas externas do setor cresceram 17,9%, mesmo com o câmbio apreciado. "É um milagre chegarmos a essa taxa de crescimento das exportações com o câmbio que tínhamos", diz Aubert.

Para ele, porém, a alta recente do dólar não garante incremento a curto prazo, por conta da volatilidade do câmbio.

Governo decide alongar prazo de imposto de empresas e liberar R$ 4 bi a montadoras

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve anunciar nesta quinta-feira a decisão do governo de prorrogar o prazo de pagamento de alguns tributos federais.Também será anunciado mais crédito para o setor automobilístico.

A prorrogação que será anunciada hoje é, na prática, a postergação do prazo do pagamento de alguns impostos. A decisão foi articulada por Mantega, que havia pedido estudo à Receita Federal, como a Folha antecipou.

A medida é um agrado político autorizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos empresários. A idéia é permitir, por exemplo, que as empresas que pagam o IPI no dia 20 de cada mês possam fazê-lo no dia 30, e assim ter mais capital de giro ao longo do mês.

Esperada para ser anunciada na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, hoje, a medida foi antecipada a pedido de Lula para o anúncio de que o Banco do Brasil abrirá nova linha de financiamento de veículos novos no valor de R$ 4 bilhões.

Ao permitir que as empresas fiquem por mais tempo com dinheiro em caixa, há um alívio para as despesas típicas do dia-a-dia das companhias. Havia resistência dentro da Receita e em setores do governo, mas Lula e o ministro da Fazenda têm ouvido queixas das empresas sobre a dificuldade de obter crédito para capital de giro.

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails