Cenário de desolação em trajeto a Blumenau

JOSÉ EDUARDO RONDON


Criança é resgatada em uma comunidade rural na cidade de Ilhota (SC), onde várias familias estão isoladas devido às enchentes


Já são 84 mortos e 54.000 desabrigados

A liberação das rodovias que permitem o acesso da cidade de Navegantes a Blumenau --em Santa Catarina-- fez com que, às 10h48 desta terça-feira, a reportagem, em um táxi, desse início a uma viagem ao epicentro da tragédia das chuvas em Santa Catarina.

A informação de que havia como se chegar a Blumenau circulou no aeroporto de Navegantes, após dois carros que saíram daquela cidade terem chegado ao local. A notícia da liberação provocou agitação e uma procura por táxis no município, que estava com diversos acessos interditados nos últimos dias.

Na segunda-feira (24) a Folha tentou fazer o mesmo percurso, mas foi obrigada a voltar depois de cinco quilômetros. No meio da pista, alagada, havia até um barco parado.

O cenário no entorno de estradas como as BRs 470 e 101 é de desolação e mostram mais claramente os danos causados pelas chuvas.

O que se vê são casas submersas, pessoas saindo de barco das moradias, parte de morros encobrindo as pistas e árvores caindo pelo trajeto, que se encerrou em Blumenau às 12h15, quase uma hora e meia depois da partida. Normalmente, a viagem de carro demoraria por volta de 40 minutos.

No momento em que a reportagem percorreu o trajeto de carro, a chuva deu uma trégua na região. Isso fez com que outros motoristas também se arriscassem a fazer a viagem na mesma hora.

Para se chegar a Blumenau, vindo de Navegantes em meios aos estragos provocados pelas enchentes, é necessário um desvio por rodovias secundárias, o que aumenta em cerca de 40 km a distância.

No caminho, partes de cidades como Itajaí, Brusque e Gaspar estão debaixo d'água. Ao lado da BR-101 em Itajaí, cerca de 40 carros boiavam em um local que se assemelhava a uma oficina mecânica.

Ali, o transbordamento era o do rio Itajaí-Mirim. Ao passar por trechos de estrada, espremidos entre morros e com muita terra caída na pista, a sensação que se tem é que mais desmoronamentos ainda vão acontecer.

Próximo a Brusque, o trânsito parou por causa de terra e árvores na pista. Em uma outra parte, só pelo acostamento se consegue seguir em frente. Às margens da estrada, pequenas plantações de produtores da região estão alagadas.

Sem alívio

Em Gaspar, a cerca de cem metros de distância da estrada, há casas com água até o teto. De uma delas, uma moradora era resgatada por um barco. Ao lado da pista, algumas pessoas com bicicletas transportando galões de 20 litros, vazios, procuravam água para beber.

Perto de Blumenau, há áreas em que os morros parecem derreter. Neles, pedaços de terra se desprendem. Quando se chega a Blumenau, não há nenhuma sensação de alívio com o término da viagem. O único pensamento é o de não ter de refazer o trajeto de volta até Navegantes.


Chuva atinge a cidade de Garopoba; ao menos 18 estradas federais e estaduais foram danificadas no Estado

Situação em Santa Catarina é de verdadeira catástrofe, diz senadora


Após sobrevoar nesta terça-feira a região mais atingida pelas chuvas em Santa Catarina, a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) afirmou que a situação no Estado é de "verdadeira catástrofe"

"Itajaí está toda debaixo d'água. Blumenau já tem 2.000 famílias sem casa para retornar, porque foram destruídas ou estão em situação de risco", disse a senadora, que conversou com a Agência Brasil por telefone da cidade de Jaraguá do Sul, após sobrevoar de helicóptero a região do Vale do Itajaí.

Ideli Salvatti está acompanhada do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Os dois participaram de uma reunião com os ministros da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e da Pesca, Altemir Gregolin, o governador do estado, Luiz Henrique, e o secretário nacional de Defesa Civil, Roberto Guimarães.

De acordo com a senadora, o Exército disponibilizou dois aviões para o transporte de colchões, roupas e alimentos para as vítimas das enchentes e desabamentos, e uma equipe de controle de epidemias do Ministério da Saúde deve ser enviada para prevenir doenças.

"Há risco de doenças, se não houver cuidado com a água das enchentes", afirmou Ideli. Segundo ela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar nos próximos dias medida provisória liberando recursos para auxílio às vítimas e reconstrução das cidades atingidas pelas chuvas em Santa Catarina.

Instituto prevê redução no volume de chuvas em Santa Catarina

O Estado de Santa Catarina deve ter chuva até pelo menos sexta-feira (28), segundo previsão do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Entretanto, o volume deverá ser menor do que os 23 milímetros (cada milímetro equivale a um litro de água por metro quadrado) de média registrados ao longo dos últimos 25 dias.

A chuva que atinge o Estado de Santa Catarina e provoca destruições e mortes é recorde histórico para o mês de novembro desde que o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) começou a fazer medições em Florianópolis, em 1961.

Segundo o meteorologista Flávio Varone, do Inmet, dados preliminares coletados pela estação automática --que funciona ao lado da estação convencional-- apontam que o acumulado de chuva registrado em Florianópolis no mês de novembro de 2008 é de 564,6 milímetros (cada milímetro equivale a um litro de água por um metro quadrado), quase três vezes mais a média histórica para o mês de novembro, de 140 milímetros.

Entre as 9h de ontem e as 9h desta terça-feira, choveu 18,8 milímetros. O volume e intensidade das chuvas estão enfraquecidos em relação a outros dias, segundo Varone, e a tendência é a redução do índice ao longo dos próximos dias.

"A intensidade das chuvas reduziu. Teremos a partir de hoje períodos que vão intercalar melhoria [do tempo] com chuva, mas não teremos mais a chuva persistente, que em alguns dias chegou a 24 horas do dia", afirmou.

Hoje a temperatura máxima prevista para o Estado é de 31ºC hoje, que deverá ser registrado na faixa oeste. O Inmet informou que o céu permanecerá nublado na maior parte do Estado de SC e devem ocorrer pancadas de chuva na região leste, a mais atingida pelas chuvas.

Segundo o meteorologista, a elevação na temperatura é sinal de que o sistema que trouxe umidade do mar está se deslocando e ventos quentes vindos do oeste estão se aproximando na área atingida.

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