Recém-criada, medida da Anbid pretende, a médio prazo, dar mais transparência ao investimento
Mariana Segala - AE
Mesmo os investidores de fundos considerados conservadores e de pouco risco, como os de renda fixa ou os referenciados DI, podem passar a conviver mais freqüentemente com rentabilidades negativas nas aplicações. Isso por conta de novas regras divulgadas pela Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) sobre a marcação a mercado dos títulos de crédito privados (papéis como CDBs e debêntures emitidos por empresas para captar recursos) incluídos nas carteiras dos fundos. O impacto da nova regra - que chega para trazer mais transparência ao setor - deve ser sentido também nos fundos multimercados.
Uma circular distribuída na sexta-feira pela Anbid dá novos direcionamentos para a marcação destes papéis, processo que consiste em ajustar o preço de uma aplicação adquirida no passado à realidade atual. Em suma, significa fazer uma carteira de investimentos refletir o quanto ela de fato valeria se todos os investimentos fossem vendidos no dia.
Até agora, não estavam claro quais parâmetros de tempo deveriam ser utilizados ao marcar a mercado os preços dos títulos privados. No limite, o administrador do fundo poderia atrasar o processo, adotando como base os preços de negociações realizadas há muito tempo – o que já não refletiria a situação recente. Se, para fazer frente a saques dos investidores, o gestor precisasse se desfazer destes títulos, seria possível que não conseguisse vendê-los aos preços dispostos nas contas do fundo.
E o pior: por não haver um mercado ativo e volumoso para estes papéis, eles podem acabar sendo vendidos a preços de liquidação, muito mais baixos que os contabilizados. “O mercado de papéis privados no Brasil é meio ‘capenga’”, brinca o sócio da Tag Investimentos, Marcelo Pereira. Resultado: prejuízo para o investidor.
Isso ficou evidente agora, com as oscilações mais fortes dos preços dos títulos. Nos últimos meses, com as dificuldades das empresas para obter crédito em decorrência dos efeitos da crise financeira originada nos Estados Unidos, elas passaram a oferecer juros maiores nos seus títulos para atrair investidores. É o que se verificou, por exemplo, nos CDBs de bancos (incluídos nas carteiras de vários fundos), cujas taxas vêm aumentando continuamente. Ocorre que a relação entre juros e preço de um título é inversa. Quando um sobe, o outro cai.
Últimos 15 dias
Pela nova circular da Anbid, os administradores dos fundos de investimento agora precisam tomar como base os preços de negócios realizados nos últimos 15 dias na hora de marcar os papéis a mercado. Além disso, pela diretriz da Anbid, os parâmetros adotados neste processo devem ser atualizados e informados semanalmente, conforme explica o professor de Finanças do Ibmec-SP, Alexandre Chaia. “Antes, não havia essa periodicidade definida”, diz. "É um processo de evolução do mercado de fundos no Brasil que nos faz ter saltos de qualidade. Cada vez mais o processo fica mais transparentes para o investidor."
A regra está em vigor desde sexta-feira. Por isso, de lá para cá, alguns fundos registraram retorno negativo – o que fica claro nos que se lançam mais aos títulos de empresas. Os fundos que aplicam mais de 50% dos recursos nestes papéis devem ter a inscrição “crédito privado” no nome. No caso dos de renda fixa, eles se concentram na classificação “Renda Fixa Médio e Alto Risco” da Anbid. De acordo com os números mais recentes do site financeiro Fortuna, a categoria registrou, na média, retornos negativos de 0,19% na sexta e de 0,129% na segunda-feira. Segundo o diretor do Fortuna, Marcelo D’Agosto, mais retornos negativos poderão ser verificados no curto prazo, conforme os fundos forem se ajustando às regras. Com o tempo, a tendência é de que as taxas se ajustem.
Não são apenas os fundos de renda fixa e DI que, num primeiro momento, podem ter o retorno abalado. Há multimercados que investem em títulos privados e inclusive trazem o detalhe “crédito privado” no nome, assim como outros fundos de renda fixa ou DI que nem levam a inscrição.
Para o diretor da Mercatto Investimentos, Paulo Veiga, a medida pode não surtir a eficácia esperada pela Anbid. “Enquanto não houver um ambiente eletrônico e com liquidez, haverá problemas na hora de ajustar os preços”, diz Veiga, cuja empresa gere três fundos de crédito privado. Os administradores dos fundos (responsáveis pela marcação a mercado), afirma, têm sensibilidade para detectar as variações de preços de títulos como CDBs, que existem em abundância no mercado. “Mas outros títulos como FIDCs (Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios) são muito pouco negociados.”
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