Paul Reynolds
O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, enfrentará uma série de problemas de política externa assim que assumir a Casa Branca, no dia 20 de janeiro de 2009.
Confira abaixo dez desafios de Obama e o que ele deve propor como solução.
Papel dos EUA no mundo
Uma conclusão da eleição americana é que o eleitorado quer uma mudança significativa na área de política externa em relação ao governo de George W. Bush.
A mudança pode ser um fortalecimento do multilateralismo em detrimento do unilateralismo, com menos ênfase nos Estados Unidos como "única superpotência mundial".
A confrontação poderá abrir caminho para mais diplomacia.
No entanto, os presidentes americanos geralmente acabam se envolvendo em conflitos e guerras. Obama chega ao cargo tendo que enfrentar duas guerras já em andamento, no Iraque e no Afeganistão. Como ele vai reagir definirá a sua era na Casa Branca.
Iraque
Barack Obama disse que vai pedir que seus comandantes redefinam a missão para "terminar a guerra de forma bem-sucedida". Mas isso precisa ser feito com responsabilidade, segundo o presidente eleito.
Ele disse que isso significa dar tempo para que o governo iraquiano fortaleça suas próprias forças armadas. Ele também quer uma retirada em fases da maioria das tropas americanas "dentro de 16 meses" a partir da sua posse, o que significa no máximo até maio de 2010.
Potencialmente, isso pode ser uma política de muito sucesso. No entanto, um pequeno contingente militar americano deve continuar no Iraque, então uma retirada completa não deve acontecer.
Afeganistão
Talvez este seja o maior desafio de Obama. Se no Iraque a guerra parece estar acabando, no Afeganistão ela está se intensificando.
Obama promete "focar no Afeganistão". Ele disse que vai enviar mais duas brigadas de combate. Ele também prometeu atacar a Al-Qaeda, especialmente Osama Bin Laden, com ou sem a ajuda do Paquistão.
Melhorar a situação no Afeganistão significa melhorar o desempenho do governo afegão e tentar desenvolver uma política mais eficiente no Paquistão (cuja própria estabilidade é um problema), para minar os esforços do Talebã e da Al-Qaeda.
"Guerra contra o terror"
A famosa frase de Bush pode ter menos força no governo Obama. Ele quer se concentrar em vencer a "batalha das idéias" ao "voltar a uma política externa americana consistente com os valores tradicionais americanos, fazendo parcerias com moderados no mundo islâmico para contrabalançar a propaganda da Al-Qaeda".
No entanto, ainda deve haver uma política americana vigorosa. Ele disse que "não vai hesitar em usar força militar para retirar terroristas que ameaçam diretamente os Estados Unidos".
Dois indicadores serão importantes: o fechamento da prisão em Guantánamo e a extensão da proibição de tortura na CIA, a agência de inteligência americana.
Se Guantánamo for fechada, ele terá de decidir o que fazer com os 255 detentos. Obama sugeriu usar o sistema legal normal dos Estados Unidos para condená-los, mas há dados usados em comissões militares (obtidos por coerção) que não poderiam ser usados em tribunais americanos.
A Al-Qaeda também deve continuar sendo um problema, com atividades na Argélia e Somália.
Irã
Potencialmente daí pode surgir uma grande crise, mas muito depende de como o Irã reagir.
Se continuar com o programa de enriquecimento de urânio, isso pode levar o novo governo a seguir ou até ampliar sanções.
Um aumento da atividade nuclear iraniana seria um sinal de aumento da sua força. Nesse caso, Israel exigiria ataques aéreos contra o Irã. A conseqüência de um ataque desses seria grave.
Obama disse que conversará com o Irã "sem condições", apesar de que provavelmente não em nível presidencial. O atual governo iraniano não deve ceder no enriquecimento de urânio, então é possível que qualquer acordo incorpore isso como um direito do Irã.
Paz no Oriente Médio
Bush disse que esperava um acordo entre israelenses e palestinos até o final deste ano, mas isso parece impossível.
Então Obama terá provavelmente que enfrentar a eterna questão sobre como intervir no processo de paz do jeito que ele está.
O primeiro passo será a eleição israelense, no dia 10 de fevereiro, que deve indicar se o governo israelense estará pronto para fazer um acordo.
Além da questão Israel-Palestina, ainda existe o que Richard Holbrooke, um possível secretário de Estado, chama de "arco da crise", que se estende da Turquia ao Paquistão. Isso inclui a Síria, cuja ajuda é necessária para estabilizar o Iraque.
Rússia
Os eventos recentes na Geórgia precipitaram uma crise nas relações entre a Rússia e o Ocidente, que estão no pior nível desde a Guerra Fria.
Há frustrações dos dois lados e existe muita incerteza sobre como o novo governo vai lidar com a Rússia. A ajuda dos russos é necessária para lidar com problemas com Irã e Darfur, onde ação do Conselho de Segurança é importante.
O assunto imediato é como permitir que a Geórgia e a Ucrânia entrem na Otan, a aliança militar do Ocidente. A Rússia é contra a entrada dos países na organização, e ministros da Otan discutirão esse assunto em dezembro. Mesmo integrantes do governo Bush já dizem que o ingresso pode acontecer só daqui a anos.
O sistema antimísseis a ser instalado pelos Estados Unidos na Polônia e República Checa continua sendo um problema para a Rússia.
A forma como Obama vai lidar com Moscou vai indicar também sua posição em relação a assuntos nucleares. Um assunto pendente é saber como Rússia e Estados Unidos vão negociar a redução dos seus arsenais atômicos.
