
Em entrevista a ÉPOCA, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso critica a forma como Lula tentou minimizar os efeitos da crise financeira para o Brasil. Ele prevê que, num cenário de menos crescimento, José Serra leva vantagem sobre Dilma nas eleições de 2010
Fernando Henrique Cardoso criticou a forma como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem conduzindo o país durante a crise financeira internacional. Segundo Fernando Henrique Cardoso, Lula "engana" o país sobre os efeitos, para o Brasil, do buraco que começou no mercado imobiliário americano e alastrou-se pelo mundo. "O estilo do Lula é enganar: 'Não vem crise, está tudo bem, vai ser o Natal melhor do mundo'. Não acho isso uma coisa boa", disse o ex-presidente em entrevista a ÉPOCA.
Para o tucano, o discurso otimista de Lula não reverterá o medo dos consumidores diante da crise. "Pode injetar o que quiser. O que fala mais alto é o bolso. Ninguém vai expandir consumo nenhum agora, o governo pode dizer o que quiser. O pessoal fica com medo”, afirmou.
Segundo o ex-presidente, o ritmo de crescimento da economia deve diminuir e passar de 5% ao ano para cerca de 2,5% no PIB de 2009. Isso deve provocar uma queda no ritmo de arrecadação de impostos e, conseqüentemente, um comprometimento dos gastos públicos já programados para o ano que vem. "O governo precisa ter muito cuidado com a questão fiscal", disse.
Em seus dois governos (1995-2003), FHC enfrentou sete crises financeiras e recorreu duas vezes ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para pedir socorro – e verba. Ele recorda que foi muito criticado pelo programa de reestruturação do sistema financeiro (o Proer, de 1995), mas alega que o governo Lula estaria fazendo o mesmo agora, e em proporções maiores.
"Está dando capital de giro pras empresas e dando dinheiro para os bancos, para os bancos financiarem as empresas que fizeram apostas equivocadas, inclusive as que especularam", afirmou o ex-presidente.
FHC também criticou o Banco Central, por ter, segundo ele, afrouxado a fiscalização no mercado de derivativos. "Na crise atual, houve falta de controle da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central sobre esses derivativos. Eles não atuaram como deveriam", disse. Ele relembrou que seu governo não apenas fez o Proer como impôs aos bancos regras de segurança que teriam sido mal aplicadas agora. Para o ex-presidente, Lula deveria estar atento a isso antes de criticar a falta de regras nos Estados Unidos. "Aqui também não houve controle".
Na avaliação de Fernando Henrique Cardoso, o novo cenário de crise financeira favorece a vitória de um candidato da oposição, provavelmente o governador José Serra (PSDB), na corrida pelo Palácio do Planalto em 2010. Em sua análise, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, provável candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, "terá muita dificuldade de ganhar" as eleições. "É bastante possível que o candidato de oposição ganhe, sem prejuízo da popularidade do Lula", afirmou FHC.
Leia a íntegra da entrevista com o ex-presidente na edição de ÉPOCA que chega às bancas neste sábado (25).
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