Em uma frente mais ampla, Obama apoiou o pedido feito no ano passado por ex-diplomatas americanos (entre eles, Henry Kissinger) para que os Estados Unidos lutem por um mundo sem armas nucleares, como prevê o Tratado de Não-Proliferação.
Coréia do Norte
As últimas ações da Coréia do Norte foram positivas. O país concordou com procedimentos de inspeção internacional do seu programa nuclear, que está sendo desmantelado. Em troca, o país recebeu a promessa de sair da lista americana de patrocinadores do terrorismo.
Mas a Coréia do Norte deve provavelmente continuar com suas armas nucleares. Como o presidente americano vai conseguir reverter isso e com quem ele vai lidar – já que o estado de saúde de Kim Jong-il é incerto – são dúvidas que persistem.
China
As relações americanas com a China estão em um momento importante, já que o país é membro permanente do Conselho de Segurança e tem grande influência econômica no mundo.
A China não é um problema direto para os Estados Unidos, mas o futuro de Taiwan e do Tibete são dois assuntos que têm potencial para dividir a relação.
Recentemente, a China preferiu se concentrar no seu desenvolvimento econômico. Enquanto isso continuar assim, as relações com os Estados Unidos devem permanecer estáveis. Não há sinais de que Obama queira fazer qualquer mudança.
Nova diplomacia: finanças, aquecimento global, energia
Diversos temas entram na definição de "nova diplomacia".
A crise financeira vai forçar o próximo presidente a ter uma atitude mais incisiva do que o normal. E ele terá de administrar um mundo com menos influência financeira dos Estados Unidos.
Obama está comprometido com o combate ao aquecimento global. Ele quer reduzir a emissão de gases nocivos ao meio ambiente em 80% até 2050. Este será um dos temas mais importantes do seu governo, já que o Protocolo de Kyoto expira em 2012 e as negociações para estender as metas estão emperradas.
Energia, especialmente petróleo, será outro desafio. Obama prometeu eliminar a dependência americana no Oriente Médio e na Venezuela em dez anos. No entanto, praticamente todos os presidentes americanos vêm dizendo isso desde 1979.
Obama entende poder reduzido dos EUA no mundo
John Simpson
Este é um país que habitualmente, às vezes de maneira irritante, se considera jovem e vibrante, a inveja do mundo. Com freqüência isto é mero exagero. Mas há momentos em que é a pura verdade.
Com a vitória de Barack Obama, um destes momentos chegou.
Os Estados Unidos nunca foram tão impopulares, tão ridicularizados e tão desprezado pelo mundo exterior como nos últimos meses da Presidência de George W. Bush. No outro dia eu perguntei a Madeleine Albright, secretária de Estado no governo do presidente Bill Clinton, se ela conseguia se lembrar de uma outra época em que as pessoas odiavam tanto os Estados Unidos.
Ela disse que nunca, desde que nasceu. "Eu tenho fortes sentimentos por este país - e que país excepcional e surpreendente ele é. Mas, honestamente, eu acho que isto este (ódio) é o mais intenso que já vi."
Preferência mundial
Pesquisas de opinião ao redor do mundo confirmaram a impopularidade dos Estados Unidos. E a chance de que um homem negro jovem, aparentemente agradável e modesto, pudesse se tornar seu presidente, foi recebida de maneira favorável em toda parte.
Há alguns meses, uma pesquisa realizada pelo Serviço Mundial da BBC em 22 países indicou que as pessoas preferiam Barack Obama a John McCain numa proporção de quatro a um. Quase a metade dos entrevistados disse que se o senador Obama fosse eleito, mudaria totalmente sua opinião sobre os Estados Unidos.
Durante oito anos, a palavra que as pessoas usaram repetidamente para qualificar a abordagem da Presidência de George W. Bush vem sendo "arrogância". O tom em Washington parece ser de superioridade, chegando quase a desprezo pelos outros.
Pense nos discursos de homens como Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz ou Paul Bremer. Todos estavam muito preocupados com a ocupação do Iraque, que foi feita em um desafio à opinião da maior parte da comunidade internacional.
Fora dos Estados Unidos, a maioria das pessoas provavelmente concordaria com o julgamento de Madeleine Albright, quando ela disse: "Eu acho que o Iraque vai passar para a história como o maior desastre da política externa americana - pior do que o Vietnã."
Na pressa de começar a guerra, em 2003, quando muitos políticos americanos tinham receio de se posicionar contra a multidão, Barack Obama condenou a invasão publicamente e com veemência.
Sem garantia
O fato de que ele foi eleito presidente é sua recompensa por isso. E todos pelo mundo que sentiram que a guerra do Iraque foi um erro vão achar que os Estados Unidos escolheram agora um caminho diferente - um caminho que se afasta de Guantánamo, Abu Ghraib, tortura por afogamento simulado de prisioneiros e coisas do tipo.
Os Estados Unidos não são mais a potência que já foram. Sem querer, o presidente Bush demonstrou isso. O país ainda pode liderar, mas não está mais em posição de dar ordens ao resto do mundo.
Claramente, Barack Obama entende isso. Como afro-americano, seu passado não é de privilégio e superioridade. Ele vai estar aberto ao mundo de uma forma que o presidente Bush nunca esteve. E ele vai mostrar mais uma vez os valores do sonho americano.
Isto não é garantia de que ele vá ter sucesso como presidente. Jimmy Carter entendeu o domínio mais limitado dos Estados Unidos no mundo pós-Vietnã e se recusou a dar ordens ao mundo. Atualmente a maioria dos americanos considera Carter um fracasso.
Mas o mundo exterior deve estar feliz com a vitória de Obama. E sua opinião sobre os Estados Unidos vai mudar graças a isso.
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